Anabela Rodrigues: “Não votar não é uma opção, é uma irresponsabilidade.”

Entre os dias 6 e 9 de maio, realizou-se a Semana Europa na Escola Superior de Comunicação Social. Aqui reuniram-se figuras do mundo da política, professores, alunos, e não só, para discutir diversas temáticas: migração, mobilidade e emprego, ambiente, media e populismo. O primeiro dia focou-se nas migrações e nos refugiados.

“A Europa é feita por nós. Se não votarmos, deixamos isto para quem não gosta da Europa”, afirmou André Costa Jorge, Coordenador da Plataforma de Apoio aos Refugiados e diretor da JRS Portugal. Este foi o apelo que deu início ao debate moderado por Gonçalo Taborda e Madalena Jesus, estudantes da licenciatura em Jornalismo na ESCS.

No apelo, André Costa Jorge referiu a extrema importância de iniciativas como esta, que permitem “debater o contexto da campanha eleitoral para o Parlamento Europeu”.

André Costa Jorge (CATARINA DIAS)

Anabela Rodrigues, candidata do Bloco de Esquerda à Europeias de 2019, seguiu a deixa de André Costa Jorge: “Como é que eu deixo que os outros tomem decisões por nós? Quando nos queremos queixar, não nos podemos queixar, porque não exercemos o nosso direito de voto”, explica.

Relativamente ao tema do dia, as migrações, o Coordenador da Plataforma de Apoio aos Refugiados centrou-se nas condições que esperam os refugiados quando estes chegam a Portugal: durante um ano e meio, as organizações têm de garantir um padrão mínimo de condições de vida – residência, aprendizagem da nova língua, trabalho e escola. “A ideia é que seja feita uma integração nesse espaço de tempo”, explicou.

Atualmente, circular livremente pela Europa é fácil, mas muitos não o podem fazer. Anabela Rodrigues focou-se no “sonho da Europa” e no quanto a Europa é desejada pelos que a ela pretendem chegar. “O objetivo é continuar a construir um projeto que possa ter todos os ideais”, fazendo ponte entre os migrantes e refugiados que tentam chegar à Europa e os portugueses que vão para fora. “Existem condições mínimas que todos desejam que os portugueses que vão viver ou trabalhar para outro país tenham, e é aqui que entra o poder de voto – os refugiados também devem ter essas condições mínimas”, defendeu Anabela Rodrigues.

Anabela Rodrigues (CATARINA DIAS)

Foi o Comandante João Madaleno Galocha, Chefe da Divisão de Operações do Comando Naval, quem trouxe o lado mais humano para debate. Ao relembrar as várias operações de resgate em que esteve presente, falou das imagens aterradoras que nunca mais o largaram: “Trazem apenas a roupa. Vi pais desesperados a tentar alcançar o navio.” João Madaleno Galocha viu desespero e violência, mas também descobriu esperanças e sonhos. Aprendeu a lidar com esses sonhos e a não julgar – tudo o que viveu fez com que aprendesse a considerar o próximo como seu irmão.

Comandante João Madaleno Galocha (CATARINA DIAS)

O segundo painel do dia, “Europa como destino – Conversa com os protagonistas”, privilegiou a perspetiva humana, e não a política. Com moderação de Henrique Claudino e Sónia Sul, estudantes da licenciatura em Jornalismo, a conversa contou com a Major Ana Patrícia Lopes, da Operação Poseidon; Maen Machlah, aluno sírio, e Nizar Almadani, refugiado sírio – ambos a viver em Lisboa.

(CATARINA DIAS)

Ana Patrícia Lopes, pioneira, enquanto mulher, a comandar uma missão internacional integrada na Frontex (Agência Europeia da Guarda de Fronteiras e Costeira, que presta apoio aos países da UE e aos países associados de Schengen na gestão das suas fronteiras externas), recordou o que viveu na missão Poseidon: “Na Turquia, tentavam tudo para apanhar aqueles espaços para fazer a travessia. Muitos não sabem nadar; os coletes são feitos de esferovite. Uma das nossas preocupações era não os deixar entrar na água e deixá-los fazer a travessia pela Turquia.” As condições em que estas pessoas viajam são de risco de morte. Para lidar com tudo isto, a Major contou que se concentra por completo na missão e deixa a parte emocional de lado.

Major Ana Patrícia Lopes (CATARINA DIAS)

Maen Machlah, aluno da licenciatura em Audiovisual e Multimédia, não passou por essas condições: conseguiu chegar a Portugal de forma segura. Recordou, no entanto, que não teve ajudas para o fazer. Acabou por vir para Portugal por si próprio, conseguiu uma bolsa e estuda agora na ESCS. Estuda para poder voltar ao seu país, para o poder ajudar. Maen não tem boas memórias: só se lembra da guerra. “Tenho a certeza de que vivíamos em paz, mas não tenho memórias para além da guerra. Em alguns dias, não encontras água ou comida. São dias difíceis.”, recorda.

(CATARINA DIAS)

Nizar Almadani é um refugiado sírio e, tal como o estudante, vive em Portugal e fez o percurso por terra até Portugal. Ao chegar a Portugal, o apoio das instituições sempre foi escasso. O acompanhamento que seria de esperar nunca foi feito, e a falta de resposta aos medos e aos pedidos de Nazar é uma constante. Tem medo do futuro e tem pedido ajuda para arranjar um sítio que lhe permita assentar. Niza era cozinheiro, mas com 60 anos é difícil arranjar trabalho – problema que é agravado pelo facto de ser um refugiado sírio.

Para ele, as pessoas em Portugal são muito simpáticas. No entanto, assusta-o o facto de não poder contar com uma rede de segurança. “Não sei qual é o meu futuro aqui. Não me sinto seguro, nem me sinto em paz.”

Nizar Almadani (CATARINA DIAS)
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