A televisão, esse parente pobre do Cinema…

O momento do Kodak

 Domingo, dia 2 de Março de 2014, foi tarde de Óscares, lá para as bandas de Los Angeles, a cidade mais cosmopolita da costa oeste dos Estados Unidos.

Desde o final da Segunda Guerra Mundial que naquela Região Metropolitana se assiste ao crescimento de imensas indústrias, como as da informática e aeroespacial.

Contudo, é pela indústria cinematográfica que Los Angeles é conhecida.

Durante a Primeira Guerra Mundial, alguns produtores independentes de Nova Iorque, inspirados por David Griffith, realizador do filme “Nascimento de Uma Nação”, deslocaram-se para um pequeno povoado californiano chamado Hollywoodland. As condições para trabalhar não podiam ser as melhores, sobretudo quando comparadas com aquelas a que estavam habituados em Nova Iorque. Muitos mais dias de Sol, diferentes paisagens a pouca distância umas das outras e uma grande variedade de etnias. Todas estas condições fizeram nascer a “Meca do Cinema”. Em poucos anos, fundaram-se os maiores e mais importantes estúdios de cinema de todo o Mundo: MGM, FOX, Universal ou Paramount, entre outros. O Cinema não servia apenas para contar boas histórias, era também um negócio. Um fabuloso negócio.

Na Europa, a produção cinematográfica apostava em estilos e linguagens diferentes: impressionismo em França, expressionismo na Alemanha e surrealismo em Espanha, ou novas técnicas de edição como a “montagem dialéctica”, proposta por Serguei Eisenstein, no filme “Couraçado Potemkin”. O cinema ascendia à categoria de Arte.

No Velho Continente, a Segunda Guerra Mundial anula muito da sua capacidade de produção de filmes, enquanto no Novo Mundo, apartado dos efeitos diretos da Guerra, o Star System, apoiado agora no som, afirmava-se como o grande produtor mundial de cinema, capaz de criar ídolos, lançar modas, criticar regimes, alterar costumes e formas de pensar.

Claro que, numa sociedade muito competitiva com a americana, premiar o mérito segue a orientação dos seus próprios tiques fundadores. Assim, não poderemos estranhar que a Academia das Artes e Ciências Cinematográficas, fundada em 1927, tenha instituído um prémio que reconheça a excelência dos profissionais da indústria do cinema, a justamente considerada “7ª Arte”.

Feito este breve enquadramento sobre as origens da cerimónia da entrega dos Óscares, é importante pensar que o cinema, também conhecido como “as fitas”, isto é, as histórias contadas com luzes, sons, silêncios e negros, misturados em proporções devidas, era inicialmente mediatizado apenas através da imprensa e da rádio. Os efeitos do glamour eram apenas observados em diferido, através das fotos ou dos magazines noticiosos apresentados nas salas de cinema, antes dos filmes.

A televisão planetária mudou tudo desde meados da década de 90 do século passado. A passadeira vermelha e o palco do Kodak Theater, em tarde de Óscares, passaram a ser vistos em direto em todo o Mundo.

Em poucos anos, a mais importante cerimónia da “7ª Arte” atingiu níveis de audiência à escala planetária só comparáveis aos grandes acontecimentos desportivos. A televisão, desde sempre vista como a parente pobre do cinema, porque não se lhe comparava em termos de qualidade de imagem e de som, também evoluiu tecnologicamente ao captar e difundir imagens em Alta-definição, ao criar a sua própria linguagem, afirmando-se como elemento indispensável ao sucesso deste acontecimento por tirar partido do elemento “instantâneo” que lhe é característico. Instantâneo e global, sublinhe-se.

Mas a mediatização da cerimónia conta agora também com as redes sociais. O Facebook e o Twitter são das mais importantes, realimentando a narrativa televisiva, amplificando o acontecimento do Kodak Theater.

Na 86ª Gala dos Óscares, o Twitter foi responsável por um novo recorde: uma selfie de Ellen Degeneres foi partilhada por mais de 1 milhão de pessoas em apenas 1 hora, enquanto mais de 40 milhões de espectadores assistiam à mise-en-scéne de um programa sobre cinema, sobre a “7ª Arte”, essencialmente pensado e produzido para televisão.

 Por Rui Pinto de Almeida

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