André Maia: “O super-mágico das palavras”

O rapazito que lia a custo os rodapés do telejornal está agora perto de terminar a licenciatura em Jornalismo. André Maia é um contador de histórias. Coleciona tanto as dele como as dos outros. Foram as histórias que fizeram quem ele é hoje e são as histórias que escreve, conta e mostra que farão o resto da sua vida

André Maia apaixonou-se pela Escola Superior de Comunicação Social (ESCS) anos antes de nela estudar. A visita que fez às instalações da ESCS, no 11º ano, foi determinante para apontar o rumo da sua vida. Muitos são aqueles que não sabem que curso seguir, enquanto estão no ensino secundário. O André Maia acabou por não fazer parte desse grupo de pessoas.

Filho de dois professores, André sempre foi bom aluno, mas depois de quatro operações ao intestino a perspetiva que tinha da vida mudou drasticamente. Nada do que estudava em Línguas e Humanidades parecia relevante. Nos 52 dias em que esteve internado, passou a conseguir ver o que realmente era importante. Não lhe interessavam as coisas triviais da vida de um adolescente, como quantos “gostos” tinha a foto do Instagram, ou se tinha feito a barba. Viajar e aproveitar a vida parecia-lhe o mais acertado. De um momento para o outro, podia estar de volta ao quarto 208 do Hospital da Luz.

Uma das paixões do André Maia é a rádio, por isso é raro não ver o André a sorrir dentro do estúdio da ESCS FM.(MAGDA CRUZ/OITAVA COLINA)

Um comentário do além

Tudo ganha outra feição quando a própria ESCS fala com ele: “Olá, André. Estamos à sua espera.” Este comentário no Twitter a uma publicação que o André fizera sobre a escola superior era a confirmação de que precisava. Correu atrás do prejuízo e ficou com uma média alta. Mesmo depois de tanto tempo sem acompanhar as aulas, podia entrar no curso que quisesse. “Os professores não percebiam: «O André vai para um politécnico? Para uma escola que nem tem assim tanto nome?» Mas não me interessava o que diziam.” Nada podia mudar a decisão que tomara: ia entrar na ESCS. O talento que sentiu fervilhar mal pôs um pé dentro da escola não podia ser ignorado. “A ESCS é um poço de petróleo. Sente-se que há coisas a acontecer.” Não sairia com um diploma da universidade, mas saberia ligar um microfone.

Vida - parte 2

Agora que se considera estável, o André não pensa que estudar seja uma perda de tempo. Olhando para o que passou, divide a vida dele em duas partes: a parte 1 e a parte 2 – o antes e o depois dos internamentos. Agora perto de fazer 21 anos, ser o André Maia é conceber a comunicação como algo central: ele está na linha da frente de muitos projetos e nalguns até é o comandante.

“Tenho sempre de estar a fazer alguma coisa que puxe por mim.” É a justificação do André para tudo o que faz, seja estar à frente da ESCS FM, a rádio da ESCS, como Diretor-Geral, ou para iniciar carreiras futebolísticas virtuais. O nível de brio é quase o mesmo. Esta capacidade natural para estar sempre em movimento junta-se à necessidade de erguer projetos, para servirem de currículo no mercado de trabalho. Aquele que é diretor de comunicação do Bola Na Rede, um jornal online desportivo que começou na ESCS, não tem dúvidas: “Vão ser as tardes que passei na ESCS FM, na Magazine, no E2, que vão fazer com que eu possa dar mais à minha família.”

Um ano antes de se candidatar, André sabia que a ESCS fazia parte do seu destino. (MAGDA CRUZ/OITAVA COLINA)

“Parar, para mim, pode ser um bocadinho morrer”

No seu último ano do curso, subir nos projetos em que se envolveu e ser tão ativo pode ser visto como um defeito e uma qualidade: “Na minha cabeça eu consigo fazer tudo e estar em todo o lado. Há dias em que me sinto muito bem com isso, e outros em que nem tanto.”

O que se pode destacar no André é o esforço para chegar às pessoas. A mesma perseverança que o pôs, de um dia para o outro, na Assembleia da República a entrevistar Jerónimo de Sousa e que o fez apanhar boleia de Augusto Inácio, um campeão europeu, numa tarde em que chovia a potes.

Estes foram alguns dos desafios com que o André se deparou, mas, de todo o percurso académico, o projeto que mais o motivou foi uma reportagem sobre a EXPO 98. As coincidências fazem parte da sua vida e esta é capaz de ser a maior delas: o André nasceu no dia da inauguração da EXPO 98 e, em 2018, celebrou os seus 20 anos, com um trabalho sobre os 20 anos da exposição. “Aí senti que estava a fazer jornalismo de investigação.”

Quando lhe perguntam como é que consegue sair-se bem em todos os projetos em que se envolve, a reposta é: “Não é que eu tenha superpoderes, apenas me organizo.” Veremos que nem tudo aqui é verdade.

Agora vês tristeza, agora já não

André foi obrigado a crescer depressa. A maturidade veio com o fim das operações. Mesmo depois de lhe darem alta, sentia necessidade de ir ao Hospital da Luz. “O voluntariado foi a minha maneira de voltar. Deixar de ser um paciente e ser um amigo.” A magia foi a maneira que encontrou para ultrapassar os fantasmas e fazer os outros sorrir. Em qualquer sítio, “se souberes fazer magia, és o rei”, por isso André decidiu usar os dotes de mágico que já tinha para fazer o bem: desde junho de 2015, vai ao local onde foi mais triste, fazer os outros felizes.

Entretanto, a magia deixou de funcionar. As pessoas nunca estavam com disposição para brincadeiras e ele compreendia isso bem. Foi aí que começou outro capítulo da história do André Maia. A perseverança não lhe haveria de falhar.

