Alcofa: “Os primeiros sapatos que tive foi já na escola.”

A jorna começava às cinco da manhã. O céu ainda estava escuro e o orvalho plantava-se pelo campo. A rulote levava Ana Leandro, de treze anos, às sementeiras: “Quando chegávamos aos grãos ainda não víamos onde púnhamos os pés.  Trabalhava-se de sol a sol.”

 

Em Mourão, na década de sessenta, começava-se a labutar em criança.  “Andava na monda – a tirar ervinhas -, na ceifa das favas e dos grãos, na apanha das azeitonas.” Àquela altura nada havia de máquinas. Nos olivais, improvisavam formas para carregar as azeitonas, com uma escada de madeira: “Metiam-nos dois ou três panos para cima para mudarmos de uma oliveira para a outra. Mal podíamos com o pano cheio de azeitonas. Aqui descansávamos, ali descansávamos.” As sacas eram carregadas a meias, às costas, para as deitarem em cima do moitão que se formava na rulote. “Quando não trabalhávamos, ajudávamos as mães. Fazíamos o serviço, lavávamos de joelhos o chão, que não havia esfregona. A vida foi muito dura.”

Trabalhadores do Campo, em Mourão

Só se estudava da primeira à quarta classe. No primeiro ano, aos sete, a escola das raparigas ficava no castelo, ao lado da igreja e da cadeia. Para Ana eram vinte minutos de caminho. Lembra-se das reguadas que eram dadas soubesse ou não a resposta. “Brincávamos num descampado, onde havia um buraco grande, a cova do ladrão. Corríamos para cima e para baixo. Os rapazes não se arrumavam lá mais porque as professoras não queriam.” Por estar perto da prisão, havia quem fosse levar bocadinhos de pão aos presos, pela grade. Esse ano marcou-a especialmente, mas por outro motivo: “Lembro-me de que andei descalça na escola. Os primeiros sapatos que tive foi já na primeira classe.”

         

Os salários rondavam os doze escudos ao dia para as mulheres e jovens. Os homens ganhavam mais quatro escudos. Com este dinheiro, conseguia-se comprar quatro pães, mas nem só de pão vivia o Homem. Eram explorados: se chovesse durante o trabalho, voltavam para casa, e ninguém recebia nada. Os trabalhos eram sazonais: a altura da monda durava dois meses, a apanha da azeitona três, as ceifas dois. Restava quase meio ano, em que não havia trabalho fixo para todos: “Havia um trabalhinho ou outro caseiro. Como não havia água canalizada ou tanques em casa, pessoas lavavam nos ribeiros as roupas das famílias que tinham mais posses. Caiar umas casas para uma pessoa que não o queriam, pintando com cal. Era uma miséria, uma miséria pegada.”

Bebé a beber água num chafariz, no Alentejo, década de 70

À altura o importante era conseguir pôr comida na mesa. A alimentação estava assente nas açordas, feitas de pão e água. Juntava-se o feijão, grão, batata ou ovo, com o tempero do azeite ou gordura que viesse do toucinho frito. Ao caldo, acrescentava-se com ervas selvagens: acelgas, agriões, que as pessoas apanhavam nos ribeiros, e até uns cardos, que havia nas searas. Por vezes as açordas eram moucas: não lhes eram adicionadas coisas nenhumas além do pão. Os pratos do Alentejo eram feitos maioritariamente como sopa de pão. Numa casa de família, um pão de quilo, daqueles pães alentejanos, não bastava para uma refeição.  

“A minha mãe tinha de ir à loja pedir fiado para comermos. Ficava a dever e pagava depois. E não havia de cá. Foi muito complicado.”

  Os pais de Ana tinham sete filhos. “Era moça, mas lembro-me. Morávamos em duas casinhas. Dormia com duas irmãs, a Estrudes e a Chica. Os meus dois irmãos dormiam juntos. O bebé não sei, dormia entre a mãe e o pai. A Valentina, a mais velha, já era casada.” O que recebiam não bastava: “A minha mãe tinha de ir à loja pedir fiado para comermos. Ficava a dever e pagava depois. E não havia de cá. Foi muito complicado.”

         Lembra-se que em pequena, brincava muito “Tinha muitas raparigas da minha idade na praceta. Íamos para as rochas, para as ervas e fazíamos colares de flores, com uma agulha.” Em casa não havia garreias: “Tive um pai e uma mãe que não me batiam. Não havia dinheiro como há hoje, mas era feliz, na medida do possível”.

Fotografias de Ana Leandro com a sua família na década de sessenta

        

Como eram muitos filhos, nos meses em que o trabalho era escasso, os mais novos tinham de pedir: “O dinheiro só do meu pai não dava para tanta gente. Pegava na Alcofinha e ia a pedir. Mas não era capaz.” Deixava a tarefa para a irmã que era um pouco mais velha, Estrudes, até a mesma já não ter idade para o fazer. “Mandavam-me a mim. Como não era capaz, assentava-me ali nos passadiços a chorar. Chegava lá a Estrudes e tirava-me aquilo da mão. «Dá cá, desgraçada de um cabrão. Nem pedir consegues.» e ia ela, era danada para pedir.” Passado pouco tempo, a irmã mais velha vinha cantando,  com a alcofa cheia: pão, carne e azeitonas, que lhe davam.

Fotografias de Ana Leandro com a sua família na década de sessenta

Artigo escrito por Mariana Serrano.

Scroll to Top
0 Shares
Share via
Copy link
Powered by Social Snap