A última família das suas vidas

Idosos em Portugal

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Após ter aberto a porta de casa, Célia Silva seguiu para o centro do dia. Sozinha no mundo, é lá que passa as suas tardes.

Célia Silva, de 71 anos, abre a porta de sua casa, na freguesia de Santa Maria de Olivais, uma das maiores de Lisboa, e mostra, com orgulho, a sala bem mobilada, limpa e cheia de molduras, em formato de coração, com fotografias do marido, que morreu há 16 anos e que a deixou num estado depressivo. Uma casa que lhe confortou as lágrimas e angústias que o desaparecimento do marido lhe provocou. Estiveram casados 36 anos. Foi como se tivesse ficado sozinha no mundo, apesar de ter quatro filhos.

Nascida em Vila Pouca de Aguiar, no distrito de Vila Real, Célia só fez a terceira classe e em criança trabalhava no campo, a ordenhar ovelhas. Para fugir do frio e das dificuldades por que passou, aos 12 anos veio com a irmã para Lisboa, para trabalhar como criada interna. Mais tarde, voltou-se para a venda de pão e de leite, com a qual arrecadou muito dinheiro,passando a ter uma vida desafogada.

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Célia Silva emoldura, em formato de coração, fotografias do grande amor da sua vida. São os restos de um passado que recorda com saudade.

Conheceu o homem da sua vida no casamento da irmã, quando tinha 15 anos. Apesar de, inicialmente, não se ter interessado por José Silva, nove anos mais velho, este disse-lhe logo, quando a viu e a convidou para dançar: “Tu vais ser a mulher da minha vida”.

Tudo começou através de cartas românticas, visitas à janela e com as perguntas que ele fazia aos amigos próximos para saber como ela estava. Como Célia era criada interna, José só estava com ela de 15 em 15 dias.

O casamento não foi perfeito, porque ele tinha problemas com a bebida; porém Célia não tem dúvidas de que este foi o homem que ela mais amou.

Após a sua morte, o mundo caiu-lhe em cima: “Tive de recorrer a psicólogos e a neurologistas. Fiquei apática durante dois ou três anos,quase sem falar. Foram tempos muito difíceis.”

Os filhos encontram-se numa situação estável, casados e com filhos. Mas “eles têm a vida deles. Não é que não se importem comigo, porque eu passo os fins-de-semana com eles. Mas a minha verdadeira companhia é a rádio e a televisão.”

Para atenuar o buraco de solidão que lhe invadiu o coração, uma vizinha aconselhou-a a frequentar o centro de dia da Associação Vida AbundanteAtualmente,é lá que passa todas as suas tardes, e não se arrepende desta decisão: “Comecei a distrair-me, a sentir-me menos sozinha”.

 O CENTRO DE DIA

A cozinha encontra-se no mesmo sítio da recepção. Aqui, os idosos comem com as crianças, já que a Associação também tem creche e pré-escolar. Cerca de cinco funcionárias encontram-se na cozinha, todos os dias, a preparar o almoço e o jantar.O espaço em que funciona o centro de dia da Associação foi cedido pela Câmara Municipal de Lisboa, em 1998. Amélia Boto, além de ser a directora, é uma boa companhia para os idosos. “O centro é um local de afectos, de convívio. Quebra o isolamento, aproxima as pessoas. Aqui fazem-se novos amigos. Eu estou aqui sempre disponível para os ajudar. Muitos deles desabafam comigo as suas preocupações”.

“Existem três grupos de idosos: os que vêm buscar comida, os que vêm comer e os que passam cá o dia a conviver”, explica Amélia.

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A diretora da instituição partilha momentos de afecto com os idosos.

A sala onde normalmente os idosos convivem e jogam às cartas é perto da sala da directoria. Tem capacidade para 25 utentes. Para além das refeições, os idosos podem também fazer no centro a sua higiene pessoal e desenvolver outras actividades, como animação, ginástica e passeios. “Temos também o almoço de Natal, a festa de Ano Novo, a dos Santos Populares, a do São Martinho…Fazemos ainda uma feira de objectos usados e cerca de quatro excursões por ano, a várias regiões do país. A próxima é no fim de maio.”

A Associação já anda a preparar a feira de usados, que se realiza anualmente. Esta é uma forma diferente de os idosos conviverem.

De facto, a Associação é polivalente, já que tem mais do que uma valência. “O objectivo aqui não é gerar lucro; é, sim, ajudar quem mais precisa”.

No entanto, a quebra nos rendimentos ensombra o futuro, que é incerto: “Só temos neste momento de acreditar que esta situação vai melhorar. Para já, o único objectivo é manter o que temos. Mas tenho a noção de que os apoios não são suficientes. As reformas são mais pequenas, e tudo depende da comparticipação do Estado”.

