Andreia Galvão: “Sem justiça climática não existem outras lutas”

Andreia Galvão tem 19 anos e está no primeiro ano do curso de Ciências da Comunicação da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Ligada ao ativismo em várias áreas, nem sempre sentiu que devia ser apelidada de “ativista”, mas com o passar do tempo a causa passou a fazer parte do seu dia-a-dia, e hoje considera o ativismo “um estilo de vida”. “Sem justiça climática não existem outras lutas, porque todas se interrelacionam”, afirma.

            Atualmente luta pela justiça climática no núcleo regional de Lisboa do movimento Greve Climática Estudantil em Portugal (GCE), ligado aos movimentos internacionais #SchoolStrike4Climate e #FridaysForFriday. É coordenadora da equipa de comunicação, mas acumula muitas mais tarefas na organização do movimento, consoante seja necessário.

            O primeiro contacto que teve com a causa foi através de Matilde Alvim, estudante e ativista na Greve Climática Estudantil, que lançou o movimento em Portugal. No 12.º ano participaram no mesmo projeto, o Euroscola, que acabou por lhes dar a oportunidade de viajar até ao Parlamento Europeu. O projeto envolvia várias escolas e os seus caminhos cruzaram-se na sessão final, na Assembleia da República. “A Matilde contou-me que havia uma rapariga chamada Greta que tinha começado um movimento pela luta ambiental e que o deveríamos trazer para Portugal. Na altura não sabia quem ela era”, conta.

Foto: LUSA

De um grupo de chat do Whatsapp com apenas cinco pessoas nasceu, no dia 15 de março de 2019, a primeira Greve Climática Estudantil em Portugal: saíram à rua mais de 20 mil pessoas, em 27 manifestações de norte a sul do país, incluindo ilhas. Era importante para os jovens ativistas que este movimento não fosse algo exclusivo de Lisboa e Porto.

            Andreia encara as quatro manifestações do ano de 2019 como um meio de fazer pressão política e de levar as questões ambientais ao debate público. Caso contrário, estas não estariam tão presentes na atualidade mediática. O movimento tem tido impacto no surgimento de novos movimentos climáticos, embora Andreia reconheça que já existia um trabalho prévio de outros movimentos – para além da GCE – na maneira como o público recebe certas notícias e perceciona certas ações governamentais. “Creio que isso torna as pessoas mais conscientes e fá-las acordar”, acrescenta a ativista.

            Andreia pede respostas governamentais. Acredita na mudança e na possibilidade de o governo vir a cumprir as promessas de aprovação de medidas de combate às alterações climáticas, como, por exemplo, o esperado encerramento das Centrais Termoelétricas de Sines e do Pego e a realização dos consequentes planos para uma transição energética justa, mas não por uma questão ambiental. “O sistema não coloca a sustentabilidade e a justiça social em primeiro plano, mas sim o lucro.” Segundo Andreia, “um movimento por justiça climática não pode nunca deixar de ser um movimento por justiça social.” Tem de ser entendido como um todo, e daí nasce a necessidade que o movimento sente de direcionar a ação governamental para questões não só ambientais como também sociais – entre outras, o combate à desigualdade social e à desigualdade de redistribuição de riquezas: “Enquanto ativistas climáticos, percebemos que este sistema é incompatível com aquilo que nós queremos.”

Manifestação durante a chegada de Greta Thunberg a Portugal. 3 de dezembro de 2019 - João Pedro Morais/8ª Colina

A ativista demonstra o seu desagrado pelo programa governamental que se compromete a resolver a emergência climática enquanto constrói o novo aeroporto no Montijo, apesar das muitas críticas por parte dos ambientalistas.

Com o novo ano começa uma década decisiva para o panorama climático mundial: “Temos 10 anos (para reverter o aquecimento global) e o tempo urge”. É com grande entusiasmo que Andreia se refere a 2020 como a “época de ouro do ativismo” – que será marcada por ondas de ação da campanha internacional By 2020 We Rise Up. A nível nacional, Andreia espera que se siga a mesma linha de apelo a uma rebeldia “com causa e consciente”, que guiou as greves e manifestações anteriores. Em paralelo com estas, continuará a ser feita uma aposta no protesto e na mobilização através de outras atividades de divulgação e de consciencialização. “As manifestações nunca podem ser vistas como atos isolados. É tão importante estar na rua como perceber o porquê de estarmos lá.” A ativista realça a importância da realização de palestras e de atividades artísticas como o “Artivismo” (iniciativa proposta nas redes sociais da GCE) e o “CineClima” (sessões de cinema gratuitas sobre clima e direitos humanos).

João Pedro Morais/8ª Colina

“Este é um momento de escalada. O objetivo de todas as nossas ações é serem mais. Tivemos uma primeira greve, uma segunda greve geral com o apoio de sindicatos, e uma greve [a 29 de novembro] que se internacionalizou com a nossa participação na COP25 e com a vinda da Greta Thunberg a Portugal no dia 3 de dezembro. Quanto à participação da GCE na contracimeira – um protesto que reuniu vários movimentos ambientalistas internacionais em Madrid durante o decorrer da COP25 –, a ativista encara-a como um “momento estratégico” em que se percebe que os ativistas estão cientes da situação em causa e que não aceitam mensagens de greenwashing e de falso ambientalismo por parte das representações governamentais.

A primeira manifestação geral deste ano e a 5.ª greve pelo clima, que está agendada para o próximo dia 13 de março, contará com o apoio de sindicatos. “Há sempre a preocupação de que não seja só mais uma manifestação que gera curiosidade. O que trazemos de diferente das manifestações anteriores é toda a ênfase cultural que lhe queremos dar. Com a criação de um manifesto cultural e um grupo dentro da greve, pretendemos criar uma aliança para dar visibilidade a toda a precariedade que existe por esse mundo e usar a cultura como instrumento de transformação da sociedade.”

Texto: Inês Malhado

Fotografias: João Pedro Morais/8ª Colina e LUSA

Gostaste deste artigo? Partilha-o!

Scroll to Top