A “dieta Maduro” que está a matar a Venezuela

(Miguel Gutierrez/Lusa)

As refinarias de petróleo estão cheias, mas as mesas de jantar vazias. Esta é a frase que melhor retrata o ano de 2018 da Venezuela, o país que está a passar pela sua própria Grande Depressão

Depois de quatro anos seguidos de recessão económica, o país sul americano chegou a um ponto nunca antes visto na América do Sul, no século XXI. Esta crise não teve origem numa catástrofe natural ou numa guerra civil: é sim o resultado de uma série de decisões que remonta a 1998, quando Hugo Chavéz se tornou presidente venezuelano. Chavéz implementou as “missões bolivarianas”, medidas que reduziram o desemprego e a taxa de pobreza do país. Mas estas missões não trouxeram nada de bom para a economia nacional. O governo gastava mais nestes programas sociais do que aquilo que conseguia pagar.

A Venezuela é também um país que aposta sobretudo na exportação de petróleo, desde a descoberta do bem, no início do século XX. Representa 95% do seu lucro com exportações. Assim, em 2014, quando o seu preço desceu drasticamente, a bola de neve começou. A economia entrou em recessão e a inflação começou a aumentar. Até ao fim do ano, a International Monetary Fund (IMF) estima que a inflação chegue a 1 000 000% (um milhão por cento). Um café custava, em agosto, de acordo com a BBC News, 25 milhões de bolívares. Tendo em conta que os preços duplicam a cada 20 ou 25 dias, este valor estará ainda maior hoje.

A juntar a isto, Nicolas Maduro, sucessor de Chavéz (presidente desde 2014), tem implementado medidas de cariz autoritário para reprimir as manifestações populares contra as deploráveis condições de vida (a que muitos chamam jocosamente a “dieta Maduro”, devido à inexistência de alimentos).

São condições de vida inimagináveis, com as pessoas a recorrerem ao mercado para comprarem carne podre, que custa significativamente menos. As prateleiras de supermercado estão vazias, pois a tabelação de preços por Chávez fez com que a produção de certos bens deixasse de ser lucrativa.

O hino venezuelano chama-se “Glória ao povo”. Mas, com sete por cento da sua população a emigrar, cedo o país ficará sem povo a quem dar glória. Até porque os que ficam correm sérios riscos de saúde, com os regulares cortes de eletricidade a dificultarem o trabalho dos hospitais.

Uma crise económica de tal maneira acentuada que se tornou agora numa crise humanitária e política. Os que fogem fazem-no para sobreviver. Os que ficam apenas procuram viver até ao dia de amanhã, num país que já não parece ter futuro.

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