Academia de Alcochete, local de nascimento

É preciso afastarmo-nos da cidade e atravessar o Tejo, sair em Alcochete/Montijo e ter a placa “Pegões” debaixo de olho, depois há-de aparecer a da Academia que nos leva para uma estrada à esquerda. Nessa altura há um caminho, acompanhado pelo verde da paisagem, onde passa uma carrinha cheia de crianças de fato de treino da mesma cor, e para além disso, a acompanhar, só vacas até chegar à Academia que há-de surgir à esquerda. É por aqui que passam todos os dias João Mário, Ricardo Esgaio, Iuri, Betinho e outras esperanças da Academia do Sporting. Passando a portaria, uns 200 metros à frente, junto ao campo coberto, há um enorme leão a olhar o verde em redor como se de um reino se tratasse. Uma imagem que fica impressa na retina. Este reino tem 250 mil metros quadrados, permitindo que o olhar se perca, embora sem nunca perder os sobreiros da Academia. Estão em todo o lado. Não há confusão, não há barulho. Parece haver alguém a cortar relva longe, mas não se pode dizer ao certo. Ali perto encontra-se a ala do edíficio referente à formação, em que a paisagem interior é igual à exterior. E por aqui há muita vida. Para além de aspirantes a craques, há todo o staff de dezenas de funcionários, treinadores, dirigentes, e roupeiros, para os quais há relvados, balneários, piscina, salas de convívio, musculação, refeitório, dormitório, salas de hidromassagem, salas de estudo, bibliotecas, e gabinetes. Nos corredores há fotografias de momentos de glória, de jogadores importantes, e muitas taças do futebol de formação. Nos gabinetes as cadeiras são todas verdes, o ambiente de trabalho do windows “são do Sporting”, o jornal em cima da mesa é o do clube, e as paredes estão cobertas com fotografias da academia, emblemas leoninos, e placards com as equipas de todos os escalões, calendários e jogadores. É aqui que nos encontramos.

Sentado numa das cadeiras verdes do seu gabinete, José Lima, ex-jogador e treinador das camadas jovens do Sporting, três vezes campeão pelos júniores, explica que existem duas vertentes no futebol de formação do clube: “a vertente Academia, e a vertente que não se situa aqui, a vertente EUL (Estádio Universitário de Lisboa), que é onde todas as crianças abaixo dos sub-14 treinam”. Actualmente, só é possível residir na Academia depois dos 14 anos, uma idade precoce mas que, para quem anda nisto há muitos anos, já traz certezas. A primeira observação é feita em idades como os 9, 10 anos. Há “um grupo de olheiros por todo o país, e já conseguimos por vezes chegar a termos internacionais”, continua José. Há, concluindo, um grupo de olheiros espalhados por zonas e coordenadores que trabalham na Academia. Caso haja algum miúdo com “boa relação com a bola” pede-se que vá treinar ao Estádio Universitário. Estes casos são mais complicados quando há crianças de zonas mais distantes. Quando assim é, tenta-se que venham jogar ao fim de semana, sendo isso, continua o mister: “mais uma forma de avaliar para depois tomar decisões quando chega a altura de entrarem como sub-14 e, portanto, isto requer a dedicação de muitas pessoas, um esforço muito grande, e, enfim, tentamos desta forma que tudo o que sejam jogadores com boa qualidade integrem as nossas equipas”.

