Ao serviço do barulho

Noiserv é o nome artístico de David Santos, uma brincadeira com a palavra “version”.
(David Mateus)

Desde a sua participação no festival Termómetro até ao disco que se avizinha, David Santos partilhou de tudo um pouco sobre a sua vida de músico connosco. Fique a conhecer ainda melhor o homem por trás de um dos mais criativos e estimulantes projetos musicais do país.

Origens, reconhecimento e concretizações

Decerto que já te pediram muitas vezes que falasses acerca do significado do nome do teu projeto a solo – Noiserv. Se eu trocar a letra “e” com o “r” e colocar a palavra ao contrário, leio “Version”, certo? Contudo, a minha questão é outra: porquê “Version”?

Sim, é uma brincadeira com version. No princípio, o primeiro nome até foi Noiserv 0.0, porque era a versão 0 de uma cena qualquer que depois podia ou não surgir. Tinha até uma série de outros nomes, mas quando virei esse ao contrário, e como na altura era só voz e guitarra, achei piada à cena do noise, ao serviço do barulho. Depois lembro-me de ir à net ver que era uma palavra que não existia, e isso tudo fez sentido na altura para concorrer ao Termómetro. Depois foi ficando. Mas a ideia base é essa: trocas o “e” com o “r” e lês ao contrário.

 

Foi um grande desafio escrever o tema “Palco do Tempo”, pertencente à banda sonora do filme “José e Pilar”, por ser o primeiro tema em português?

Vejo todas as novas músicas que tenho de fazer um bocado como um desafio. Tenho sempre medo de fazer pior do que aquilo que já fiz, embora ache que está melhor ou que está igualmente bom. Lido dificilmente com o fazer coisas novas porque tenho sempre medo de que a partir de um momento as pessoas deixem de gostar daquilo que fiz. No caso dessa música, havia esse desafio acrescido de ser em português, coisa que nunca tinha feito. Como o convite era só para uma música, tinha essa vantagem de poder experimentar, não num disco, mas numa música só.

 

Sentes muita diferença entre escrever em inglês e escrever em português?

Vindo eu de um historial primeiramente inglês, claro que quando comecei a tentar escrever em português foi mais difícil. Hoje em dia, sinto que é praticamente igual. Nunca consegui que aquela ideia de fazer uma música em inglês e passar a letra para português funcionasse bem, e o contrário também não.O português não é mais fácil ou mais difícil, mas parece que uma frase em inglês mais facilmente soa bem do que uma em português, não pela métrica, mas pelas palavras. Em português parece que é mais difícil a frase fazer sentido e gostares das palavras que estás a usar. Depois, à medida que vais fazendo cada vez mais músicas, vais conhecendo melhor essa métrica e, portanto, já sabes as palavras que tens de usar ou não. Eventualmente demoro mais tempo, não a criar a ideia da música, mas a escolher a palavra certa para aquele bocadinho.

 

Como é que foi colaborar com a RTP1, em conjunto com a Fernanda Fragateiro, para os seus mais recentes separadores?

Sempre me foram dizendo e sempre me fui apercebendo de que a minha música funcionava bem como banda sonora para filmes, curtas, em publicidade, numa série de coisas. Tenho tido a sorte de ter vários desafios, que são sempre um bocadinho diferentes do que fiz antes e que me põem sempre um bocado à prova. Neste caso, tinha o grande desafio de, em três segundos, a música dizer o que quer que seja e não ser apenas um barulho. Houve primeiro esse entusiasmo de fazer uma coisa que ficasse a marcar a RTP durante um ano. Depois, a dificuldade grande de fazer com que aqueles poucos segundos valessem alguma coisa fez com que demorasse mais tempo a fazer aqueles três segundos do que a fazer algumas coisas de dez minutos, porque havia essa preocupação de “ter um início, um meio e um fim em três segundos”, o que é complicado.

“Conseguir viver da música que faço é o ponto-chave para ser o suficiente e para querer fazer sempre melhor”. (David Mateus)

Sentes que as pessoas passaram a reconhecer-te mais por isso?

Acho que não. Houve várias pessoas que se foram apercebendo e que me deram os parabéns, mas não sinto que tenha havido um boom mediático. Até foi mais ou menos fixe porque foi numa altura em que não tinha nenhum disco novo, portanto havia uma espécie de presença constante sem eu ter músicas novas. No que diz respeito às redes sociais, sinto que o número está sempre a aumentar. Claro que, quando há um lançamento grande, não como o da minha colaboração com a RTP, mas de um disco meu, parece que sobe um bocadinho mais. O facto de ir sempre aumentando parece querer dizer que há sempre pessoas novas que me vão conhecendo, e acredito que algumas delas tenham vindo através do que fiz para a RTP.

