A Revolução em revista

Passaram 40 anos desde que um conjunto de capitães pôs em marcha um golpe de Estado em Portugal. O intuito era derrubar o regime autoritário e ditatorial que governara o país nas quatro décadas anteriores. A revolução ocorreu no dia 25 de abril de 1974. É popularmente conhecida por ‘revolução dos cravos’, já que essa foi a flor que os civis ofereceram aos militares. Os protagonistas deste importante marco histórico para o País, que mudou radicalmente o rumo da história nacional, ficaram popularizados como ‘capitães de abril’. Foram muitos os envolvidos e são inúmeras as histórias que têm para partilhar; daí ser pertinente a questão: o que há de novo para contar?

Foi para responder a essa pergunta que se organizou o colóquio “O 25 de Abril e os Media: A Revolução em Direto”, realizado, na passada quarta-feira, na Escola Superior de Comunicação de Social (ESCS). Francisco Sena Santos foi o moderador desta iniciativa, guiando a conversa e presidindo o debate, procurando saber qual a importância dos meios de comunicação da altura – mais concretamente a rádio e a televisão – para o sucesso da revolução, tendo em atenção o facto de, sete meses antes (em setembro de 1973), os media terem sido fundamentais para o derrube do governo de Salvador Allende, no Chile.
A audiência, composta essencialmente por estudantes e professores, ouviu as histórias e os testemunhos de cinco pessoas que estiveram diretamente envolvidas na Operação Fim-Regime: Vítor Crespo (que esteve no Posto de Comando do MFA), Teófilo Bento (responsável pelo assalto à RTP), Cardoso Fontão (que tomou o Rádio Clube Português [RCP]), Adelino Gomes (jornalista impedido de exercer a profissão pelo antigo regime) e Santos Coelho (capitão e também responsável pela tomada do RCP), cuja presença na conferência não estava inicialmente prevista. Como disse Sena Santos na abertura do colóquio, “a liberdade passa por estes senhores”.

AS ORIGENS
Antes de conduzir a conversa para o dia 25 de abril, o moderador fez uma primeira paragem na noite de 29 de março de 1974. Decorria, no Coliseu de Lisboa, aquele que Sena Santos nomeou como sendo um “ato de resistência” – o I Encontro da Canção Portuguesa. Este evento, organizado pela Casa da Imprensa, prestava homenagem a pessoas relevantes em várias áreas, em particular da música. Era de esperar que, nessa gala, José Afonso fosse reconhecido como melhor intérprete de 1973. Foi precisamente uma das suas músicas, “Grândola”, que fez todos os presentes cantar em uníssono, no fim dessa noite.
Porém, Adelino Gomes, jovem jornalista vítima do regime – foi impedido de exercer a profissão por não ter submetido um comentário seu à fiscalização do censor da sua estação de rádio -, acabou por ser uma das figuras da noite, quando discursou no Coliseu e mostrou o seu desacordo com as políticas de Marcello Caetano.
“Era um Portugal muito interessante. Havia o Portugal da superfície e o Portugal mais profundo”, recorda o agora investigador e professor, exemplificando com os poemas que Ary dos Santos escrevia para muitas músicas concorrentes ao Festival da Canção, as quais, com imensa subtileza, impregnava de ideais contrários aos promovidos pelo Estado Novo. A censura deixava-os passar; o mesmo fez com a referida canção de Zeca Afonso.
Adelino Gomes sublinha que, na altura, ninguém reconhecia a fraqueza do regime, o qual, diz o jornalista, “precisava apenas de um piparote” para ir abaixo. Nem depois do fracassado golpe das Caldas da Rainha o Estado Novo admitiu que não estava a conseguir controlar os militares. Estes não baixaram os braços e continuaram a preparar o golpe. “Tínhamos uma coragem de que não nos apercebíamos”, reforça Adelino, que elogia a dedicação das forças militares: “Às mulheres deles, os homens disseram «vou ali e posso não voltar»”.