 As estatísticas demonstram que os idosos vivem cada vez mais tempo. Segundo dados do INE, o número beneficiários do complemento solidário para idosos, entre 2005 e 2011, quintuplicou (passou de 56.641 para 248.761), e em 2050 um terço da população nacional será idosa. Actualmente, já 20% da população total tem mais de 65 anos. “Além de a população ficar cada vez mais envelhecida, existem muitas co-morbilidades, que trazem exigências a nível económico. Ao mesmo tempo,muitas vezes não há famílias presentes, nem condições económicas. Usualmente as reformas são baixas”, diz Maria Vânia Nunes, responsável do Serviço de Acção Social da Cruz Vermelha Portuguesa.

 MEDO DO FUTURO

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A mulher de Manuel Fernandes precisa de muitos cuidados médicos. Apesar de o dinheiro ainda chegar, Manuel teme pelo futuro.

Manuel Fernandes, de 81 anos, frequenta também diariamente a associação. Vive unicamente dos 500 euros que ele e a sua mulher, Maria de Lurdes Fernandes, recebem do Estado. Não têm outros apoios. Mais de metade do dinheiro vai para a farmácia e para os tratamentos. Maria é uma pessoa doente, que já perdeu um peito, e Manuel tem problemas de audição, de colesterol e de hipertensão.

O casamento já dura há 54 anos. Manuel, natural de Viseu, conheceu Maria numa zona de barracas que existiam na zona de Chelas. Maria engravidou por quatro vezes; no entanto, todos os bebés morreram, no parto ou na sequência de abortos.

Apesar de sempre terem sido felizes ao lado um do outro, temem pelo futuro: “O mundo, hoje em dia, é só para ricos”, diz Manuel, com um olhar muito sério e preocupado. Faz uma pausa, respira fundo e continua: “Vejo muito mal o futuro. Mas tento poupar, com o pouco que tenho”.

DONA ROSANUNCA DESCONTOU

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Rosa Araújo não teve uma vida fácil. Não recebe nenhum apoio do Estado  e só há alguns meses é que deixou de ser vítima de violência doméstica.

É vulgar existir uma negra realidade por detrás dos sorrisos amarelos dos idosos que frequentam o centro de dia. Muitos deles nunca descontaram para a Segurança Social. Não têm,assim,qualquer apoio.

Desde a hora de abertura até ao fecho, Rosa Araújo, de 79 anos, natural de Paredes de Coura, permanece sozinha num sofá a ver televisão e a assistir à chegada dos seus amigos idosos. Apesar de estar casada, o seu marido não a acompanha na sua jornada diária.

Têm uma vida difícil. Rosa nunca descontou para a Segurança Social, porque sempre achou que não precisaria de uma ajuda financeira no futuro. Vive do salário reduzido do seu marido, que ainda trabalha, embora some já 68 anos. Quando este parar de trabalhar, não sabe do que viverá, já que também tem muitas despesas de farmácia.

No entanto, Arnaldo Araújo não foi o seu primeiro grande amor. Quando veio para Lisboa, apaixonou-se por um homem com quem viria a ter uma filha. Pensou mesmo em construir uma vida com ele e realizar o seu maior sonho: ter um casamento para toda a vida. Acabou por realizá-lo, mas não com ele, que sempre a encarou como segunda opção. Como acompanhante de luxo.

Separaram-se quando a filha tinha sete anos. Logo de imediato, Catarina foi posta num colégio interno, onde só recebia visitas quinzenais. O pai acabou por levá-la, sem pedir autorização a Rosa. E, mesmo não se tratando de um rapto, a verdade é que a mãe só conseguia ver a filha de longe a longe.

Rosa conheceu já 46 anos o homem com quem está casada.Mas ele também não é o melhor exemplo de como tratar uma mulher. Só há alguns meses é que Rosa deixou de ser vítima de violência doméstica: ele batia-lhe quando bebia demais e Rosa,farta de “comer e ficar calada”, ameaçou-o de que sairia de casa caso ele continuasse com aquele comportamento.

 A MULHER QUE TINHA MEDO DO MARIDO

Ao contrário de Rosa, Justina Macedo, de 80 anos, natural de Viseu, nunca conseguiu fazer nada para deixar de ser agredida: “Tinha medo, muito medo”.

Por vezes, o marido ficava semanas inteiras longe de casa, em trabalho, e Justina só o via aos fins-de-semana. E, durante todos os dias da semana, temia como seria o fim-de-semana seguinte, junto dele, a levar com o cinto e com a sua mão pesada.

