Adelino Gomes: o jornalismo, antes e depois

Tinha 29 anos no dia 25 de abril de 1974. Adelino Gomes, menos de um mês antes da revolução, já com sete anos de vida como repórter, tinha recebido uma distinção extraordinária : foi chamado ao Coliseu de Lisboa para receber o prémio de reportagem radiofónica pelo trabalho que tinha desenvolvido como jornalista no programa Página Um, da Rádio Renascença – que lhe valeu, aliás, para além do prémio, um despedimento fulminante por parte dos guardiães do regime na Encontro da Música Portuguesa”, com enchente de cinco mil pessoas no Coliseu e participantes como José Afonso, Manuel Freire, Ary dos Santos e outras figuras cimeiras da canção de protesto.
Coube, então, a Joaquim Furtado fazer a apresentação do prémio, do modo que podemos ouvir através da gravação feita pelos operadores de som Manuel Tomás e José Videira, naquela noite de 29 de março de 1974.sequência de um comentário em que comparava o terrorismo do comando palestiniano “Setembro Negro”, em Munique, com o praticado por tropas dos Estados Unidos no Vietname.
O prémio, atribuído pela Casa da Imprensa, foi entregue numa sessão integrada no que viria a ficar memorável como “Primeiro

Anúncio do prémio da Casa da Imprensa em março de 74

Adelino Gomes só ouviu a gravação daqueles momentos, agora, 40 anos depois. E, nos minutos que antecederam uma apresentação do livro “Os rapazes dos tanques”, de que é coautor, numa sessão numa livraria do Chiado, contou-nos como vive agora aquela noite de março antes da revolução

AGomes – o prémio, 40 anos depois
O encontro com Adelino Gomes para esta entrevista aconteceu nos mesmos lugares por onde, na manhã do dia 25 de abril de 1974, este jornalista – ao tempo por conta própria porque tinha sido alvo de despedimento político – fez, com um gravador emprestado, a reportagem da subida, do Terreiro do Paço até ao Lago do Carmo, da coluna militar comandada pelo capitão Salgueiro Maia que viria a cercar e obter a rendição de Marcelo Caetano.
Naquele tempo, Adelino Gomes, com 29 anos, já era um experiente repórter da rádio. Tinha começado em 1966, como animador, ao lado de José Nuno Martins, numa então escola de talentos, a Rádio Universidade. Juntos, fizeram o programa “Pop 397 metros”. O nome remete para a frequência hertziana da Rádio Universidade (397m) e o programa passava a música anglo-saxónica que não se ouvia em outras rádios. José Nuno Martins haveria de continuar como animador e apresentador de programas, enquanto Adelino Gomes optaria pelos caminhos do jornalismo. Trabalhou, antes do 25 de abril, no Rádio Clube Português, na Rádio Renascença e na alemã Deutsche Welle. Continuou, depois da revolução, a exercer o ofício de jornalista na rádio, na televisão e nos jornais, sempre com reconhecida alta qualidade. Para além da cobertura do dia 25 de Abril de 74 e do 11 de março de 1975, reportou o início da invasão indonésia de Timor (1975), também episódios das guerras do Golfo e do Afeganistão (1990/91, 2001 e 2003, entre numerosas outras reportagens.
Pedimos-lhe que nos contasse como era a vida nas redações antes e depois do 25 de abril de 1974:
AGomes – as redações antes e depois (1)

O fim da censura e a conquista da liberdade de informação é uma bandeira principal da revolução de 1974. Será que esta conquista ficou consolidada?
AGomes – defender a independência

Adelino Gomes na ESCS, na conferência
Adelino Gomes na ESCS, na conferência Regresso do Jornalismo

Adelino Gomes, após 42 anos de actividade quotidiana nas redacções e em reportagem, é agora docente e investigador. Tem vários livros publicados. Continua, sempre, jornalista e uma referência para as diferentes gerações de jornalistas.

Entrevista conduzida por Gonçalo Saraiva e João Pedro Dias

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