Quatro meses depois a explosão de Beirute continua a ecoar

Parecia um terramoto. No dia 4 de agosto, duas grandes explosões abalavam o porto de Beirute. As notícias começavam a percorrer o mundo. Os olhares voltavam-se para a capital libanesa. Pouco se sabia e muitas perguntas aguardavam resposta. Na origem parecia ter estado um incêndio num armazém do porto, no qual estariam armazenados materiais pirotécnicos. Uma nuvem de fumo cobria a cidade; um rasto de destruição prolongava-se por quilómetros. Durante a tarde, a agência Reuters reportava 10 mortos, mas os números não pararam aí. Helicópteros sobrevoavam o porto para combater as chamas e equipas de resgate vasculhavam os escombros em busca de sobreviventes. Os hospitais da cidade, já sobrecarregados devido à pandemia da COVID-19, ficaram completamente lotados.

Hassan Diab, primeiro-ministro do Líbano, garantiu que os responsáveis pela explosão iriam “pagar pelo que fizeram”. Na origem estiveram as 2.750 toneladas de nitrato de amónio que se encontravam armazenadas no porto de Beirute. Esta substância, que resulta da reação entre o amoníaco e o ácido nítrico, é frequentemente utilizada na produção de fertilizantes e no fabrico de explosivos. Se não for armazenada nas devidas condições, pode ser perigosa.

A história que levaria ao trágico desfecho começou há quase sete anos, de acordo com uma cronologia desenvolvida pelo jornal The Guardian. O “Rhosus”, navio mercante de pertença russa e bandeira moldava, deixa para trás a Geórgia, um país na interseção da Europa com a Ásia. Em setembro de 2013 ruma em direção a Moçambique com uma carga de 2.750 toneladas de nitrato de amónio, comprada pela Fábrica de Explosivos, uma companhia industrial de explosivos moçambicana. Em outubro de 2013 faz uma paragem no porto de Beirute, onde fica retido. A carga proveniente do navio fica num armazém da cidade durante sete anos, até que, no dia 4 de agosto, é reportado um incêndio no porto, ao qual se seguem explosões.

O porto fica reduzido a uma cratera profunda; os edifícios próximos são severamente danificados. Num raio de 5 km, as janelas partem-se e desabam paredes. A explosão é ouvida em todo o Líbano e a mais de 200 km de distância, em Chipre. Com um total de 193 mortos e 6.500 feridos, a cidade fica destruída.

m grupo de cerca de 30 portugueses que não conseguiram ficar indiferentes ao que se passara em Beirute juntou-se através do Whatsapp. Em comum tinham o desejo de ajudar a cidade. Começaram, então, a recolher doações e a levá-las para a capital libanesa. Beatriz Valentim, aluna de Ciências Farmacêuticas da Universidade de Coimbra, pertencia a esse grupo. Acompanhando a situação em Beirute, quis fazer a sua parte. Um mês após a explosão, a jovem de 20 anos partia para o Líbano, juntamente com uma equipa de cinco voluntários independentes. Ao longo de quatro dias intensos, distribuíram sensivelmente 30 kg de medicamentos e material médico por várias associações e hospitais.

Um mês após a explosão, a destruição ainda era grande. Num hospital, de cujo nome Beatriz não se lembra, entrava-se pela janela, uma vez que a porta estava bloqueada por destroços.

Um dos desafios que o grupo antecipava era a dificuldade de fazer entrar no Líbano o que tinham angariado. O grupo a que Beatriz pertence já tinha tido a experiência de ver o material apreendido na alfândega: “Duas semanas antes de termos partido, foram dois voluntários do nosso grupo. Levaram muito material, que foi apreendido. Na alfândega disseram que não cumpria as normas”. Parte dele foi libertado mais tarde, mas tinha sido saqueado. O grupo com que Beatriz partiu no dia 3 de setembro conseguiu evitar os agentes da alfândega, que na altura estavam ocupados. Outros não tiveram a mesma sorte. “Sabem perfeitamente que há pessoas em dificuldade, que aquilo é para ajudar o país, mas não lhes interessa. Vendem no mercado negro e não se pode apresentar queixa a ninguém”, conta.

No Líbano, os níveis de corrupção são elevados. De acordo com a Transparência e Integridade, uma rede global anticorrupção, o suborno e a corrupção eleitoral são alguns dos principais problemas do país, dados apontados no barómetro global da corrupção. Neste relatório, a Transparência e Integridade analisou seis países: Jordânia, Líbano, Marrocos, Palestina, Sudão e Tunísia. De acordo com os resultados, os cidadãos libaneses relatam as mais elevadas perceções e experiências de corrupção – 87% dos cidadãos consideram que o Governo não está a fazer o suficiente para a combater.

Juntamente com o grupo, Beatriz testemunhou a destruição de Beirute. Nas ruas, os libaneses procediam à reconstrução da cidade. Alguém fazia massa de cimento no chão; uma carrinha parou e alguém perguntou se precisavam de portas, pois estavam a oferecê-las. “As pessoas estavam empenhadas em reconstruir. Pelo que percebemos, o Governo não se preocupou em ajudar. Na altura fomos entrevistados para a televisão libanesa e a entrevistadora disse-nos que estávamos a fazer mais do que o Governo. Como é que 30 kg de medicamentos e material médico podem ser mais do que o Governo faz?”, pergunta a jovem. “A população está abandonada à sua sorte. É o salve-se quem puder”, reafirma.

A explosão veio deitar mais uma acha para a fogueira: reacendeu os movimentos de protestos contra a classe política libanesa, que, desde outubro de 2019, assolavam o país devido à crise económica e aos elevados níveis de corrupção. Nas ruas exigiu-se responsabilização. Em resposta ao descontentamento popular, surgiram várias demissões no Governo. Seis dias após o sucedido, o primeiro-ministro, pressionado pelos protestos, apresentou a demissão, dissolvendo todo o gabinete do seu Governo. Após a invasão de vários ministérios pelos manifestantes, também a ministra da informação e o ministro do ambiente se demitiram, levando consigo mais nove deputados.

“Não sei se será possível uma recuperação completa. Levaria bastante tempo e não sei se seria total. Quero acreditar que as coisas vão melhorar. Pior do que está não sei se é possível”, confessa Beatriz.

Além da crise política, o Líbano está a enfrentar uma crise económica sem precedentes, a maior desde a Guerra Civil (1975-1990). O país falhou o pagamento da dívida externa, tem uma moeda nacional em colapso e assiste ao aumento da inflação, da pobreza e do desemprego. A pandemia da COVID-19 e a explosão na cidade de Beirute vieram agravar a sua situação.

Capa: WAEL HAMZEH/ EPA/LUSA

Fotografias cedidas pela entrevistada. 

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