23º Tuna M’isto: Por detrás das cortinas

Mesmo quem ainda não foi a um festival de tunas sabe como é: grupos vindos de várias faculdades pegam no seu repertório musical, tocam-no e cantam-no, dando um espetáculo diante do público. Há música, risos (talvez algumas lágrimas) e, no fim, prémios para as melhores performances.

A tuna da Escola Superior de Comunicação Social (ESCS), a escstunis, não é exceção. Participa regularmente em festivais e ainda tem tempo para organizar o seu próprio: o Tuna M’isto. Mas a escola de Benfica não se fica pelos números musicais: como forma de intercalar as atuações de cada tuna, há momentos de teatro, apoiados por som e imagem. Um espetáculo multimédia que não nos deixa esquecer que escola superior é esta.

Tudo é pensado ao pormenor desde muito cedo para manter entretido um auditório cheio. Acompanhámos a escstunis ao longo da última semana de ensaios e durante toda a atuação de dia 11 de maio no Tuna M’isto. Dos bastidores, o 8ª Colina tentou perceber o volume de esforço depositado na preparação do festival.

Entre os momentos planeados (como uma cozinheira a rappar ou um quadro a ser roubado) e aqueles que fugiram ao guião do festival (como calças a rasgar e microfones a falhar), vimos estes tunantes levar a cabo uma proeza quase heróica, completa com trajes e capas.

Mas o que é exatamente o Tuna M’isto? Que quantidade de energia é precisa para abrir portas a mais de 500 pessoas? E o que faz este festival ser diferente dos outros? Quem começa por nos responder é Pedro Nunes:

Pedro "Shakespeter" Nunes, a primeira guitarra a contar da esquerda, no ensaio dirigido por Joana “Compê” Baptista. (MAGDA CRUZ/8ª COLINA)

O Tuna M’isto tem duas fases. Primeiro, vem a noite de Serenatas; no dia seguinte, o espetáculo. A maior parte dos festivais de tunas costuma ter estes moldes. No dia 10 de maio, as quatro tunas convidadas e a da casa, a escstunis, aproveitam para tocar as músicas mais calmas e sentidas, num momento mais solene – as Serenatas (ou, se quisermos entrar no tema desta 23.ª edição do festival, o Cocktail). No dia seguinte há o Baile, e as mesmas cinco tunas trazem a palco um espetáculo com mais energia.

No plano das festas das atuações no palco do auditório Vítor Macieira, no dia 11 de maio, estão agendadas as atuações da ArquitecTuna, da Faculdade de Arquitetura de Lisboa; da TMIST, a tuna mista do Instituto Superior Técnico; da TMUM, a tuna de Medicina da Universidade do Minho; e da VicenTuna, da Faculdade de Ciências de Lisboa. Apenas estas atuarão em concurso; depois, para fechar a noite, será a vez de os anfitriões – a escstunis – pisarem o palco. No total, com os números meticulosamente apontados pela organização da tuna da ESCS, seriam 199 tunantes em palco.

Os prémios destinados às quatro tunas convidadas são uma réplica do quadro roubado. (DIOGO VENTURA/8ª COLINA)

O ensaio: crocodilos e papagaios

Às terças e quintas, pelas sete da tarde, os sons que ecoam pela ESCS mudam. O silêncio é interrompido pelo som de bandolins e guitarras, de melodias vindas de acordeões e de vozes a aquecer. No entanto, na semana que antecede o Tuna M’isto, os acordes multiplicam-se e a música intensifica-se.  Os ensaios são reforçados e, por isso, na última terça-feira antes do festival, as mais de 70 pessoas que compõem a escstunis juntam-se no auditório. O ensaio geral ainda está para vir.

A caloira Maria “New Balance” Lourenço segura o Delícia, um dos acordeões da escstunis, no ensaio de dia 7 de maio. (NÚRIA SERENO/8ª COLINA)

A partir das seis da tarde, os bastidores já começam a ter alguma vida. Um a um, os instrumentos começam a sair das salas onde são guardados, atrás do palco, no piso de cima. Algum tempo depois, o auditório Vítor Macieira, onde quatro dias depois terá lugar o festival, já está cheio de tunantes. A hora seguinte é passada a tratar de detalhes. Beatriz “Chocapic” Roberto e Francisco “Carpas” Sezinando contam-nos qual é o seu papel no ensaio – com um grito especial de Joana “Compê” Baptista, que no festival será Constança, uma senhora fina da linhagem do Marquês de Pombal. Os nomes entre aspas são as alcunhas que os membros da tuna ganham quando entram. Porque é que Francisco tem como alcunha “Carpas”? Ouça o áudio.

