Um Acordo de Cavalheiros

No painel que marcou a tarde do primeiro dia da Conferência “Financiamento dos Media”, organizada pelo Sindicato de Jornalistas, que decorre na Cidadela de Cascais, algumas das figuras mais influentes do jornalismo juntaram-se em torno das dificuldades e oportunidades dos modelos de negócio e de gestão dos media. Num último momento, deputados representantes de diferentes grupos parlamentares foram convidados a discutir o financiamento dos media no panorama político. 

Afonso Camões, jornalista e diretor geral de conteúdos do Global Media Group (GMG), abriu a sessão. “Apesar do grande foco na tradição digital são as edições impressas que pagam as contas”.

Dos oito convidados, foi o primeiro a pôr em cima da mesa o problema dos conteúdos jornalísticos não pagos. Conclui que com a gratuitidade das notícias cabe ao Estado ter a preocupação de fazer cumprir as leis. Não compactuar com o roubo de conteúdos noticiosos e estimular a literacia digital são bases importantes para o combate à desinformação e promoção da liberdade de imprensa.

Afonso Camões, Administrador da GMG (CARLOTA PORTUGAL/8ª COLINA)

Para Ricardo Costa, diretor geral de informação, os média são uma indústria. “A visão cultural do jornalismo é limitada, derrotista e reduz os apoios ao Estado”. O valor dos conteúdos foi reduzido e, em contrapartida, o conteúdo publicitário foi multiplicado. Ricardo Costa, tal como a maioria dos oradores, adota uma posição ceticista quanto a ajudas diretas de financiamento pelo Estado, pois aumentariam a desconfiança na independência do Jornalismo.

O diretor do Público, Manuel Carvalho, subscreve a descrença na possibilidade de o Estado financiar o Jornalismo, porém, reconhece que sem financiamento “os que estão a sobreviver estão a fazê-lo sem concorrência”.

Sérgio Figueiredo, diretor de informação da TVI, intitula a sua intervenção de “Os media: uma indústria particular”. Na sua opinião o jornalismo está ao sabor das regras do mercado. “O mercado desaparece, mas o jornalismo não está em vias de extinção. Nada o pode substituir, mas também nada o subsidia”.

Sérgio Figueiredo, Ricardo Costa e Mafalda Anjos (CARLOTA PORTUGAL/8ª COLINA)

Mafalda Anjos, Publisher da Trust in News e diretora da Visão, deu como título à sua intervenção “Resistir, Resistir, Sobreviver”. A sua perspetiva sobre o jornalismo atual assenta na ideia de um paradoxo de relevância. “Quanto mais importante é uma história, menor o seu financiamento. As histórias perdem propriedade por meio de uma concorrência desleal.”

Em entrevista exclusiva ao 8ª Colina, Mafalda Anjos, revelou a sua posição em relação ao financiamento do jornalismo e à forma de combater a concorrência desleal de que falou: “O que se deve fazer é um Acordo de Cavalheiros entre os membros da indústria de maneira a não roubar histórias alheias e vendê-las a outros órgãos de comunicação. Por outro lado, deve surgir uma educação para a cidadania, que leve as pessoas a procurar a fonte de informação e ler esse conteúdo. Deve explicar-se que existem direitos de autor”.

Para a diretora da Visão a distinção entre jornalismo e entretenimento é clara. “Entreter é o papel das redes sociais e dos influencers. O entretenimento não obedece aos critérios de rigor, isenção e independência do jornalismo. O jornalismo que sobrevive é o que se distingue dos demais”.

O segundo painel da tarde contou com a presença de deputados dos grupos parlamentares, respetivamente pela ordem de intervenção, PS, PSD, BE, PCP e CDS.

Apesar da divergência de opiniões entre os convidados, todos demonstraram preocupação com a asfixia dos media locais e regionais, o desrespeito pelos direitos de autor, a falta de ajudas do Estado e a gratuitidade dos conteúdos jornalísticos. A falta de reconhecimento dos jornalistas é um fenómeno que necessita de ser urgentemente mudado. Como ouvimos na intervenção da deputada do CDS, Cecília Meireles, “o fruto dos conteúdos não está a ir para quem os produz, mas para os intermediários”.

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Artigo escrito por: Carlota Portugal,  Inês Malhado e Joana Nunes

Fotografias: Carlota Portugal

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