A bolsa ou a vida?

O velho dilema: seguir o lucro como fio condutor ou perseguir uma causa, deixando impacto no mundo. O jornalismo de investigação é obrigatório para se cumprir com missão de forma plena. A morgue é o cenário perfeito para um jornalismo que não trabalha nos escombros.

O raciocínio é elementar: a paixão pelo emprego advém, incontestavelmente, dos filmes norte-americanos. Isto acontece na advocacia, nas forças armadas, no travesti, no “trolhismo” (profissão de trolha) e no jornalismo. Que estudante de jornalismo nunca se imaginou numa cave escura – à luz de uma lanterna exaurida – rodeado de ficheiros e cópias de artigos do Código Penal, com as paredes preenchidas com capas de jornais e fotos de criminosos de alta estirpe? Por criminosos de alta estirpe entenda-se aqueles cujos crimes de que são alegadamente acusados são branqueamento de capitais, corrupção passiva e dividas ao fisco. É este o trabalho do jornalista de investigação, à luz, é claro, da visão que os realizadores norte-americanos têm do jornalismo. O mais instigante é que este cenário é possível. É tão satisfatório dedicar 15 horas do nosso dia a uma causa como esta: investigar, confirmar, escrever, gravar, esconder, ouvir, sentir, falar, e seguir o instinto.

É da incumbência daqueles que estão no topo da pirâmide hierarquizada não deixar escapar o jornalismo de investigação. Mais do que aquilo que vemos nos filmes, a investigação é necessária para tocar no fundo. Portugal precisa disso. Precisámos disso e, talvez, se a investigação tivesse sido feita de forma mais acentuada, não haveria “Camarates”, “Fax’s de Macau” e “Casos dos hemofílicos” em “águas de bacalhau”. Quem duvidava das minhas capacidades para fazer rimas de esquema rimático A-B-C-B surpreendeu-se vivamente.

Retomando – não há dúvidas de que não há democracia sem existir um jornalismo astuto e penetrante: que investiga, que aprofunda o tema com o rigor necessário para, por vezes, substituir, infelizmente ou felizmente, as forças policiais de investigação. A meu ver, é fulcral existir um departamento em qualquer órgão jornalístico cuja função é debruçar-se ao abrigo do compromisso, perseverança e do afinco necessário para garantir o serviço público.

É certo que é um tipo de atividade dispendiosa. Também é evidente que na maior parte dos casos o público não adere como se gostaria que aderisse a este tipo de reportagem. Mas sem ela para que serve fazer jornalismo? É importante estar a par de tudo o que acontece no mundo: dar notícias com rapidez e com regularidade. Todavia, “depressa e bem não há quem” – como diz o ditado. Por vezes, é preciso investigar e dar algo às pessoas, algo de raiz: pesquisar, destacar equipas e dedicar o tempo necessário a uma causa, que é bem maior do que superar o lucro do “vizinho do lado” – demore o que demorar, custe o que custar, e doa a quem doer. A magia do jornalismo reside em expor a “fruta podre” que está revestida de aparente saúde.

Falta, claramente, o sentido de responsabilidade nos órgãos de comunicação social. Talvez se fosse cultivado o hábito de se fazer mais jornalismo de investigação, o público, gradualmente, familiarizar-se-ia.

 

 

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