António Macedo: “Os meus melhores quadros são aqueles que ainda não fiz”

A pintura fez parte da vida de António desde jovem. Agora, com 64 anos, relembra que o interesse por arte começa pelos 13 anos. Aos 19, enquanto estuda na Faculdade de Belas Artes no Porto, percebe que não conseguiria aprender o bastante sobre o que mais lhe interessava, a arte figurativa. À altura, diz que se sentia como “São João Batista a pregar no deserto”.

Em 1975, muda-se para Londres, procura “tentar a sorte por lá, construir um percurso”. Nem sempre viveu da sua própria produção artística. Durante os primeiros tempos trabalhou numa casa de molduras, até enveredar pelo restauro de pintura. “Tudo ligado à arte. Nunca fiz outra coisa na vida. Tudo o que me permitisse estar o mais próximo possível da pintura”, conta António Macedo.

            Encontrou o conhecimento artístico em temas a que “não teria tido acesso” em Portugal. Mas não o obteve em escolas de arte. Devido ao restauro, convivia diariamente com obras de artistas de renome, e começou a aprender técnicas de pintura a óleo. Visitava com frequência coleções de arte, como a National Gallery ou a Tate Gallery, onde se deixava inspirar por Sandro Botticelli e Rembrandt. O pintor conta que foi inspirado por grandes artistas, de forma solitária, nas visitas aos museus.  Começou “a aprender, a imitar a tentar, a descobrir, a desenvolver”.

O Modelo, António Macedo

Apesar de o seu interesse se focar na pintura figurativa, durante a sua carreira teve tempo para explorar várias vertentes e conhecer diversos estilos. Desde o surrealismo de Salvador Dalí – com o qual admite identificar-se, sobretudo, com a realidade presente mesmo em cenários insólitos – ao expressionismo abstrato, de Mark Rothko. A apreciação de novos estilos surge com a “abertura de novos horizontes” que surge como consequência “de uma certa maturidade que se adquire no decorrer da vida”. 

Nas suas pinceladas procura imitar e evocar formas realistas, mesmo quando está a retratar o imaginário na sua arte. São visíveis traços cuidados que dão às figuras os pormenores necessários para que sejam quase como um espelho do real, passíveis de serem confundidas com fotografias.

 

Adios, António Macedo

Com o passar do tempo, o artista reaproximou-se de Portugal. As visitas que antes aconteciam duas vezes por ano passaram a ser mais frequentes. Começou a fazer mais exposições e retratos na terra-mãe. Os períodos que passava fora de Inglaterra começaram a ser progressivamente mais longos. Por fim, decide voltar a fazer a sua base cá e fixar-se definitivamente em Portugal, há cerca de 20 anos.

Confessa que não é fácil viver da arte neste país: mesmo quando era “novito”, era pouca a pintura vendida. Todos os que pretendiam viver da produção artística tinham de ingressar nas Belas Artes no liceu, o que nem sempre era uma garantia de futuro.

Conta que, durante os anos 80, uma elite social começou a utilizar a compra de arte como investimento, o que motivou um “boom” na aquisição de obras. Nesta altura, as casas encheram-se de quadros e foram criadas galerias de arte particulares. Mas tal não significava que existisse “amor pela arte”, segundo o pintor.

“Compravam tudo, desde que fosse tinta em cima de tela, sem critério, e apenas com o objetivo do lucro, porque lhes era garantido que, ao final de um ano, o quadro valeria mais dez pontos percentuais. Era apenas uma maneira de empatar dinheiro.” Os compradores, quando viram que não tinham retorno, “começaram a investir em outras coisas e a arte vai pelo caminho em que sempre esteve neste país”.

Carnaval em Olinda, António Macedo

No decorrer dos anos, certas mudanças proporcionaram que a arte não ficasse tão “abandonada”, como a entrada na União Europeia. A internacionalização da cultura permitiu o surgimento de esperança numa sociedade moderna, descreve o pintor. Museus como a Fundação Serralves sentiram, de certa forma, a internacionalização. Os patrocínios na arte aumentaram através dos fundos europeus. Os curadores passaram a estar também fora do país. Portugal passou a estar integrado em circuitos de arte oficiais. Acredita que “as pessoas não consomem mais arte, mas a arte como entretenimento, como parte da vida moderna, contou com a adesão da sociedade portuguesa” – quase como uma europeização da cultura.

A crise por que Portugal passou entre 2008 e 2011 causou a destruição de parte do mercado de arte. “A arte é uma coisa que as pessoas compram quando têm meios para isso e quando estão otimistas quanto ao futuro”, esclarece o pintor. Diz-se privilegiado por fazer retratos: nota que “desde a crise, os meus colegas têm dificuldade de sobreviver como artistas”. Macedo pensa que o surto da covid-19 trará de volta uma crise profunda para os artistas. 

Passa-se, António Macedo

“Eu, por acaso, acho que, para ser artista, uma pessoa tem de ser muito obcecada por fazer a arte”, confessa o pintor. Macedo admite que, se for pensar com cautela no que é a vida de um artista, ela “é uma coisa um bocadinho para doidos”. Apesar de ter construído toda a sua vida através da pintura e de este ser o seu sonho desde criança, não aconselha ninguém a meter-se nisto.

Durante o período de confinamento, vê a sua produção acontecer num ritmo ainda mais acelerado. “Tenho o ateliê em casa, tenho o meu jardim, tenho os meus cães. Então não faço outra coisa senão pintar. Trabalhar todos os dias menos ao domingo. Não tenho vendido, mas tenho trabalhado imenso. Um dia pode ser que as coisas se possam vender.”

Comenta que, entre os artistas que são seus conhecidos, o processo é o mesmo. Por norma, diz Macedo, “os artistas já têm um estilo de vida muito isolado. São as pessoas mais autossuficientes nestas alturas.” O isolamento, que os afeta apenas na capacidade de venda, confere ao artista uma “posição invejável”: permite que continuem a fazer aquilo de que gostam, ainda mais focados.

 

António Macedo, por Elisabete Teixeira, para a revista "Sem equívocos"

Decidiu não utilizar o momento que vivemos atualmente como inspiração, vendo-o como finito – apesar de acreditar que alguns artistas o usam na sua arte. “A minha arte continua a ser a mesma”, garante. 

            Com o isolamento trazido pela pandemia, algumas das suas futuras exposições acabaram por ser impedidas, mas mantém-se otimista: “Temos de acreditar que, em breve, vai aliviar um bocadinho. As exposições foram desconvocadas, mas, daqui a uns meses, convocam-se novamente, com certeza.”

Nos seus 50 anos de carreira, já pintou todos os tipos de representações: mortes, paisagens, retratos, nus, figuras, animais. Apesar de ter um carinho especial por alguns dos seus quadros, acredita que o “dizer-lhe mais” ou a “ligação emocional” não os tornam nos seus melhores quadros: “se eu olhar para trás, há quadros que me marcaram muito há 20 anos e, se calhar, hoje já não me dizem muito”. Vê a importância em ultrapassar antigas produções artísticas, andar para a frente: citando Pablo Picasso, “quando chegar a inspiração, espero que me encontre a trabalhar”. Mantém-se apaixonado pela pintura, pelo descobrir o que é que vai fazer a seguir: “Os meus melhores quadros, aqueles de que eu gosto mais, são aqueles que ainda não fiz.” 



Artigo escrito por: Mariana Serrano

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