A política também toca aos jovens

Estudos realizados nos últimos anos mostram-nos que os jovens estão cada vez menos envolvidos na vida política. Os valores da abstenção continuam a subir consideravelmente. Atribuem-se, frequentemente, as causas disto ao conformismo e à falta de interesse dos jovens eleitores, bem como a um crescente descrédito do sistema político. Um estudo patrocinado pela Presidência da República, realizado em 2015, concluiu que 57% dos jovens não se interessam por política. Uma sondagem do ISCTE/ICS relativa aos meses de novembro e dezembro de 2020 apresenta resultados semelhantes: 35% dos inquiridos na faixa etária dos 18 aos 24 anos afirmaram que não pretendiam votar e 18% responderam que ainda não sabiam de que forma votariam. Contudo, as conclusões do estudo revelaram, ainda, algumas características que o eleitorado jovem procura num Presidente da República. 94% dos jovens eleitores recusam que o próximo Presidente da República intervenha menos na condução dos assuntos políticos do país. A percentagem daqueles que gostariam que o futuro Presidente da República mantivesse uma intervenção semelhante (46%) e a dos que o preferiam mais interventivo (48%) são praticamente idênticas. 37% dos inquiridos consideram que a “competência” é a qualidade mais desejável para um Presidente da República, seguida da honestidade (31%). Ser justo ou ter autoridade foram consideradas as qualidades mais desejáveis apenas por 18% e 13% dos inquiridos, respetivamente.

As caraterísticas que os jovens procuram num Presidente da República

João Pedro Leitão é aluno do terceiro ano da licenciatura em Direito e, também, da licenciatura em Gestão. É militante do Partido Socialista e da respetiva Juventude há um ano e meio e revela que o seu voto será na candidata Ana Gomes. Já Guilherme dos Prazeres desempenha funções no Gabinete da Cultura da JSD de Odivelas e o candidato Tiago Mayan será a sua escolha nestas Presidenciais. Apesar das cores partidárias que os diferenciam, ambos procuram um Presidente da República que se preocupe com o futuro. Referem, especialmente, a necessidade de investimentos na educação e na inovação do país. Guilherme considera que “Portugal é um dos países que estão mais atrasados neste aspeto” e João diz ser algo “fundamental para conseguirmos um país mais digital e global”.

Uma das condições fundamentais para um Chefe de Estado, na perspetiva do militante do PSD, é “que este se foque em assuntos do setor privado”. Guilherme alerta para a necessidade de criar programas de reestruturação a nível do setor industrial e da restauração.

A prioridade para o jovem apoiante do Partido Socialista, pelo contrário, está nas ajudas sociais e no empenho em resolver uma série de problemas que aguardam solução. João defende um Presidente da República que valorize o Sistema Nacional de Saúde, que lute pela igualdade salarial entre homens e mulheres, que combata as alterações climáticas e que seja capaz, de facto, de fomentar a inclusão social. Considera, ainda, que “as pessoas não votam em partidos nas Presidenciais, votam em personalidades”, e destaca a necessidade de que o Presidente eleito seja “bastante proativo e dinâmico”.

Neste sentido, ambos defendem, sem qualquer hesitação, que o papel de um Presidente da República tem de ser mais ativo no campo político. No mesmo sentido, João considera que esta figura “deve necessariamente repreender o Governo quando achar necessário”, guiando, assim, a condução política e governativa do país.

Tal como João, Rafael Anjos – aluno do terceiro ano no Instituto Superior de Agronomia de Lisboa – procura um Presidente da República que seja o representante de todos os portugueses. Não está filiado em nenhum partido e declara-se apartidário. No entanto, vai às urnas votar em André Ventura, o único candidato que reúne alguns dos valores que defende, nomeadamente ao nível das privatizações e de alguns pontos mais conservadores, embora não concorde com a postura de André Ventura quando este afirma que será apenas Presidente dos “portugueses de bem”. “O Presidente é de todos os portugueses, ponto final”, defende Rafael. Na sua opinião, o Presidente deve ser apaziguador e moderador da vida política, tanto a nível parlamentar como a nível social e económico. “O Presidente da República tem de ser alguém que saiba defender os interesses do país e tem de dar voz aos portugueses e àqueles que não a têm. Apesar de alguns não terem opinião política, o Presidente tem de defender os interesses de todos, independentemente da condição social, religião ou raça”, acredita Rafael.