O André divide o seu tempo entre o curso, a ESCS FM, o Bola na Rede e outros projetos, que o fazem sentir-se realizado. (MAGDA CRUZ/OITAVA COLINA)

Sim, pai, eu sou o Homem-Aranha

Dos bonequinhos do Gil, o André depressa evoluiu para o Homem-Aranha. A primeira regra dos super-heróis é não revelar a sua verdadeira identidade e era isso que estava planeado, mas até os filhos de Stan Lee têm falhas.

No verão de 2017, inspirado pelo filme “Homem-Aranha: Regresso a Casa”, que acabara de sair, e pela história de um homem holandês que se mascarava de Homem Aranha para limpar os vidros dos hospitais, André decidiu que também ele iria ser o Homem-Aranha. Numa altura em que já ninguém queria ver truques de magia, André arranjou outra maneira de tornar o dia das pessoas mais leves. No dia em que este grande fã do Homem-Aranha vestiu o fato – que tanto lhe custou a arranjar –, sentiu-se destinado a ser o super-herói.

O pormenor nisto tudo é que André não contou a ninguém que ia ser um super-herói: “Queria que as pessoas olhassem para mim como o Homem-Aranha e não como um gajo mascarado de Homem- Aranha.” A cada desafio com se deparava, tudo se alinhava. Depois de uma busca difícil pelo fato e de arranjar o dinheiro, conseguiu ir para a Casa das Cores, nos Olivais, animar as crianças. Foi um grande sucesso. “Saí de lá mesmo com o fato e andei na rua aos saltos. Sentia-me mesmo o Homem-Aranha, porque era isto que ele fazia: ajudava as pessoas.”

Depois de algum tempo, teve de tirar a máscara. A febre do Homem-Aranha começava a descer. “O objetivo era ajudar as pessoas e ninguém queria ser ajudado.” De repente, havia um fato caríssimo no armário, ninguém para ajudar e o pai descobre que o filho era o Homem-Aranha. Com a sua identidade revelada, André não tem outra escolha e vende o fato, deixando os tempos gloriosos de herói para trás.

Ser diretor-geral da ESCS FM tem os seus desafios, mas André consegue sempre levar os quase centena e meia de membros a bom porto. (MAGDA CRUZ/OITAVA COLINA)

“A casa que os Maias vieram habitar em Lisboa”

André é o mais velho de três irmãos e muita responsabilidade recai sobre ele. Conciliar todos os projetos torna-se, por vezes, difícil, mas, como sabe que o que faz é pelos pais e pelos irmãos mais novos, a vontade de fazer mais e melhor não desvanece.

Para além de gostar de aprender, ensinar também é uma paixão. Por isso, começou a dar explicações para ajudar a família. Nem aqui para de tentar inovar. Ao tentar ser um melhor professor, está também honrar os pais, ambos professores. Nas explicações, tenta que quem entra saia a gostar mais do que está a estudar. Através de métodos por vezes pouco ortodoxos, mas criativos, André conseguiu melhorar os resultados das crianças e ensinar coisas que só lhe ensinaram quando entrou no ensino superior: “Não é difícil ensinar uma criança a não separar o sujeito e o predicado com uma vírgula ou a pôr os acentos nos sítios certos.”

Este é o último dos três anos de licenciatura do André em Jornalismo. (MAGDA CRUZ/OITAVA COLINA)

Foi assim que aconteceu

Fora a magia, comer e dormir, ver filmes e séries são algumas das coisas que gosta de fazer. “Sou um super-herói normal. Jogo futebol às quintas, faço magia, jogo playstation (terapeuticamente). Gosto de fazer as pessoas rir, trabalhar sob pressão e falar, contar histórias.” Quando André diz as palavras “Uma vez…”, estamos prestes a ouvir uma história – e costumam ser muito boas.

A vida de André Maia podia dar uma série. Muitas das coisas que faz, de tão criativas que são, bem podiam estar dentro de uma televisão. Para ele, o Star Wars é uma metáfora para a vida, e “Do or do not, there is no try” é o lema com que vive. André tem a coragem de um Luke Skywalker e tenta sempre praticar o bem; é divertido, preocupado e simpático como um Marshall Eriksen e romântico como um Ted Mosby, procurando o destino em todas as coisas.

O destino que vê, quando terminar a licenciatura, é trabalhar num órgão de comunicação social como jornalista, mas os horizontes estão sempre abertos. E “foi assim que aconteceu”: daqui a algum tempo, será feliz a ser jornalista, apesar de não saber a que horas vai chegar a casa nos próximos anos. Se não for para jornalista, abraçará uma área criativa, como Publicidade e Marketing, já que herdou o “jeitinho” do avô, que é pintor.

Dia 22 de maio, André apaga 42 velas: 21 por ele e as outras 21 pela EXPO 98. (MAGDA CRUZ/OITAVA COLINA)

As ideias que tem, realiza-as, mas a mais maluca seria voltar a comprar o fato de Homem-Aranha e voltar a fazer as pessoas felizes. O projeto mais maluco que já pensou concretizar seria ter um programa apresentado por ele próprio, com o objetivo de dar voz a pessoas que querem falar sobre a doença que tiveram. Passando o blog que tem, o “Capitão Fantástico”, para um formato de vídeo, a curto prazo este seria um programa de entrevistas, a longo prazo seria uma plataforma de solidariedade. “Tornava-se terapêutico para as pessoas que são entrevistadas, e as outras seriam sensibilizadas.”

Contudo, uma frase fica no ar: “Os mestres são mestres porque falharam na vida.” E o André Maia não tem medo de falhar na vida, meninos.

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