A ignorância levou à tragédia

(Nuno Veiga/LUSA)

A resposta é bastante óbvia, mas coloco a pergunta à mesma. O que pode acontecer a uma estrada, muito movimentada, que se encontra entre várias pedreiras e está em alerta desde 2014?

19 de novembro de 2018, estrada nacional 255 que liga Borba a Vila Viçosa. O alerta é dado por volta das cinco horas da tarde. O país dá de caras com uma tragédia nunca antes vista em Portugal. Ruiu uma extensão de cerca de 100 metros. Nas primeiras horas as incógnitas são imensas: como é que a estrada ruiu? Onde fica exatamente o troço que ruiu? A pedreira estava em funcionamento? Alguém morreu? Quantas pessoas morreram?

No meio de tantas questões parti com a equipa do jornal Observador para Borba. Chegámos ao local à noite, já a estrada estava cortada e o perímetro já tinha sido estabelecido pelas autoridades. Frio e silêncio são as palavras que descrevem essa noite de dia 19. Não se ouvia um choro de desespero, um grito de dor, nada… a esperança ainda estava bastante viva.

De dia 19 para dia 20 vários alertas de supostos desaparecimentos foram dados à polícia. Contavam-se pelos dedos das mãos. Eram cinco alertas e todos suspeitavam o pior.

O troço da EN255 que ruiu (Diogo Ventura)

O nascer do dia contrastou com a certeza de que havia cinco vítimas mortais subterradas na pedreira. Dois deles estavam debaixo dos escombros (lado direito da imagem) e os três restantes estavam submersos e encarcerados (lado esquerdo da imagem).

A viagem até ao local onde a fotografia foi tirada não foi fácil, especialmente por ser numa estrada que estava fechada. No meio de tantas pedreiras era imperativo ter cuidado onde punha os pés, no meio de tanta lama e pedras nunca se sabia o que poderia acontecer. Chegado ao local a reação de todos os jornalistas foi a mesma. Ficámos todos perplexos a olhar para a dimensão do buraco. Vários meios avançaram que tinha ruido cerca de 50 metros, mas só quem viu o local é que pode afirmar que 50 metros era um número muito ingénuo. Infelizmente nenhuma imagem faz jus à realidade daquela desgraça.

As projeções para a retirada dos corpos não eram as melhores. Poderia demorar dias, semanas ou até mesmo meses. Tudo dependia das condições climatéricas e dos meios utilizados.

A chuva teimava em aparecer o que dificultou as buscas na parte submersa. As autoridades tiveram de se virar para a parte subterrada pelas pedras e, com a ajuda de cães, conseguiram localizar os dois corpos. Passado dois dias, com gruas e o apoio bombeiros especializados em busca e salvamento, os corpos foram retirados.

É difícil manter um pensamento positivo nestas situações, mas nem a pessoa mais ambiciosa conseguiria prever que passado uma semana todos os corpos seriam retirados. Foram mobilizadas várias equipas de operacionais especializados em salvamentos aquáticos, bombeiros, agentes da Guarda Nacional Republicana e elementos do INEM, que trabalharam em conjunto para retirar os corpos o mais eficiente possível.

Infelizmente, todas as vítimas foram mortais.

Esta tragédia tem de ser considerada um dos momentos do ano a nível nacional principalmente por ter sido uma tragédia que poderia ter sido evitada. Desde 2014 que a estrada estava em alerta pela Proteção Civil, mas veio a descobrir-se que esses alertas foram ignorados e arquivados pela Câmara Municipal de Borba. Passado um mês ainda se procura encontrar respostas e culpabilizar alguém.

Gostaste deste artigo? Partilha-o!

Scroll to Top