A ciência também passa pela reivindicação política

Defender o acesso de todos ao conhecimento e à ciência: foi este o mote da iniciativa que decorreu em quarenta países de todo o mundo, entre os quais Lisboa.

 

A Marcha pela Ciência realizou-se no dia 22 de abril, às 14h, saindo do Rato e seguindo até ao Largo do Carmo, em Lisboa.

A iniciativa surgiu nos Estados Unidos por um grupo de cientistas, a par das recentes medidas polémicas de Donald Trump, no que diz respeito ao campo da ciência, que visavam, entre outros aspetos, cortes significativos nesta área. A palavra espalhou-se rapidamente, graças ao poder de divulgação das redes sociais, e quarenta foram os países, em mais de quinhentas cidades, que se juntaram a esta causa.

Portugal não foi exceção, e centenas de pessoas participaram nesta marcha que culminou com um comício no Largo do Carmo.

Como nos explica o cientista Eric Dewitt, um dos três organizadores da iniciativa em Portugal, a marcha nos Estados Unidos «tem uma forte mensagem anti-trump», mas em Portugal, ainda que seguindo o mesmo modelo daquela, pretendeu-se dar mais valor à interseção entre a sociedade e a ciência e à importância que a ciência tem para o progresso e bem-estar da mesma a longo prazo: «a ciência é transversal a todas as pessoas apesar das diferenças ideológicas ou religiosas que possam existir», defende. «Vimos que em Portugal ainda não havia uma iniciativa similar à que se estava a desenvolver nos Estados Unidos». Assim, «decidimos, então, eu e mais um grupo de colegas, começar a organizar esta marcha em Lisboa, pois consideramos que a ciência é fundamental para o progresso, o crescimento e o bem-estar da sociedade portuguesa».

Vanessa Tolentino, jovem estudante portuguesa, participou como voluntária na organização da Marcha, ajudando a divulgar o evento, tanto junto de pessoas do meio científico como fora deste. «A ciência é para todos e de todos», considera Vanessa. «Nós não vamos desistir; vamos continuar sempre a defender o conhecimento e a verdade para que a ciência seja espalhada».

Todas as ciências foram contempladas nas atividades e iniciativas adjacentes à Marcha pela Ciência.

 

Eric Dewitt encontra-se em Portugal a trabalhar como cientista desde há cinco anos e considera que, em Portugal, apesar de nenhum político afirmar que a ciência é má, «nunca é tratada como uma prioridade», situação que se viu agravada desde a crise. «Há muito boa ciência em Portugal mas é preciso mais investimento», acrescenta. «Normalmente, a ciência e a investigação não precisam de um enorme e excessivo investimento para se fazerem grandes descobertas, mas é necessário que o Estado invista nesta área». Espera que, com esta iniciativa, se estimule o debate público e a visibilidade dos investigadores científicos.

Chegada a Marcha ao Largo do Carmo, ali tiveram lugar discursos de várias personalidades: o Comissário Europeu Carlos Moedas, a Professora Maria Mota, a Professora Olga Pombo e o Professor e deputado Alexandre Quintanilha.

A mensagem transversal a todos os discursantes foi a de que os cientistas e os investigadores devem manifestar-se e reivindicar mais. Carlos Moedas, Comissário Europeu para a Investigação, Ciência e Inovação desde 2014, falando dos dois anos e meio da sua experiência em Bruxelas, apelou: «muita gente vinha bater à porta do meu gabinete: agricultores, políticos, entre outros, mas nunca vi os cientistas. Manifestem-se e não tenham medo». Referiu ainda que os media não falam ou pouco dizem sobre novos acontecimentos ou feitos marcantes por cientistas e investigadores e que isto deve ser mudado pois «sem a ciência não temos futuro».

Carlos Moedas, Comissário Europeu para a Investigação, Ciência e Inovação desde 2014, discursando no Largo do Carmo.

 

Também a Professora Olga Pombo, do Centro da Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa, defendeu que «a ciência deve ser financiada publicamente e deve representar o interesse de todos e lutar pelo interesse de todos. Para isto se cumprir é imperativo que seja financiada pelo Estado». Acrescentou ainda que a ciência deve abrir-se à sociedade civil através do protesto e da reivindicação, mas que a sociedade também deve fazer um esforço por defendê-la: «a ciência na sua raiz é feita de combate; o seu motor é o debate, e estes são valores que se partilham com a democracia».

A acompanhar esta marcha e este comício foram realizadas inúmeras atividades científicas abertas ao público na Baixa de Lisboa: debates informais, conversas “cara a cara” com cientistas, discussões em grupo, palestras e inclusive demonstrações científicas da Ciência Viva, em sítios como a Praça Luís de Camões, a Livraria Sá da Costa e a Associação Zé dos Bois.

Professora Olga Pombo, do Centro da Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa, defende que «a ciência deve ser financiada publicamente e deve representar o interesse de todos e lutar pelo interesse de todos».

 

Por Lia Serra

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