A história do jornalista total

Reportagem Jornalista Total

“Está aí um velho jornalismo para reinventar.”

A citação é de José Vítor Malheiros, jornalista e cronista, e foi dela que nasceu uma conversa entre jornalistas de ontem, de hoje e de amanhã. Quem são os jornalistas do futuro? O que será o jornalismo do futuro? O que é, afinal, o jornalista total? Perguntas que não ficaram por responder num dos debates da conferência “O Regresso do Jornalismo”, que decorreu na Escola Superior de Comunicação Social, mas para as quais não houve, ainda assim, uma resposta única.

Era uma vez um velho jornalista a quem foi dada a responsabilidade de cobrir uma manifestação de descontentamento com o novo orçamento do Estado. Era uma vez um novo jornalista a quem confiaram a mesma tarefa, a mesma manifestação, o mesmo local: a rotunda do Marquês de Pombal. Os dois jornalistas, no dia a seguir, publicaram ambos uma reportagem sobre a manifestação.

O velho, habituado a manifestações, não fosse esta a vigésima quinta que cobria, publicou uma reportagem num jornal diário, tendo como fio condutor a história de Maria Lúcia, professora reformada, cuja pensão é cortada todos os anos, em função das medidas tomadas por cada governo. Na reportagem do velho jornalista, figuravam ainda as histórias de Pedro, um aluno universitário descontente com o aumento das propinas; Ana, uma funcionária pública descontente com o aumento do horário de trabalho, e outros testemunhos mais pequenos que ajudaram a representar a realidade daquela manifestação. Na história publicada figurava ainda uma fotografia da professora Maria Lúcia a segurar um cartaz onde se lia: “Se estamos aqui é porque exigimos dignidade.”

O novo jornalista trabalha numa publicação on-line e, por isso, a sua história foi diferente. Em vez de recorrer apenas a texto e imagens, utilizou como fio condutor as vozes descontentes dos manifestantes, gravando para o efeito os hinos que iam sendo entoados na descida do Marquês até à Avenida. Na sua história, em formato digital, figuravam vídeos, imagens e uma pequena infografia para ajudar o leitor a perceber a forma como se concentraram os manifestantes em Lisboa. As histórias que o novo jornalista decidiu contar não passavam de testemunhos que iam surgindo ao longo de um trabalho multimédia em que o texto se articulava com imagem e som. No final, o novo jornalista decidiu colocar uma fotogaleria de vários momentos que pontuaram a manifestação e de vários locais por onde ela passou.

As histórias são pura ficção, mas poderiam bem ser reais. A questão que se impõe é: qual dos dois jornalistas é o jornalista total? Por contar nesta história ficou o facto de que ambos os jornalistas foram para o terreno sozinhos. Ambos foram toda uma redação presente no local e responsáveis por uma cobertura na íntegra. Ambos foram jornalistas totais e ainda assim cada um utilizou diferentes técnicas. O jornalista total, ou jornalista “canivete suíço”, como Vera Moutinho, jornalista do Público, se descreve, é o jornalista que as redações procuram?

O jornalista total é o jornalista do futuro?

Adelino Gomes, jornalista que é uma referência, investigador e um dos oradores desta conferência, explica-nos que o “jornalista total” sempre existiu, não é novo no jornalismo; o que é novo são os instrumentos que o novo jornalista utiliza. Mas quer no caso do novo, quer no do velho jornalista, Adelino insiste em que “é preciso complementar o talento e é preciso que cada um dê o seu melhor em cada trabalho”. O jornalista “canivete-suíço” é uma mais-valia numa redação, mas é preciso que “o jornalista perceba que deve saber o máximo sobre tudo e conformar-se com aquilo que não sabe.” O jornalista total é o “homem da ação”, é o homem que “assume uma redação completa quando se encontra sozinho no terreno e não tem de quem se socorrer”, explicou o antigo jornalista do Público.

Mas o jornalista total não tem de estar sozinho. Todos os jornalistas devem ter um pouco de “jornalista total”. No entanto, como explicou Vera Moutinho, quando se pode tirar uma foto mas há por perto quem seja especialista em fotografia, é muito melhor que seja essa pessoa a fazê-lo. O jornalismo é um trabalho coletivo que tem por base o potencial de cada um.

Por Vítor Carvalho e Pedro André Esteves

Imagem por Lourenço Santos

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