Francisco “Carpas” Sezinando e a sua guitarra, enquanto treina a “Vida Boémia”, uma das músicas da escstunis. (NÚRIA SERENO/8ª COLINA)
Beatriz “Chocapic” Roberto prepara as credenciais das tunas com a ajuda de João “Factos” Baltazar (NÚRIA SERENO/8ª COLINA)

Ainda há muito trabalho pela frente. A tenda branca, onde todos poderão comer e beber, já está montada fora da ESCS, mas as senhas de comida e bebida ainda estão a acabar de ser plastificadas. As credenciais para o apoio técnico (que os repórteres do 8ª Colina haverão de usar ao pescoço) estão nos retoques finais; as janelas da “mansão” recriada no auditório estão a ser coladas; os sketches de teatro estão a ser ensaiados. Mesmo sabendo que esta reportagem irá sair depois do Tuna M’isto, todos os membros da tuna têm muito cuidado com o que revelam. Como o caloiro da escstunis Guilherme “Gru” Figueiredo diz, “o segredo é a alma da tuna”. Os detalhes do festival só param quando terminar o Tuna M’isto. Até lá, toda a gente da tuna, do candidato ao veterano, ajuda a compor o Baile, que será o tema do festival.

Como a melhor maneira de conhecer uma tuna é ouvi-la, ficam aqui alguns momentos do ensaio de terça-feira, dia 7 de maio, a poucos dias da atuação final. Atenção: aqui podem ouvir-se partes das músicas e não a sua totalidade.

Para ver e ouvir o repertório completo da escstunis clique aqui

A semana que antecede o festival destina-se aos últimos retoques, mas a preparação para o momento alto do ano iniciou-se ainda no verão, quando se começou a compor a nova música original da escstunis. Criado de raiz, o novo tema será apresentado no Tuna M’isto. Em novembro, a escstunis já ensaiava a música nova com que abrirá a atuação: “1755”.

A música encaixa na perfeição no tema do festival, por terem ambos referências ao terramoto de 1755 e ao Marquês de Pombal. “1755” começa com pouca intensidade, com sussurros ou preces, simulando o ambiente de igreja, e explode no “terramoto”. Mas o que significa esta música com o nome da data em que Lisboa tremeu? As veteranas Sofia ”Primeira Vez” Jesus e Inês ”Maçaroca” Lucas – esta última também Diretora Musical da tuna – explicam isso mesmo depois de estrearem a música em palco:

A escstunis ensaia a sua música nova, “1755”, com o apoio da Diretora Musical, Inês Lucas. (MAGDA CRUZ/8ª COLINA)

Mas hoje a escstunis está ainda nos preparativos para o Tuna M’isto. É o ensaio de terça-feira, o antepenúltimo antes do festival. Toda a gente acaba os trabalhos manuais que lhes estão confiados: decorações, credenciais, senhas de comida e bebida para a festa. Mal se ouve gritar a palavra “palco”, largam-se todos esses pormenores e começa o aquecimento. Agora sim, todos em formação.

Os preparativos para o Baile. (NÚRIA SERENO/8ª COLINA)

O baile da Constança

A hora do espetáculo está quase aí. Já há muitos espetadores à porta do auditório – ou, melhor dizendo, no hall de entrada de Constança, herdeira do Marquês de Pombal. O presidente da escstunis, João “Factos” Baltazar, para um pouco para mostrar o espaço onde os repórteres do 8ª Colina podem estar, e para ir buscar as credenciais.

No caminho, diz-nos que os técnicos do som ainda não estão prontos. No dia da atuação principal, João está algo nervoso. E está bastante cansado. Com tudo aquilo com que tem de lidar, como ele diz, pouco ou nada dormiu, mas o esforço valerá a pena. No dia do penúltimo ensaio, João Baltazar explicava o porquê de todos estarem tão felizes, o que é preciso para trazer uma música nova a palco, e para onde é canalizado o pouco lucro que o festival dá.

