A geração do empreendedorismo

O acesso generalizado ao mundo online motiva uma crescente vaga do espírito empreendedor. As condições de criação de uma marca sofreram grandes alterações: as ferramentas ao dispor de qualquer pessoa no momento de criar um negócio próprio são muito diferentes daquelas que tinham as gerações anteriores.

A barreira de entrada para ser ‘um empreendedor’ nunca foi tão baixa como hoje”, afirma o empresário Chris Ducker à Forbes em 2017. A diminuição de obstáculos revela-se apelativa para a sociedade, colocando o empreendedorismo como um caminho cada vez mais escolhido numa ampla diversidade de áreas.

A vaga de espírito empreendedor característica da última década surge num contexto em que está reunido um conjunto de ferramentas que torna a criação de um negócio próprio cada vez mais acessível. Como principal impulsionador surge o e-commerce, o conceito de trocas comerciais feitas de forma eletrónica. A primeira compra online, realizada em 1994, marcou o início da evolução que definiu a ordem comercial do século XXI.

Com o desenvolvimento do mundo digital, um negócio pode ser criado exclusivamente online. As grandes vantagens traduzem-se na otimização de aspetos relacionados com o tempo, a logística e os custos monetários – uma vez que passa a ser possível a venda de artigos sem necessidade de espaço físico. Fica aberta a oportunidade de lucrar com um investimento inferior, ao serem excluídos, por exemplo, os gastos de uma renda.

A ação das redes sociais também tem desempenhado um papel importante na divulgação de marcas. Com os algoritmos que direcionam a publicidade através de um sistema de filtragem, a promoção de um produto tem como palavra de ordem a eficácia.

Perante a crescente procura de alternativas ao emprego por conta de outrem, surgiram vários apoios à criação e expansão de negócios próprios. Em 2005 estreia o programa japonês “Dragon´s Den”, que tem como objetivo fazer com que empresários milionários de renome invistam em ideias promissoras, deste modo fornecendo o suporte financeiro do qual o espírito empreendedor depende. Com propósitos semelhantes, “Shark Thank” é emitido pela primeira vez em 2009, nos Estados Unidos da América, e chega a Portugal em 2015.

O interesse da sociedade reflete-se também na rede de formação, e o Ensino Superior começa a disponibilizar cursos e mestrados relacionados com esta área. Embora a oferta ainda seja reduzida, em Lisboa a Nova SBE oferece um mestrado em Empreendedorismo e Impacto na Inovação, o Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas tem uma pós-graduação em Empreendedorismo e Desenvolvimento de Negócios, e no Instituto Superior Técnico é possível ingressar no mestrado em Engenharia e Gestão da Inovação e Empreendedorismo.

A evolução do empreendedorismo: Antes vs. agora

As condições que impulsionam o empreendedorismo dos dias de hoje nem sempre existiram. Com o passar dos anos, o caminho que é preciso percorrer para ter um negócio próprio foi sofrendo alterações. Ana Pavão, trabalhadora da loja “Migacho”, fundada pela sua mãe nos anos 70, e Francisco Faria, que em 2016 deu vida à marca “Invert”, são testemunhas desta mudança. Em entrevista ao 8ª Colina, os empresários revelam a sua experiência e expõem as diferenças geracionais que enquadram o comércio do vestuário.

O primeiro contraste manifesta-se no processo de criação de uma marca. Graça Pavão, que sempre teve proximidade com o mundo da moda, estabeleceu o contacto inicial com a sua rede de clientes numa loja física. Já Francisco Faria, aos 15 anos teve a ideia de criar um negócio e, juntamente com um amigo, começou a divulgação do novo projeto através de mensagens e publicações nas redes sociais.

Em relação à perceção do contacto do cliente ambos concordam que o mais importante é um serviço cuidado que tenha sempre o consumidor como principal preocupação. Para a “Migacho”, uma montra chamativa e um acompanhamento individualizado do cliente são as chaves. Ana Pavão sublinha que acima de tudo “é preciso chegar ao cliente de forma direta”, assegurando um contacto constante com o público. Noutro sentido, a “Invert” aposta na aliança entre o serviço de pós-compra e a atividade recorrente nas redes sociais, nomeadamente através de embaixadores que divulgam as peças junto dos seus seguidores, o que acaba por tornar a relação entre os produtos e os consumidores mais próxima. Embora ambas as marcas  reconheçam pontos essenciais comuns, usam mecanismos diferentes para os alcançarem.

O mesmo se verifica na forma de lidar com a pandemia. O impacto dos confinamentos e das medidas restritivas afetou de forma transversal todo o setor terciário. Porém, a forte vertente online da “Invert” acabou por amparar os estragos, uma vez que o volume de vendas não sofreu alterações. Ao invés, apenas o crescimento da marca ficou comprometido, devido a casos de trabalhadores infetados nas fábricas.

Para as marcas que dependem de um espaço físico para vender os seus artigos, o cenário complica-se. O encerramento do comércio levou a que a “Migacho” tivesse de fechar temporariamente as portas da sua única loja, o que provocou danos significativos. A nova realidade trouxe a necessidade de criação de um site, de forma a oferecer ao público uma alternativa de vendas viável perante a situação pandémica.

Ainda que o contacto com o mundo digital seja atualmente uma condição de sobrevivência para os empreendedores, a adaptação das marcas criadas há mais tempo a esta realidade não é imediata. Ana Pavão explica que o contacto com os clientes através das plataformas online “é apenas um complemento; nunca substitui o acompanhamento que se dá numa loja física”. Já Francisco Faria considera que, com o uso das ferramentas digitais disponíveis, “hoje em dia é mais fácil ser empreendedor”. O empresário garante que manter um negócio exclusivamente online é uma opção viável e refere que, para a sua marca, a internet e as redes sociais representam 99,9% do negócio.

O facto de o empreendedorismo assumir formas diferentes consoante a geração e o setor revela uma substancial adaptabilidade e resistência. Assim, está aberto o caminho para que seja uma escolha profissional cada vez mais frequente, associada a um crescente investimento na área.

Ilustrações: Joana Melo / 8ª COLINA

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