A dignidade é um direito

Desde 2009 que o Prémio Dignitas tem o objetivo de galardoar trabalhos jornalísticos que lutam contra mentalidades estereotipadas referentes à deficiência.

O prémio Dignitas 2015 foi para a área da televisão com a reportagem “Impossível é só um exagero para difícil”, de Miriam Alves transmitida pela SIC. Este trabalho jornalístico conta a história de crianças invisuais que partilham experiências com outras crianças numa colónia de férias. Tal como a jornalista Miriam Alves referiu, o objetivo deste projeto é “promover a inclusão, o viver da vida, o realizar das experiências e o dia a dia integrados no todo da comunidade”.

Na conferência que antecedeu a entrega de prémios, Ana Sezudo, presidente da Direção Nacional da Associação Portuguesa de Deficientes (APD), convidou os representantes de vários grupos parlamentares para a acompanharem numa conversa sobre o tratamento da deficiência no espaço público e nos órgãos de comunicação social.

“É preciso haver o sentimento de que há espaço para tratar as diferenças sejam elas quais forem.” Foi desta forma que a representante parlamentar do PAN, Naíde Muller chamou a atenção para a relevância da formação e da mudança de mentalidades.

O deputado do Bloco de Esquerda (BE), Jorge Falcato, relembrou que nos media, o deficiente “é visto ou como um herói, ou como uma vítima”. E, por isso, destacou a importância de se banalizar a deficiência- “Uma pessoa aparece no cinema pela sua qualidade de ter uma deficiência e não por ser uma pessoa. É a relação da pessoa com a sociedade que a «deficientiza»”, sinal de que o meio social é o principal limitador da execução dos direitos humanos destes indivíduos.

Portador de uma deficiência, Jorge Falcato, falou também em nome próprio exemplificando: “Não consigo ir ao cinema, porque o cinema tem escadas e não porque estou em cadeira de rodas”.

A presidente da APD, a par disto, explicou que foi contactada por diversos órgãos de comunicação social quando o deputado do Bloco de Esquerda foi eleito: “Perguntaram-me se não era um sinal positivo. Mas, na realidade não é assim tão positivo porque me contactaram pelo facto de alguém com deficiência ser eleito. Se assim foi, é porque ainda não atingimos o objetivo”. Foi desta forma que Ana Sezudo expôs as barreiras psicológicas criadas no meio social.

Jorge Falcato confirmou o sentimento: “Era um coxo na Assembleia. Ninguém queria saber aquilo que eu pensava sobre a deficiência e outros assuntos. A novidade era a cadeira de rodas”.

O caminho a percorrer ainda encontra muita resistência. Sónia Colaço, deputada do Partido Ecologista «Os Verdes» (PEV) afirmou que “a sociedade não pensa na diferença”, apelando a um pensamento diferente e em todos.

A deputada considerou que estes prémios são a melhor maneira de consciencializar a sociedade portuguesa das lutas constantes destas pessoas portadoras de diferenças.

Igualmente presente, Diana Ferreira, deputada do Partido Comunista Português (PCP) não só vincou a importância da comunicação social e das histórias que aí são divulgadas, como elogiou o trabalho feito pela Associação Portuguesa de Deficientes: “É incansável a luta na conquista dos seus direitos”. Diana Ferreira frisou ainda que era função do Estado promover a interação e inclusão dos indivíduos deficientes e das suas famílias.

Durante o debate foi apresentado um estudo realizado pelo Observatório da Deficiência e Direitos Humanos que revelava resultados terríveis na abordagem desta temática nos meios de comunicação social. Para além das notícias sobre a deficiência nunca surgirem nas páginas centrais, a sua dimensão é menor à expectável e só quando existem picos, tais como os paralímpicos ou casos de acidentes, é que o assunto emerge.

Ana Leal, jornalista da TVI e professora de jornalismo, explica: “É uma realidade que ainda acontece, que me choca e que eu tento mudar através das reportagens que faço, mas ainda são poucos a fazê-lo”.

Ana Leal, que já viu o seu trabalho ser distinguido algumas vezes neste âmbito, revela que o seu maior desafio é que “ eles [os deficientes] se identifiquem com o produto que vai para o ar”, salientando que “é quase inevitável’’, mas que’’ o elo entre o jornalista e a pessoa retratada na reportagem nunca se corta. No caso da minha reportagem sobre os paralímpicos, gostava de acompanhá-los a um campeonato do mundo”.

Anabela Lopes, docente da Escola Superior de Comunicação Social (ESCS) e jurada do prémio Dignitas considera que os obstáculos “estão principalmente na cabeça de cada um de nós. É preciso abrir mentalidades”, pois as pessoas com algumas diferenças podem ter “uma vida com qualidade”.

Um grupo de cinco alunos da ESCS ganhou, este ano, o prémio Dignitas na categoria de Jornalismo Universitário com a reportagem “ A genética do amor” onde retrataram a luta diária de pessoas com Trissomia 21.

Para estes jovens repórteres lidar com estes problemas foi “surpreendentemente fácil, fomos fazer umas gravações em Torres Vedras e fomos dar uma volta com o Manel, um jovem com trissomia 21, e estavamos à espera de uma coisa muito complicada e acabou por ser bastante interessante.”, diz João Francisco Gomes, um dos participantes.

Também a ex-aluna da ESCS e atual repórter do jornal Público, Vera Moutinho, foi distinguida numa categoria mais recente, a de jornalismo digital, com o trabalho multimédia, “O que é isso de vida independente”, que relata a força de vontade e a luta por uma vida autónoma de um jovem portador de deficiência.

Relativamente aos outros prémios, na categoria de imprensa, Cláudia Pinto e Nuno Pinto Fernandes, jornalistas do Diário de Notícias, foram destacados com a reportagem “Semear a mudança”, publicada na Notícias Magazine. O objetivo do seu trabalho foi, segundo a própria, dar a conhecer o desafio de integrar pessoas com deficiência no mundo laboral. O jornalista Pedro Mesquita, da Rádio Renascença, mostrou a vida de uma menina de 17 anos que é autista, mas que esta deficiência não a impede de realizar os seus sonhos. “O extraordinário mundo de Irina” foi premiado na categoria de rádio.

A única menção honrosa foi para a reportagem “Corpo Sentido” da repórter Mafalda Gameiro, difundida pela RTP.

Texto: Rita Roque Matos

Foto: Gabinete de Comunicação da ESCS

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