João “Factos” Baltazar, presidente da escstunis e estandarte, no ensaio de terça-feira. (MAGDA CRUZ/8ª COLINA)

A tuna está quase toda sentada nos lugares da frente do auditório, à espera da chegada dos responsáveis do som. Quem vai interpretar o papel de convidado do Baile de Constança está vestido a rigor, de vestido comprido, no caso das mulheres, e de fato preto cuidadosamente engomado, no caso dos homens. Estes convidados têm o papel de simular surpresa quando um quadro valiosíssimo desaparece da sala de estar. Todo o enredo, a partir daí, andará à volta desse desaparecimento, até que se encontre o quadro e o responsável pelo roubo.

Mal os técnicos do som chegam, é um corrupio: há cabos para um lado e para o outro; há microfones por colocar. Mas tudo se resolve rapidamente. São quatro os técnicos e vêm de uma empresa de som que costuma acompanhar Tony Carreira no Altice Arena. Para quem faz o palco principal do NOS Alive, o Tuna M’isto “é uma brincadeira”, confessa Jaime, um dos técnicos. As indicações durante as atuações não param. Jaime apercebe-se das mudanças de última hora que as tunas fazem em palco e não fica nada contente. Vem afixar um novo plano na parede do backstage e pede que se organizem melhor. Quem está atrás das cortinas do palco nada pode fazer. Talvez tivesse sido melhor Jaime ter sido avisado de como tudo se passa nos bastidores e da barafunda que ali pode acontecer. Bastava ouvir Miguel “Herdeiro” Martins e Beatriz “Chocapic” Roberto:

O ambiente antes do início do espetáculo

Loucura controlada

Em qualquer baile que se preze, há saltos altos. Para não se ouvirem os saltos a bater no soalho de madeira, as personagens andam descalças, ou com muito cuidado. Mesmo sendo quase absoluto o silêncio, ouvimos palavras de encorajamento trocadas muito baixinho. Há uns “tu consegues”, alguns “força” e muitos “’bora lá”.

Estamos atrás do palco. Do lado esquerdo, como que virado para o público, mas dele separado por uma parede, está Mário “Aguilera” Barata, tuno da escstunis, encostado a uma cadeira. Lá se senta. Não está com boa cara. “Coitado do Mário”, diz a caloira Catarina “Xitex” Farinha. “Ele esteve com imensa febre esta manhã”. A primeira tuna ainda não acabou de tocar e ninguém descansa muito tempo. Encostam-se por breves segundos, mas logo se levantam para ajudar alguém a colocar o microfone ou a passar uma pandeireta de um lugar para outro. Mário fica com uma cara cada vez pior, mas estranhamente fica sempre bem nas fotografias.

Catarina Farinha refresca Mário Barata (DIOGO VENTURA/8ª COLINA)

A febre não está a passar e é ele uma das personagens principais. Cada vez que sai do palco diz em voz alta quantas vezes tem de lá voltar. Não o faz por tédio. O esforço que tem de fazer para que ninguém do auditório perceba que ele está doente é muito grande, mas nem isso o vai impedir de cantar as músicas da escstunis quando chegar a hora.

Na outra ponta dos bastidores está aquela que fará de cozinheira num sketch daqui a pouco.

A Catarina “Jorge” Veríssimo (“Jorge” é a alcunha que a escstunis lhe deu por ela ter o mesmo apelido que o ex-presidente da ESCS) dança com a colher de pau na mão e ensaia as falas em voz baixa.

Antes de entrar para o palco há problemas com o microfone da “cozinheira”.

É crucial que Catarina tenha som e, por isso, uma mini-equipa mobiliza-se para lhe arranjar o microfone – um daqueles que se põem à volta da cabeça, muito discreto e profissional. O papel dela envolve falar com o detetive encarregado de investigar o roubo do quadro de valor incalculável que desapareceu e fazer um rap sobre os seus males e tormentos. Afinal de contas, ela esconde um grande segredo: pôs chouriço de marca branca na comida sem avisar a patroa, mesmo sabendo que isso faria o delicado estômago de Constança andar às voltas.