As prioridades políticas dos jovens

  João Pedro Leitão considera que, para os jovens, é muito importante que um Presidente da República tenha a intenção de combater a precariedade laboral através de medidas concretas. “Um jovem acaba uma licenciatura e não consegue encontrar trabalho, muitas vezes nem na sua área nem noutra, sem ser precariamente remunerado. É quase uma prostituição que eles acabam por ter de fazer por necessidade e por quererem ficar no seu país e não emigrarem”, explica.

Guilherme dos Prazeres também acredita que o combate ao desemprego jovem é uma das prioridades políticas mais importantes para esta faixa etária da população: “Nós somos a geração que está a demorar mais tempo a sair de casa.” A democracia é, para Guilherme, outra prioridade política dos jovens portugueses, sendo uma das suas preocupações “o facto de haver partidos antidemocráticos que se apresentam como democráticos”.

“É necessário, ao contrário de outros candidatos que apregoam que só serão presidentes de uns e não de todos, que o Presidente da República seja presidente das minorias e das maiorias. Tem de ser alguém que una a população e que não a exclua ou a segregue”, acrescenta o militante da Juventude e Partido Socialista. No mesmo sentido, Rafael Anjos afirma que não concorda com o facto de André Ventura dizer que será “apenas Presidente dos portugueses de bem”.

Rafael sabe que existem assuntos que tocam particularmente os jovens e que não foram abordados pelos vários candidatos a Belém. “A primeira prioridade política dos jovens deve ser a defesa dos seus próprios interesses. Nomeadamente a habitação, visto que os jovens universitários não têm muito voto nessa matéria”, defende Rafael.

Assim como João e Guilherme, Rafael não esconde que uma das grandes prioridades dos jovens deveria ser o trabalho. “Somos a geração mais bem preparada de sempre. No entanto, somos também um país com uma alta taxa de desemprego jovem, entre os 21 e os 25 anos. Todos os quadrantes políticos deviam refletir sobre este assunto. Como é que a geração mais bem preparada pode ser aquela que tem a mais alta taxa de desemprego jovem? Por exemplo, nós podemos constatar que faltam profissionais de saúde no Serviço Nacional de Saúde e nos privados, e ainda existem jovens a ter de emigrar à procura de trabalho”, explica Rafael.   

O interesse dos jovens pela política

O facto de não ver problemas como o desemprego jovem a serem abordados durante as Presidenciais leva Guilherme a crer que os temas juvenis não são tidos em conta pelos candidatos: “Vejo, sobretudo, ataques pessoais. O que eu tenho visto são ataques pessoais e inconstitucionalidades”, conclui. O jovem considera que, tendo em conta este aspeto, é normal a falta de interesse por parte dos jovens neste campo. “A taxa de abstenção é ridiculamente alta em parte devido a isto. Mas eu acho que o problema não está na forma como se apresenta a informação, porque a informação é muita. Está no facto de não haver candidatos que falem de temas que digam respeito aos jovens”, esclarece.

Tanto João como Guilherme julgam que a política se deixou envelhecer em demasia. “Nos partidos políticos, na Assembleia da República e mesmo no Governo, nós precisamos de juventude e de renovar os quadros. Não podemos continuar com pessoas somente para ficarem a criar raízes nos seus lugares. É preciso darem a sua vez, porque este é o tempo de agir e é o tempo dos jovens”, afirma o aluno do terceiro ano da dupla licenciatura em Direito e Gestão.

No ponto de vista de João, os jovens interessam-se por política, uma vez que “política é fazer o bem pelo próximo, e isso é algo que todos nós fazemos no nosso dia a dia”. No entanto, afirma que há uma “responsabilidade de todos os partidos por não tentarem, de forma mais eficaz e eficiente, criar mecanismos para atrair os jovens, nomeadamente através de uma desmistificação do discurso político”.

