A literatura em 2020

Agora que o conturbado 2020 está quase a chegar ao fim, será oportuno fazer o habitual balanço daqueles que foram os acontecimentos mais marcantes do ano. Vejamos alguns eventos mais significativos que importa registar num domínio, por vezes, esquecido das retrospetivas feitas no final de cada ano: os livros.

Literatura contra COVID

Magda Cruz, de 21 anos, ex-aluna da Escola Superior de Comunicação Social (ESCS), apresentadora do podcast “Ponto Final, Parágrafo” e ex-coordenadora do 8ª Colina, passou o seu último semestre do curso de Jornalismo em casa devido à pandemia e admite que o surgimento desta foi uma “disrupção” que nos “deixou mais em baixo” e que obrigou à “criação de novas rotinas e hábitos”.

Magda Cruz, anfitriã do podcast Ponto Final, Parágrafo, da ESCS FM em parceira com a Comunidade Cultura e Arte. (João Pedro Morais/8ª Colina)

“Foi preciso focar-me em algo e distrair os outros.” Tentou fazê-lo através do seu podcast, ao qual foi exigido também uma “reeducação e adaptação”, dado que não se podia deslocar ao estúdio para falar com os convidados. A antiga coordenadora do 8ª Colina fala também da dificuldade que foi não se poderem realizar mais reportagens para o jornal e as entrevistas serem todas realizadas à distância, algo que condicionou a qualidade final do trabalho.

Com a chegada da pandemia da Covid-19 e do consequente estado de emergência, foram múltiplos os prejuízos que se fizeram sentir no mercado livreiro. A Associação Portuguesa de Editores e Livreiros, no dia 25 de abril, declarou que “o setor sofreu uma quebra de cerca de 80% nas vendas devido à pandemia de Covid-19, situando-se o prejuízo em mais de 20 milhões de euros”. Também pudemos constatar o fim de algumas editoras: exemplo disso foi a Cotovia, fundada em 1988, e a Coimbra Editora, criada em 1920.

No entanto, a literatura não parou.

A somar livros de autores portugueses

No plano nacional, foram vários os autores que viram o seu livro chegar às livrarias. O jornalista Rodrigo Guedes de Carvalho, ainda no início deste ano, presenteou-nos com o romance Margarida Espantada. Na sua sinopse podemos ler: “É sobre família. Sobre irmãos. É sobre violência doméstica e doença mental”. Um livro que, de acordo com o jornal Público foi o primeiro no mercado editorial português a ser publicado previamente em formato digital, ainda antes de se saber a data do seu lançamento em papel.

Já João Tordo, um pouco fora do seu estilo habitual, publicou Manual de Sobrevivência de Um Escritor ou o Pouco que Sei Sobre Aquilo Que Faço. Um livro que pretende revelar a relação entre o autor e a sua escrita e ainda servir como uma espécie de guia para todos aqueles que têm um gosto especial por esta arte que é escrever. Além disso, publicou também Felicidade, um romance que se desenrola na Lisboa de 1973, e nos dá a conhecer um rapaz de dezassete anos que cai de amores por uma colega de escola, chamada Felicidade.

Paulo Moura, escritor, repórter freelancer e docente da Escola Superior de Comunicação Social, escreveu, depois de 10 obras de não-ficção, o seu primeiro romance: Hipnose. Publicado no mês de setembro pela Suma de Letras, este livro conta-nos uma história que se desenrola entre a tomada de posse de Bill Clinton, em 1993, e a guerra do Iraque, em 2003, e que tem como personagem principal o jornalista mexicano Chespirito Diaz. Diaz irá envolver-se num percurso conturbado e cheio de personagens únicas, percurso esse cujo objetivo final será a realização de uma grande reportagem. Numa entrevista para o podcast “Ao Vivo”, do jornal Observador, Paulo Moura confessou que “a ficção permite uma reflexão que o jornalismo não permite”. No entanto, “há partes do livro que são muito reais”.