Miguel “Herdeiro” Martins ajuda Catarina “Jorge” Veríssimo, a cozinheira, a colocar o microfone. (DIOGO VENTURA/8ª COLINA)

Catarina sai do palco com uma ovação do público. Está vermelhíssima e sem fôlego. Depois de abraços e saltos de histeria, arruma o avental e tenta recuperar a calma. Todos os festejos são feitos de forma afónica ou em sussurros muito suaves. Qualquer som pode ser ouvido pelo público e o objetivo é que este se mantenha focado na história que se vai desenrolando: a da investigação do roubo do quadro valioso que desapareceu no início do Baile de Constança. Não houve momento que batesse este termos de excitação – talvez apenas a atuação da escstunis. Quem não estava no palco estava nos bastidores a cantar em playback todas as falas e músicas de Catarina, a cozinheira. Neste caso, Catarina canta por cima da melodia do tema “Cafeína”, de Plutónio.

Os momentos depois de Catarina, a cozinheira, sair do palco. (DIOGO VENTURA/8ª COLINA)

A parte do enredo que cabia a Catarina acabou e ela pode finalmente respirar de alívio. Agora só volta a subir ao palco no fim da noite, com a escstunis, quando chegar a altura de apresentar a nova música do seu cancioneiro, e não só. Entretanto, os “atores” entram por um lado do palco e saem pelo outro.

É a vez de Inês “Maçaroca” Lucas atuar. Pela primeira vez, vai participar na parte teatral do espetáculo. O papel de Inês é fazer de empregada da limpeza e ser interrogada pelo detetive César, interpretado por um tuno de quem já falámos: Mário Barata, que parece estar cada vez pior. Sempre que volta do palco diz sentir-se mais doente. A febre continua a não passar, o suor escorre-lhe pela cara e até pequenas borbulhas lhe começam a aparecer na barriga. Já decidiu: quando o festival acabar vai para as urgências.

Mário prepara-se para entrar de novo em palco e tentar descobrir o ladrão do Quadro da Comunicação. (DIOGO VENTURA/8ª COLINA)

Cada um sabe a sua parte. E muito do encanto de estar no backstage está aí – em ver que cada um sabe o que fazer.

Quem sai do palco desmaquilha-se em frente ao espelho que serve todos. Não precisamos de esperar muito até ouvir alguém aproximar-se e pedir: “Podes chegar-te um bocadinho para o lado?” Maquilhagem e desmaquilhagem coexistem harmoniosamente. Isto tudo ao som da música de qualquer uma das tunas que esteja a atuar. Todos se ajudam uns aos outros, seja a desfazer tranças, a ir buscar água ou comida, ou apenas desejando “boa sorte”.

No caso de Inês Lucas, a maquilhagem e os penteados não são uma preocupação no dia-a-dia, mas o batom e o cabelo repuxado fazem parte da sua caracterização. 

Inês vai ser a empregada doméstica e tem de estar bem composta. Enquanto a Patrícia ”Pereré” Pinheiro a penteia e depois lhe pinta os lábios, Inês, uma veterana, tem um par de boxers na mão. Ela comenta que os pais estão no público e que a vão ver. Quem está no backstage brinca com o facto de o pai poder reconhecer os boxers. Ela ri-se e espera que isso não aconteça. Ficará tudo a salvo… Isto se o detetive não encontrar o homem a quem os boxers pertencem. Vamos estragar a surpresa: ele está escondido debaixo da cama, no palco.

Os momentos divertidos são estas coisas simples: ver alguém a pôr batom sem estar habituada, uma piada dita para cortar a tensão, as apostas sobre os resultados do jogo de futebol que está a decorrer, os sorrisos nos últimos momentos antes de se entrar em palco. É assim que o tempo vai passando. Depois de trocar a roupa chique, digna de baile, pelo traje académico, Beatriz “Jennifer” Raposo pede a Mariana “TS” Carriço que lhe estique o cabelo. Beatriz já se esteve a desmaquilhar. Quem lhe tirou os brincos foi uma repórter do 8ª Colina, ao ver o quão atarefada ela estava.