OS PRIMEIROS PASSOS
Um desses homens é Vítor Crespo. Tinha 42 anos quando tudo aconteceu e já somava muito tempo de experiência militar. Esteve seis anos ao comando de dois navios no Ultramar e deu aulas na Escola Naval durante oito anos.
A política colonial seguida desde 1960 pelo Estado português, como conta o almirante, constituía uma razão suficiente para mudar de rumo, já que ia contra o que era defendido na Carta das Nações Unidas e estava a esgotar o país financeiramente. “A maior vergonha por que Portugal passou foi entre 1961 e 1973 – o isolamento total”, relembra. Urgia, então, preparar um novo plano político para o futuro.
Vítor Crespo foi membro ativo do Movimento dos Capitães e participou na redação do Programa do Movimento das Forças Armadas (MFA). Este grupo de militares era, no seu entender, a força real em que se sustentava o regime. Por essa razão, só eles poderiam derrubar o Estado Novo.
As primeiras discussões sobre este projeto decorreram com grande secretismo – apenas três homens sabiam o que iria acontecer. Contudo, e ainda que os restantes soldados que participaram efetivamente no golpe de Estado não tivessem grande informação sobre os planos, nenhum deles se mostrou hesitante em aderir. Primeiro ao som de “E Depois do Adeus”, de Paulo de Carvalho, e depois alertados pela faixa “Grândola, Vila Morena”, de Zeca Afonso, os militares entenderam que deveriam iniciar as operações. Era o momento de avançar. “Era irreversível”, constatou Vítor Crespo. O país teria de mudar definitivamente nessa noite. Mas havia uma condição: nenhuma gota de sangue poderia ser derramada.

FAZER OUVIR AS NOVAS VOZES
Obter o controlo dos principais meios de comunicação era um passo indispensável ao sucesso do golpe. Nesse sentido, vários grupos de militares foram enviados à sede da única televisão, a RTP, e do RCP.
O major Cardoso Fontão foi a figura responsável pela tomada do RCP. Os preparativos foram longos e intensos, e não teriam dado o resultado pretendido sem a dedicação de outro elemento – o capitão Santos Coelho.
Santos Coelho fez “um estudo de situação sobre a possibilidade de ocupar a rádio”. Analisou qual a melhor estação de rádio para, a partir dela, comunicar ao país os avanços da revolução. Inicialmente, pensou na Rádio Renascença, mas, como tinha um amigo a trabalhar no RCP, considerou que teria mais hipóteses de conhecer as instalações desta última. Além disso, estudou canções de Zeca Afonso para determinar quais as mais indicadas para serem utilizadas como senha. A primeira escolha foi “Venham Mais Cinco”, como explica: “Era o que queríamos. Chamar pessoas, dizer-lhes que saíssem à rua”. Mas, com a censura a impedir a reprodução daquela canção, a escolha teve forçosamente de recair em “Grândola”.
Na madrugada de 25 de abril, foi Cardoso Fontão quem esteve encarregado, juntamente com outros homens, de ocupar a sede do RCP. Conta que, na noite anterior, exigiu que os soldados fossem dormir, tendo-os depois chamado perto da hora combinada. Nenhum deles desconfiava. “A consciência política deles era muito fraca”, contou. Talvez por isso todos tenham aceitado o desafio.
Na rádio entraram oito militares; Joaquim Furtado, locutor do RCP que estava de serviço nessa noite, ficou encarregado de ler os comunicados, cujo texto foi chegando via telefone. Depois disso, a estação entrou num período em que apenas passava marchas militares, que conferiam, como reconheceu Vítor Crespo, “um ambiente de golpe de Estado”. Mas toda a tensão valeu a pena. “Foi entusiasmante ver como as pessoas aderiam. Às 8h00, elas já nos traziam flores e comida”, recordou Santos Coelho.

