Afonso Cruz: “É ótimo sentir que se tem leitores”

A Feira do Livro de Lisboa mantém-se consistente ao oferecer aos visitantes nomes reconhecidos da literatura portuguesa. No quarto dia do evento, Afonso Cruz, escritor, ilustrador, cineasta e músico da banda The Soaked Lamb, reservou um pouco do seu tempo para conversar com o 8.ª Colina.

Se o multipremiado autor se tivesse cingindo ao desenho, uma das suas primeiras paixões, livros tão reconhecidos como Para Onde Vão os Guarda-Chuvas e Jesus Cristo Bebia Cerveja, possivelmente, não estariam agora nas estantes de tantos leitores. A matéria-prima que o tornou naquilo que é hoje são as palavras. Contudo, não esquece a importância do traço no início do seu percurso: “Gostava muito de desenhar. Pensei que viria a ser um grande desenhista ou um autor de banda desenhada.” Outra das suas grandes paixões é a fotografia. “O meu avô era fotógrafo”, acrescenta.

Ser criativo tem, como revela o escritor, um método, que vem do registo das leituras e das ideias: “Costumo ler e interrompo a leitura para escrever, conforme ela me suscita alguma coisa. Estou sempre a anotar. É importante ir gravando tudo aquilo em que pensamos.” E aconselha: “Devemos apontar até aquelas ideias que a certa altura nos parecem tontas. Às vezes, quando rebobinadas, repensadas ou combinadas, podem servir de matéria para um livro.”

O Vício dos Livros, a sua mais recente publicação, é uma recolha de relatos históricos, curiosidades literárias, reflexões e memórias pessoais que o autor diz serem “sobre este amor aos livros e à leitura”. Em relação ao feedback recebido, Afonso Cruz revela ter sido imediatamente uma obra que “vendeu muito bem e que foi muito bem recebida pelas pessoas que se identificam com o vício dos livros”.

O 8.ª Colina teve ainda a oportunidade de saber quais os livros que mais marcaram Afonso Cruz enquanto leitor. O autor começa por dizer que tem “todos os livros de Nikos Kazantzakis”, um escritor grego, autor de ZorbásO Grego e A Última Tentação de Cristo. Afonso Cruz sublinha ainda a importância que Dostoievski exerceu na sua vida: “A determinada altura, marcou-me muitíssimo e não deixa de ser um autor que sigo com muita frequência.” Saint-Exupéry é igualmente mencionado, mas admite: “Já gostei mais, verdade seja dita. Mas ainda gosto muito.” Na área da poesia, destaca o poeta medieval persa Jalaladim Maomé Rumi.

Corto Maltese, série de banda desenhada criada por Hugo Pratt, em 1967, marcou profundamente a juventude de Afonso Cruz “tanto pela vertente do desenho, como pela própria narrativa”. Corto Maltese é um marinheiro solteiro, de olhos negros e 1,87m de altura, com um brinco na orelha esquerda, que corre o mundo desde 1911. Afonso Cruz diz rever-se “muitíssimo” com o grande tema da banda desenhada que é a viagem. “Se calhar, passei a identificar-me como resultado da leitura do Corto Maltese.” Por estas razões, quando se pergunta que personagem fictícia escolheria para o acompanhar à Feira do Livro?, elege “o fascinante Corto Maltese”.

Afonso Cruz não se recorda da primeira vez que veio à festa dos livros apenas como leitor. No entanto, recorda que na primeira visita enquanto escritor se sentiu um pouco sozinho. “Tinha poucos livros para assinar e poucas pessoas para me pedir autógrafos”, justifica. Hoje, afirma com satisfação: “É ótimo sentir que se tem leitores.”

Relativamente à realização da feira em época de pandemia, o escritor reconhece ser o retomar de alguma quase normalidade. “Ainda que estejamos todos de máscara, pelo menos, estes eventos ainda podem ser feitos.” Encontro com o público que classifica de “muito gratificante e recompensador”.

No que diz respeito a algum livro que Afonso Cruz pretenda comprar nesta feira, o autor admite não ter tido ainda “oportunidade de ver banca nenhuma”. Nascido na Figueira da Foz, assume “viver isolado” e fazer as suas compras de livros online. “Estou sempre a comprar livros.”. Porém, confessa: “Quando dou uma volta pela feira, não resisto a comprar mais um.”

“Cheira bem, cheira a Feira do Livro” – Que livro sugere Afonso Cruz?

Aos leitores do 8.ª Colina, Afonso Cruz sugere o último romance de Sandro William Junqueira, intitulado A Sagrada Família. Esta obra, também sugerida ao jornal pelo escritor e poeta angolano Ondjaki, conta a história de rivalidade entre duas famílias produtoras de medronho na Serra de Monchique. O autor acrescenta que a narrativa é composta por personagens “um pouco shakespearianas”, com alguns jogos amorosos entre elas. A terminar, tece elogios ao escritor: “É um livro muito bonito, pois tem a escrita do Sandro, que é muito especial.”

Reportagem de Joana Margarida Fialho, com edição de Ana Cristina Barros

Fotografias por Joana Margarida Fialho, com edição de Leonardo Lopes

Revisto por Andreia Custódio 

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