Mariana ajuda Beatriz a esticar o cabelo para a atuação final. (DIOGO VENTURA/8ª COLINA)

Uma após outra, as três tunas de Lisboa e a do Minho vão entrando.

Os minhotos da TMUM (DIOGO VENTURA/8ª COLINA)

Quando saem pela porta que fica ao lado do palco, todos respiram fundo, de alívio, mas só param de tocar quando o último membro da tuna transpõe a porta. Os aplausos ainda duram mais tempo. Depois, há abraços a torto e a direito para celebrar a conquista de uma atuação bem-sucedida.

Nos bastidores há sobretudo muita correria, mas o cenário é de uma loucura controlada.

Alguns tunos conversam sobre as cadeiras que estão a ter na faculdade, para quebrar a tensão; Jaime, o técnico de som mais presente no backstage, desabafa com quem passa sobre o quão frustrado está com o resultado do jogo Sporting-Tondela. É que o empate dessa partida deixa o seu clube, o Vitória de Setúbal, perto de ser despromovido da primeira liga de futebol.

Jaime, ténico de som e fã do Vitória de Setúbal, em ação

Pouco depois de sair do palco, o colar de pérolas de Catarina Farinha, um enfeite muito chique, rebenta e agora há pérolas espalhadas pelo chão. Pelo menos ninguém tropeça nelas durante a noite – o que seria trágico, porque a atuação da escstunis ainda está para chegar.  

O que os une a todos é a sede e a fome que lhes dá de vez em quando. Ou talvez seja o nervosismo que os impele a ir buscar a sua garrafa de água ou a dar uma trinca num rissol ou numa maçã.

O nervosismo tem muitas faces e muitos desabafos – desde o “ai, os meus pêlos veem-se através dos collants!” até ao “acho que vou ter um enfarte”.

Entretanto, chega o intervalo e todos podem respirar um pouco. É agora que conversamos durante algum tempo com Daniel ”Penugem” Gomes, o membro mais antigo da escstunis, nas mesas do piso -1, o espaço da ESCS conhecido pela socialização que lá tem lugar. Podíamos dizer que Daniel entrou neste mundo das tunas há 19 anos, mas fica muito melhor se dissermos que em 2020 fará 20 anos que isso aconteceu. O amor que tem pela escstunis não desvanece e transparece no que diz. Já foi a inúmeros festivais de várias tunas, incluindo 15 edições do Tuna M’isto (contas de cabeça), e percebe bem a dinâmica.

Daniel Gomes (à esquerda, de preto) num dos últimos ensaios. (MAGDA CRUZ/8ª COLINA)

O intervalo acaba e as atuações recomeçam. Faltam atuar duas tunas, sem contar com a da casa. Inês Lucas, que também faz parte da Direção Musical da escstunis, vai escrevendo palavras no quadro branco que há nos bastidores, para dar alento.

Uma das frases é “Feliz Tuna M’isto – só ela irá tremer”, uma menção a um dos versos da nova música. No topo vem também a frase, ou a ordem, “Pica nesses cus”. A energia não pode faltar num dos momentos mais importantes do ano. Quem não quiser encorajamento pode ir comendo as maçãs que estão por baixo do quadro, enquanto revê o alinhamento das músicas para a noite, que também está escrito no quadro. Os tunantes, à medida que concluem os momentos de teatro, vão vestindo o traje académico para estarem prontos a atuar. Antes disso, ainda haverá um aquecimento, com toda a tuna presente.

Da esquerda para direita, os membros da escstunis Mariana, Guilherme e Leonor junto do novo contrabaixo, já trajados. (DIOGO VENTURA/8ª COLINA)

Tuna M'isto, Tuna M'isto, Tuna M'isto, Tu...

Enquanto a última tuna convidada atua, a escstunis reúne-se numa sala demasiado pequena para todos os membros. Mário “Aguilera” Barata, o tuno adoentado, já deixou de contar quantos sketches lhe faltam. Enquanto detetive encarregado de investigar o roubo do quadro, Mário aparece em todos os momentos de teatro. Agora só tem de se preocupar com a atuação final, na qual tem a seu cargo o solo da música “Teu Sorriso”. Durante o aquecimento, Mário opta por ficar debaixo da ombreira da porta, longe do calor. Quente já ele está muito.