Foi desta forma que se conquistaram os talentos de ontem, e é desta forma que se conquistam os talentos de amanhã. Luís Figo e Cristiano Ronaldo, dois dos melhores futebolistas que o mundo já conheceu, duas bolas de ouro, alcançadas em 2000 e 2008, respectivamente, começaram a trilhar o seu caminho rumo ao estrelato nos viveiros do Sporting. Aqueles que há muito partiram, como Futre, Figo, Ronaldo, Simão, Quaresma, etc., dão lugar àqueles que também vieram aqui nascer. João Mário, Betinho, Iuri, Dier, Ricardo Esgaio, e André Martins são alguns desses jovens leões já experimentados na equipa sénior. João Mário, promissor no meio campo, recusa à primeira a ideia de que haja algum segredo na Academia. “Acho que não há nenhum segredo. Há bons olheiros, bons observadores que escolhem os melhores jogadores para o Sporting. Acho que se há segredo é mais por ai, (…) depois temos também grandes treinadores, e boas condições que nem toda a gente tem, (…) ali na Academia ou mesmo na Cidade Universitária já há condições que se calhar muitas equipas séniores não têm, e isso é um trunfo para nós”. Critérios para poder ser um craque só há um. Era assim no tempo de José Lima, no velhinho Estádio de Alvalade, e é assim agora. “Da minha altura para agora houve sempre um cuidado muito grande do Sporting em não estar preocupado com as alturas dos jogadores, por exemplo, entre outras coisas, mas sim com a relação que o jogador tem com a bola. E isso mantém-se”, embora admita que possam ser mais selectivos hoje em dia. O Sporting recebe, hoje, cerca de 50 atletas residentes na academia, mas se em termos futebolísticos há um único requisito, a sua estadia depende também de factores extra-futebol. “Não tem lógica estarmos a formar um jogador, e não o formarmos em termos sociais (…). Temos um grande cuidado em termos escolares, temos o cuidado de preparar o atleta para ir subindo de escalão mas queremos que vá evoluindo em termos intelectuais (…) até porque quanto mais inteligente o atleta for mais fácil é explicar algumas nuances tácticas. Se pudermos ter bons jogadores e jogadores inteligentes melhor”, diz o treinador. O protocolo com as escolas de Alcochete permite que os itinerários entre a escola e a academia não sejam cansativos, e para além da escola o clube dá as ferramentas para a vida. Os jogadores têm nas formações preciosos conselhos, e há de tudo, como acções de nutrição, de sexualidade, e da parte financeira. “Tudo acções que achamos importantes para o desenvolvimento deles”, sublinha. Nos escalões mais altos há a preocupação de preparar os futuros séniores com acções sobre a comunicação social. Pensa-se em tudo e o acompanhamento dos atletas é feito por todos, não só pelos treinadores, mas por todas as pessoas que fazem parte da estrutura, desde psicólogos a coordenadores, todos tentam fazer com que os novos residentes se sintam cómodos. Este é um dos factores chave – a estabilidade. “É desta maneira que vão evoluindo nas várias vertentes da sua vida porque a vida deles não vai ser só futebol, como é natural”. Mas apesar da comodidade, a vida de um jogador residente na academia não é fácil. José Lima tem, ele próprio, o cuidado de definir o horário de cada um. “Sabe, um atleta residente tem uma vida muito mais atarefada do que um não residente”. É, de facto, um desafio encontrar espaços brancos na folha Excel que me põe à frente. Trata-se de um atleta sub-17. O dia de folga é segunda-feira, mas folga neste caso significa que tem um dia igual à maior parte dos jovens da sua idade: aulas das 8.15 às 16.40. Nos restantes dias da semana tem treinos das 18.15 às 20.15. Terça-feira o dia de aulas termina às 18, e começa, como sempre, às 8.15. Quarta-feira acaba mais cedo, às 13.15, mas tem uma hora para vir da escola e almoçar, para depois se dedicar aos livros na sala de estudo da academia nas duas horas que decorrem até as 16.15. Esta é a hora do ginásio, para onde segue imediatamente e se fortalece por quase outras duas horas, para, à noite, depois do jantar, seguir novamente para a sala de estudo. É este o ritmo. Aos domingos há jogo, e neste horário não se encontram as sessões com o gabinete psicopedagógico ou as acções de formação. O apoio deste gabinete é outro alicerce. Ricardo Tavares, atleta sub-18 residente na academia, considera que esta vertente psicológica fulcral e diz porquê. “É sempre importante. Por estarmos essencialmente preocupados com o futebol por vezes desleixamo-nos na escola. Este tipo de apoio faz com que consigamos conciliar as duas partes e mantêm-nos focados no futebol. Por estarmos longe da família por vezes encontramos no ganinete psicopedagógico pessoas que nos ajudam, aconselham, e dão algum tipo de carinho”, refere. Nada é deixado ao acaso.

A Academia do Sporting nasceu em 2002 com o objectivo de institucionalizar uma vocação natural do clube reconhecida por todos – a formação de talentos. Como vimos, conhecem há muito a receita e neste caso não há bimby. Para além de um campus extraordinariamente bem equipado, houve jogo de cintura para a manobra económica – e em cada um destes pormenores se reconhecem pilares para o sucesso. A Academia de Alcochete custou aos cofres leoninos 17,5 milhões de euros, o que quer dizer que a sua vocação já pagou largamente o investimento. Veja-se os seus três casos maiores: Cristiano Ronaldo, Nani, e Ricardo Quaresma, que renderam [no total] cerca de 48 milhões de euros. Juntos representam quase três academias. A infra-estrutura é propriedade do Sporting Clube de Portugal, o que implica que a Sporting, SAD (responsável pelo futebol profissional do clube) tem de pagar uma renda para usufruir das instalações. Pelo usufruto, a SAD disponibiliza 1,020 milhões de euros por ano, quantia que cobre quase na totalidade as despesas com fornecimentos e serviços externos. A factura actual ascende a 1,3 milhões de euros, valores muito próximos do encaixe que a Academia consegue com a exploração de patrocínios, como o naming, que está a ser pago pela Puma – em termos comerciais, ao nome Academia Sporting acrescenta-se o da marca de material desportivo alemã que quis associar-se ao projecto. Desta forma, há mais-valias no valor de 1,208 milhões de euros. A questão vai para além do lucro. A Academia não só é uma mina como paga-se a si própria, e é esta base económica que potencia vendas milionárias.

Por Diogo Borges

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