Tentou fugir várias vezes– até foi morar para junto da irmã. Mas ele sempre a foi buscar, fazendo com que ela regressasse à força a casa. Justina entrou em depressão; pensou em suicidar-se, mas nunca foi capaz.

Também não teve um bom exemplo parental. O seu pai foi para o Brasil e trocou a mãe por uma brasileira. Voltou para Portugal já sendo ela quase uma mulher, e Justina não lhe perdoa por ele não ter acompanhado o seu crescimento.

Devido aos maus tratos por que passou, Justina Macedo deixou de confiar nas pessoas. A Associação foi uma redescoberta para si, tanto a nível pessoal como relacional.

O marido faleceu há oito anos. Sente que um peso foi tirado de cima de si. A Associação foi uma boa forma de se reencontrar e de dar uma oportunidade às pessoas, porque já tinha deixado de confiar nelas. Agora, não se cansa de falar com os outros. Esboça um sorriso encantador e dá beijos e abraços a quem fala consigo.

Justina recebe 500 euros de reforma e tem os seus quatro filhos bem encaminhados. Vive sozinha mas sente-se aliviada por não ter muito com que se preocupar. A não ser com a sua saúde.

 OPERADA 11 VEZES

Maria do Carmo, de 79 anos, natural de Arcos de Valvedez, já foi operada 11 vezes: “Desde os joelhos ao estômago e à garganta”, explica. Pediu a reforma aos 53 anos por invalidez. Hoje, só está de pé por causa da medicação que tem de tomar, todos os dias. Não pode falhar.

O seu marido, Alexandre Rodrigues, que sempre a tratou como uma princesa, morreu aos 43 anos de cancro no pâncreas. Maria do Carmo não teve o apoio que desejou quando esta morte lhe assombrou a vida. O filho estava na tropa. Os seus pais, no céu, a olhar por ela.

Maria nunca conheceu o pai, que morreu tendo ela apenas três anos. A mãe deixou-a aos 18. Partilhou a casa com quatro irmãos e nunca passou fome nem frio. Estudou até à quarta classe, à noite, porque de dia trabalhava no campo. Aos 24 anos veio para Lisboa, incentivada pelo seu cunhado.Trabalhou na venda de leite e, com pouco, conseguiu construir o seu caminho.

Maria do Carmo, além de ter uma saúde frágil, diz nunca ter sido feliz. Toda a vida sofreu com a morte prematura de pessoas próximas.

Agora vem todos os dias, sem falhar, ao centro de dia. Começou a frequentar o espaço para fugir à solidão. Sente-se muito acarinhada pelas pessoas que aqui trabalham. Acredita que Deus traçou o seu destino, mas diz que nunca foi feliz. “A vida foi ingrata, traiçoeira”.

CHORA TODOS OS DIAS

Madrasta foi também a vida de Maria de Lurdes Valentes, de 74 anos, natural de Proença-a-Velha. Mas só após a morte do seu marido, Manuel Valentes.

Quando era nova, Maria de Lurdes ia comprar à banca de Célia Silva o pão e o leite que esta vendia. Desde então tornaram-se amigas chegadas. E, mesmo sem terem crescido juntas, passaram as duas pela mesma situação: por uma depressão.

Maria é a mais nova de uma família de quatro irmãos. Passou fome, e quando era criança viveu da agricultura. Veio para Lisboa para se casar. E teve o casamento que todas as mulheres gostariam de ter: “Foram 41 anos juntos, de união, de excelentes momentos”.

Conheceu o marido nos bailaricos de antigamente. Apaixonou-se logo quando este a pediu para dançar. Se não foi amor à primeira vista, esteve perto disso.

Algo cabisbaixa, sem falar muito, Maria de Lurdes olha para o mundo com tristeza, ainda que tenha feito o esforço de sorrir para a objetiva. Vê-o de uma maneira muito diferente daquela de há alguns anos. Também toma antidepressivos.

A morte do marido fez com o que mundo caísse em cima de si. Chora todos os dias por ver a sua vida acabada, por ver o rumo que ela tomou. Não era este o fim de vida com que sonhava.

A Associação Vida Abundante é uma luz ao fundo do túnel. Não é a cura da tristeza que lhe invade a alma, mas alivia-a de tudo o que a rodeia. Aqui, fez amigos, encontrou afectos e uma segunda família,que lhe dá forças para continuar a lutar e a viver, contra todas as adversidades.

Não esboça um sorriso, mas sabe que está protegida. Há gente que se preocupa com ela e que a ama, e ela sabe que nunca estará só.

Por Diogo Canudo

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