Inês vai dando indicações: pede que todos fechem os olhos e tem mesmo de gritar “ninguém chora!” – mas há lágrimas nos olhos até de alguns repórteres do 8ª Colina. Mais para a frente, é ela que chora um pouco e faz alguns narizes pingar. Os aplausos durante o aquecimento são tão estrondosos que, para bem dos nossos ouvidos, tivemos de lhes reduzir o volume. O amor dentro da tuna é demasiado alto e chega a roçar o limiar da dor, bem lá para cima dos 100 decibéis. Este é um momento de muita cumplicidade, que faz tremer a sala, tal como a música “1755” promete.

Atuação final

Um pouco depois da meia-noite, chega a vez da escstunis. Jaime, um dos técnicos de som, anda freneticamente por entre as sombras do palco a ajustar os microfones. Já está um pouco mais calmo: o Vitória de Setúbal não foi despromovido à segunda liga de futebol.

A atuação começa bem, com muita emoção à mistura. Mas Gonçalo “Zé” Milho tem poucas razões para festejar. É pandeireta, uma posição que exige muito movimento, e rasgou as calças. É Tomás “Cadê” Carranca quem o ajuda, trocando o seu par com ele. Até Jaime, o já referido técnico de som, dá uma mãozinha, atando os sapatos do desafortunado Milho.

Depois de ter rasgado as calças, Gonçalo “Zé” Milho riu-se da situação embaraçosa. (DIOGO VENTURA/8ªCOLINA)

Para chegar ao momento da atuação da esctunis, houve muito suor e muitas lágrimas. Felizmente, sangue não está no programa do Tuna M’isto. Mas faz parte da letra da nova música apresentada, “1755”:

“Do fogo,
Vi sangue a ferver;
Da água,
Suor de querer.
E foi o meu povo
Que me fez ver:
Se a terra de novo
Ousar romper,
Só ela irá tremer.”

1755, escstunis

Quase no fim da atuação da esctunis, os tunantes tinham uma surpresa: um dos seguranças da ESCS, Pedro, foi nomeado tuno honorário e subiu ao palco para cantar o hino da escstunis, com todos.

Para muitos, este é o primeiro Tuna M’isto: é a primeira vez que trabalham para os dois dias do festival, que sentem o friozinho na barriga e que sobem ao palco com mais de quinhentas pessoas a assistir. Mas há alguns, como Daniel “Penugem” Gomes, que colecionam festivais destes. Para Clara “Cookie” Gonçalves, soprano, guitarra e pandeireta, o 23.º Tuna M’isto vai ser o último. Clara entrou na tuna em 2011 e aí se manteve, mesmo depois de terminar a licenciatura em Publicidade e Marketing.

Clara “Cookie” Gonçalves, no ensaio de terça-feira. (NÚRIA SERENO/8ª COLINA)

Com o fim do 23.º Tuna M’isto, fica o registo de todo o trabalho que acontece “por detrás das cortinas”. Os nervos, os rissóis e as meias de vidro rasgadas são o prato do dia. Quem está na tuna é porque está ou já esteve num dos cursos da ESCS, mas esse não é o único requisito para fazer parte da escstunis. É preciso muito amor, como dizem os caloiros Guilherme e Miguel e a tuna Mariana.

Qualquer membro da tuna tem as suas mazelas. Nos naipes de cordas há calos na ponta dos dedos. Os pandeiretas têm muitas nódoas negras escondidas pelos collants pretos ou pelas calças do traje. Mas, no fim da atuação, nada disso interessa: é o preço a pagar para trazer um espetáculo grandioso à comunidade escsiana, e não só.

Instrumentos arrumados, vai tudo para a segunda noite de festa na tenda branca, que está à espera no estacionamento da escola. Todos ficam para além da Hora da Gravata, a festejar mais um Tuna M’isto, que só termina com o nascer do sol.

Por: Daniela Ferreira, Diogo Ventura, Gonçalo Taborda, Gustavo Carvalho, Michelle Coelho, Magda Cruz, Núria Sereno e Tiago Filipe

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