IMPROVISO NA TELEVISÃO
“Tentei fazer uma operação militar”, começou por dizer Teófilo Bento, que, em 1974, foi incumbido de preparar a ocupação dos estúdios da televisão pública, no Lumiar. O capitão insiste na ideia de que, contrariamente ao que muitas pessoas dizem, ele não tomou nada: apenas assaltou a RTP. E com muito improviso.
Neste processo, Teófilo Bento contou com o apoio de civis, que se revelaram uma ajuda importantíssima, pelo facto de ele não ter o plano de ocupação muito bem preparado. “Queria saber onde era a central dos telefones, o gerador… Não queria um mapa com os estúdios da RTP”, referiu, animado, concluindo que só não foram descobertos pela PIDE porque esta era “uma organização desorganizada”. Depois de ocupada a RTP, este grupo de militares, que desconhecia os procedimentos técnicos com os quais se colocavam emissões televisivas no ar, explicou aos funcionários da estação o propósito da revolução, conquistando assim uma preciosa ajuda.
Tendo vivido alguns anos em Londres, o capitão lembra o fascínio que sentiu quando tomou contacto com uma sociedade mais aberta, tolerante e liberal. Lá, participou em discussões sobre Salazar e as políticas ultramarinas do governo português, além de ter assistido a várias manifestações e visto outros estilos de roupa. “Vim de Londres com a sensação de ter tocado na liberdade”, confessa, acrescentando que, em Portugal, também se falava em democracia, mas numa muito mais musculada.
“É difícil explicar o que é liberdade a quem nunca a teve”, referiu, mostrando que entende o quão difícil é para os mais jovens entender como era a vida no anterior regime.
No seu estilo descontraído, continuou a mostrar como, ainda que tenha havido bons preparativos para o golpe de Estado, o MFA desconhecia o que fazer nos momentos seguintes. Recordou que, ao perguntar o que aconteceria depois de derrubado o regime, Otelo lhe respondeu: “Damos o poder ao povo e vemos como eles governam”. Contudo, Teófilo Bento deixou bem vincada a sua opinião a respeito desta incerteza: “Conquistar o poder é fácil. O pior é mantê-lo”.

“E AGORA?”
Vítor Crespo é perentório quando se refere à importância que os media tiveram naquela noite. Com a tomada dos mais importantes meios de comunicação, “quem dizia aos portugueses o que se passava no país era o MFA”.
Derrubado o poder que dominara Portugal durante mais de 40 anos, era altura de se pensar no que fazer depois. Parecia certo que, pelo menos numa primeira fase, se deveria procurar pôr em prática a máxima dos três D: democratizar, descolonizar, desenvolver. Contudo, ficou claro no colóquio que o objetivo primário dos militares foi o derrube imediato do Estado Novo, não a construção de um novo modelo político de futuro. Cardoso Fontão reconhece que o que ficou para os mais jovens não foi a ideologia mas, sim, “um enquadramento geral que permitisse que Portugal tomasse novos rumos”. De facto, outra das figuras deste momento histórico, o Major Vítor Alves, falecido em 2011, reconheceu que, findo o golpe, era a altura de o povo mandar, já que detinha agora o poder.
O Almirante Vítor Crespo lamentou, neste sentido, a ausência de um projeto definido para o pós- 25 de abril. Era sua convicção que era necessário um programa detalhado para evitar que os militares tomassem o poder, visto que “todos os regimes militares são autoritários”. Assim, Crespo acabou por ser das vozes que mais exigiram um governo civil, ainda que tenha reconhecido que os militares foram para o poder, de forma imprevista, “por não haver possibilidade de atingir consensos entre os políticos”. De facto, o capitão acredita que uma maior ligação entre o MFA e os partidos teria evitado o crescente poder de António de Spínola. Vítor Crespo concluiu: “A política é dos políticos e do povo”.

PORTUGAL E O FUTURO
Adelino Gomes tem merecido bastante destaque nestas últimas semanas. Lançou recentemente um novo livro sobre o 25 de abril, intitulado Os Rapazes dos Tanques. Sena Santos aproveitou a ocasião para tentar saber o que ainda falta descobrir sobre a revolução dos cravos. “O que ouvimos aqui foi o importante”, sublinhou o jornalista, que não deixa de procurar as histórias de figuras menos conhecidas, mas não menos importantes, que também se envolveram no processo. José Alves Costa, o cabo apontador que recusou obedecer ao brigadeiro Junqueiro dos Reis e disparar sobre Salgueiro Maia, é “um herói português”, como conta Adelino Gomes: “Nunca se pôs em bicos de pés. Nem o presidente da junta onde ele vive sabia, nem a mulher, nem o filho”. Alves Costa passou todo este tempo a ser “nomeado sem nome e sem rosto”. Aproveitando o momento, Teófilo Bento lembrou que entraram nesta operação cerca de 5 mil militares, um número que vai muito além dos mais conhecidos.
Estamos em 2014. Já passaram 40 anos desde a revolução que mudou o país. A conjuntura em que Portugal vive, neste momento, não é certamente aquela que estes militares desejaram quando puseram o golpe em prática. Como será o futuro? “O que fazer do futuro?”, questiona-se Adelino Gomes: “A 29 de março de 1974 sabíamos lá como seria o futuro…”

Texto: Gonçalo Coelho

Foto: Ana Rita Caldeira

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