Contra mim, de Valter Hugo Mãe, é das obras mais recentes desta seleção, tendo chegado às prateleiras das livrarias portuguesas no mês de outubro. Sendo uma autoficção, o autor promete deixar transparecer o seu “eu” de infância. Na revista, podemos ler o seu testemunho: “Esta é uma meditação sobre a minha própria infância (…) que serve hoje para ponderar quem quis ser, quem sou, quem me imagino no futuro que me resta”.

José Luís Peixoto, que, à semelhança de Valter Hugo Mãe, foi galardoado com o Prémio José Saramago, publicou neste verão Regresso a Casa, um livro que não poderia ser mais atual, dado que aborda a pandemia que este ano assolou Portugal e o mundo inteiro.

Livros que nos chegam de fora

A nível internacional, contámos com estreias que fizeram burburinho devido a muitos dos momentos que atualmente vivemos.

Too Much and Never Enough: How My Family Created the World’s Most Dangerous Man, de Mary L. Trump, é um retrato da vida de Donald Trump pelos olhos da própria sobrinha. Crucial para uma época em que Donald Trump anda nas bocas do mundo, especialmente com as eleições dos Estados Unidos da América e com o consequente fim do seu mandato.

Outra obra baseada na figura de Donald Trump é Rage, da autoria do jornalista de investigação Bob Woodward. Aqui é retratada a forma como o presidente dos Estados Unidos da América lidou com os obstáculos deste ano. Woodward baseou-se em entrevistas com testemunhas em primeira mão, de e-mails, diários, calendários e documentos confidenciais, juntado-lhes as 18 entrevistas que Donald Trump concedeu ao veterano jornalista.

Achei que valia a pena dar-lhe [a Bob Woodward] uma oportunidade.

Donald Trump

Um dos mais recentes livros publicados é a autobiografia do ex-presidente norte-americano Barack Obama, intitulada A Promised Land. De acordo com a CNN, o livro vendeu 890 mil cópias apenas no seu primeiro dia. A editora do livro, Crown, pertencente à Penguin Random House, declarou ainda que a obra teve “o maior total de vendas no primeiro dia de qualquer livro já publicado pela empresa”. É nesta obra que Obama revela “a improvável odisseia” que se desenrola a partir da sua juventude e da procura da sua própria identidade até ao momento em que se torna o líder dos EUA. Este livro foi editado em português pela Objectiva.

 

"Rage", o novo livro do jornalista Bob Woodward, que contém 18 entrevistas a Donald Trump.
"A promised land", o novo livro de Barack Obama

Stamped: Racism, Antiracism, and You, de Jason Reynolds e Ibram X. Kendi, tem como premissa a análise das ideias racistas que estão entranhadas na história dos Estados Unidos da América e pretende ainda inspirar a criação de um futuro antirracista. Me and White Supremacy: Combat Racism, Change the World, and Become a Good Ancestor, de Layla F. Saad, começou como um pequeno desafio de Instagram, com a hashtag #MeAndWhiteSupremacy, em que milhares de pessoas acabaram por participar. Ambas as obras tiveram um peso importante no ano do movimento Black Lives Matter e são neste momento “New York Times Bestsellers”. A obra de Layla F. Saad é ainda um “USA Today Bestseller”.

Isabel Wilkerson, escritora premiada com o Pulitzer, lançou este ano Caste: The Origins of Our Discontents, um livro que não só chegou a número um na lista “The New York Times Best Sellers, como faz parte da “Oprah’s Book Club Pick” e da lista para o “National Book Award”. Diz-nos a sinopse que “Wilkerson mostra como a América, hoje e ao longo da sua história, foi moldada por um sistema de castas oculto, uma hierarquia rígida de classificações humanas”.

 

Os premiados

Ainda que este ano muitas atividades tenham sido canceladas, não deixaram de se atribuir os merecidos prémios literários. A este propósito, Magda Cruz refere que é “importante não acabar com hábitos e tradições no mundo da literatura”. Um destes prémios foi o “Prémio Literário Fernando Namora”, que este ano foi atribuído ao escritor Francisco José Viegas pelo seu livro A Luz de Pequim. Este é o nono romance que acompanha uma personagem já familiar: o inspetor Jaime Ramos. Este livro é também uma “homenagem à cidade do Porto”, onde a trama se desenrola.