Por outro lado, Rafael Anjos dá conta de um outro fenómeno que tem constatado relativamente à participação dos jovens na vida política. O interesse dos jovens pela política começa a ser uma realidade, mas, segundo Rafael, há uma certa falta de consciência quanto à escolha de uma ideologia política.

“Muitos jovens veem nas redes sociais o que outras pessoas defendem e acabam por seguir uma ideologia não porque pensaram propriamente nela, mas mais porque se trata de uma corrente popular. Vejo isso como um fator negativo. Devemos ser nós a escolher, através do nosso conhecimento sobre as várias ideologias políticas existentes, aquela que faz mais sentido para nós. A política faz-se através do pensamento próprio e devemos ser nós a pensar, e não ir atrás das posições políticas das outras pessoas”, defende o jovem estudante.

O papel dos media é, da mesma forma, importante, segundo Guilherme, quando falamos do interesse dos jovens na política. “Nós vemos sistematicamente casos de corrupção, de manipulação e de subornos. Chega-se a um ponto em que se questiona o porquê de votar”, explica.

Os mecanismos para atrair os jovens para a política

João defende a criação, nas escolas, de uma disciplina sobre política, em que não esteja em causa o apoio a qualquer partido, mas sim dar a conhecer aos jovens o que é esta área. Contrariamente, Guilherme pensa que a estratégia não deve passar por aí: “A nível de formação política nas escolas abre-se um precedente enorme, porque não há nenhuma pessoa neste país que não tenha uma cor partidária, ou é muito difícil encontrá-la. Quem te estiver a ensinar pode fazê-lo favorecendo uma vertente ou outra, portanto é muito complicado.” O jovem propõe a criação de clubes de debate, por exemplo, uma vez que, nesta vertente, a questão ideológica não interessa e o importante é que os participantes se expressem bem e consigam dizer o porquê de defenderem uma determinada posição em relação a um certo assunto.

Por outro lado, de modo a captar mais jovens para a política, João acredita que os próprios partidos, ou algum órgão independente, poderiam dar formações aos jovens, de forma que estes pudessem aprender o que é a política. Cultivar uma relação de proximidade entre os candidatos, os governantes, os deputados da Assembleia da República e a população é outro mecanismo que defende: “Deve-se fazer política não só nos gabinetes, a criar a estratégia e a ação política e governativa, mas também na rua, a ouvir a população.”

        A comunicação é considerada por Guilherme um dos fatores mais importantes para chegar aos jovens, e a este propósito não deixa de criticar o seu próprio quadrante partidário: “Se fores ver as páginas do Twitter e do Instagram da Iniciativa Liberal, há ali um sentido de comédia; aquilo é engraçado e é apelativo. Vais às do PS ou do Bloco, e é tudo colorido. Se fores às do PSD, só vês uma coisa: Rui Rio. Parecemos o culto do Rui Rio, neste momento. E o que acontece é que a comunicação é talvez um dos fatores mais importantes, senão o mais importante. É um valor que os partidos estão finalmente a começar a perceber e no qual começam a investir.”

A ideologia política

São diferentes as razões que levaram João, Guilherme e Rafael a reverem-se nas respetivas ideologias políticas. Não as escolheram por influência familiar, mas acreditam que o facto de se discutir política nas suas casas teve muito impacto no seu gosto crescente por esta matéria.

Guilherme foi motivado, essencialmente, pelas injustiças a que considera assistir diariamente. As convicções políticas de João surgiram “ao longo do tempo, à medida que ia criando uma identidade”. Ambos destacam a necessidade de conhecer bem a ideologia de cada partido, assim como os seus programas políticos. Tal como João e Guilherme, Rafael também desenvolveu um interesse próprio pela política e aderiu à ideologia com cujos valores mais se identifica. Dentro do leque das várias opções existentes, costuma escolher o candidato ou o partido que representa os pontos que defende.

Ilustração de capa: Joana Melo / 8ª COLINA

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