Outra distinção que não foi deixada de parte foi o Prémio Camões. Vítor Manuel de Aguiar e Silva, professor, ensaísta, poeta português e um dos signatários da “Petição em Defesa da Língua Portuguesa contra o Acordo Ortográfico”, foi o vencedor da edição deste ano.

Por fim, uma referência ao conceituado Prémio Nobel da Literatura que, sem cerimónias nos termos habituais, foi atribuído à norte-americana Louise Glück, autora de doze livros de poesia e que, acordo com o júri, foi “escolhida pela sua inconfundível voz poética, que com austera beleza torna universal a existência individual”.

Perdas do mundo literário

A morte de Luís Sepúlveda, escritor chileno e autor de obras como História de uma Gaivota e do Gato Que a Ensinou a Voar e O Velho Que Lia Romances de Amor, em abril deste ano, correu o país. Com 70 anos, Luís Sepúlveda morreu vítima de infeção pelo novo coronavírus.  

Magda Cruz destaca uma frase da última entrevista de Luís Sepúlveda, realizada no âmbito do Correntes d’Escritas, encontro anual de escritores na Póvoa de Varzim. Referindo-se à sua juventude no tempo da ditadura, Supúlveda recordou: “Na altura não dormíamos muito” – uma frase que acompanhou Magda durante toda a primeira vaga da Covid-19, como que representando o “empenho em fazer sempre um pouco mais” e “não esmorecer”. Magda transportou isso para o seu podcast “Ponto Final, Parágrafo”, que tem como objetivo principal falar com pessoas que gostam de ler. Passou, assim, a promover outras iniciativas, como por exemplo a criação de episódios só com ouvintes, a colaboração com outros podcasts e ainda a realização de episódios bónus. Surgiu assim um novo método num ambiente hostil: “Abrias a porta e era uma guerra lá fora”, refere a apresentadora. É a satisfação que recebe por inspirar os outros a ler que a faz continuar.

Em maio de 2020, Portugal perdeu Maria Velho da Costa, escritora que se destacou principalmente no romance. Juntamente com Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa foi coautora das Novas Cartas Portuguesas, integrando assim as célebres “três Marias”. Morreu aos 81 anos de idade.

Já no mês de junho, o escritor Carlos Ruiz Zafón, autor de obras como A Sombra do Vento e O Labirinto dos Espíritos, morreu de cancro do cólon, aos 55 anos de idade.

A 30 de setembro, Joaquín Salvador Lavado, mais conhecido por Quino, criador da mundialmente conhecida personagem de banda desenhada Mafalda, despediu-se dos leitores aos 88 anos.

Magda Cruz e a leitura

Magda conta-nos a experiência que foi, durante muito tempo, em pleno confinamento, não conseguir ler absolutamente nada: “Não tinha espaço mental para ler e absorver o que estava a ler”. O conselho que deixa a todos aqueles que se encontram numa situação semelhante, ou que simplesmente não têm hábitos de leitura, é que criem metas: “Esta manhã leio durante 15 minutos; vou fazer uma tarefa curta, e volto a ler outros 15 minutos.” 

 

A mesma técnica pode ser aplicada a capítulos. Porém, Magda refere que é importante ignorar estas ditas “regras” quando “não estamos com disposição para ler”. A entrevistada destaca dois autores que lhe devolveram a vontade de se concentrar na leitura: Alberto Manguel (Embalando a Minha Biblioteca: Uma Elegia e Dez Divagações) e Lucia Berlin (Manual para Mulheres de Limpeza). Para além destes, este ano gostou de ler Ecologia, de Joana Bértholo, e As Intermitências da Morte, de José Saramago.

Quanto a leituras para 2021, Magda está particularmente entusiasmada com a publicação de um novo livro de Manuel Vilas, que, de acordo com uma entrevista publicada no jornal Expresso, “é sobre uma família confinada por causa da atual pandemia”.

À pergunta “Se 2020 fosse um livro da tua autoria, que título é que lhe darias?”, Magda Cruz, depois de alguma reflexão, escolhe Uma Luta pela Sanidade e a Cultura como Salvação como o título ideal.

Ilustração de capa: Joana Melo

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