 

Partilhaste recentemente nas tuas redes sociais o teu enorme sucesso no Spotify, com quase 60 mil horas de transmissão no total, em 64 países, só em 2018. Mesmo assim, gostavas de ter mais reconhecimento?

Quem faz as músicas quer sempre que um dia todas as pessoas que existem no mundo as possam ter ouvido. Mas a pessoa não tem de viver refém da ideia de que o que tem não é suficiente. Há sempre o objetivo de que mais pessoas possam conhecer o que faço, não para ficar mais famoso, mas para que a mensagem que é transmitida nas músicas faça mais sentido para mais pessoas. Fico muito contente por saber que muitas pessoas ouvem, mas depois não penso mais nisso. Podes conseguir fazer com que as pessoas gostem cada vez mais das músicas, mas a cada novo disco parece que voltas ao princípio. Há quem diga “depois dás um salto na carreira a partir daí”, mas eu acho que isso não existe, porque a pessoa é sempre a mesma e os medos que tem de fazer mal existem até ao fim da vida. 

 

Sentes que te dão o devido reconhecimento em Portugal?

Acho que sim. Podia ter sempre mais ou podia ter eventualmente menos. Ao princípio, quando comecei a fazer os discos no computador e a vender um ou dois nos concertos, gostava de que isto viesse a chegar ao ponto a que chegou nos dias de hoje, mas acreditava que fosse praticamente impossível. Claro que podes ter sempre mais reconhecimento. E sinto que há muitas pessoas que não me conhecem, mas o facto de conseguir viver da música que faço é o ponto-chave para ser o suficiente e para querer fazer sempre melhor.

“00:00:00:00”, o seu último disco até agora, é descrito pelo músico lisboeta como “a banda sonora para um filme que ainda não existe, mas que talvez um dia venha a existir”. (David Mateus)

Inspirações e poucos portugueses na pauta

Sei que és um grande fã de bandas sonoras. Qual é a tua favorita, de todos os tempos?

Acho que há muitas bandas sonoras boas, mas gosto muito da do filme “Amélie”, não só pela banda sonora, mas por o próprio filme dar uma atenção muito grande aos pormenores. Isto acaba por se relacionar um bocado com a minha música e com aquela ideia de que pequenas melodias todas juntas fazem uma melodia mais complexa.

 

Inspiras-te muito no Yann Tiersen?

Não é uma questão de me inspirar. Nunca considerei uma inspiração para depois fazer parecido. Há claramente coisas que ouço muitas vezes, como os Radiohead e o Yann Tiersen. Se ouvir ago muitas vezes, isso faz com que depois essa coisa me inspire de alguma forma, acredito que sim. Para gostar do que ouço tem de haver ali alguma ligação, mas nunca tenho a ideia de imitar. Isso até tento evitar, porque, se já fizeram uma coisa, porque é que eu a vou voltar a fazer?

 

O que sentes ao tocar com os You Can’t Win Charlie Brown assemelha-se de algum modo ao sentimento de tocar como Noiserv?

É parecido porque é um concerto ao vivo, mas é totalmente diferente no stress que tenho antes de tocar. O facto de a responsabilidade ser muito mais tua quando estás sozinho e muito mais partilhada quando estás com os outros muda todo o contexto do antes e do depois do concerto. O depois, quando corre bem, é fixe nas duas situações. Em grupo, se tudo correr mal ou se alguém se enganar, os outros conseguem camuflar. Até costumo dizer que são duas experiências boas para um músico – a de tocar sozinho dá-te certas coisas e a de tocar com amigos traz outras. E é bom ter as duas.

 

Consideras que os portugueses desvalorizam a música portuguesa?

Portugal, sendo um país pequeno, tem poucas pessoas e, consequentemente, tem menos pessoas com potencial para poderem gostar de algo. Isso não quer dizer que as pessoas sejam menos ou mais interessadas, são é poucas pessoas. Comparando com outros países, Portugal pode ter menos interesse na cultura. Por exemplo, está muito enraizada esta ideia de que os concertos são às quintas, sextas e sábados, mas a uma segunda ou a uma terça é impensável. Em França tu tocas a qualquer dia da semana e os concertos até são um bocadinho mais cedo, às vezes são às seis ou às sete da tarde à segunda-feira. Em Portugal isso não existe; não há uma rotina de ir a peças de teatro, de ir a concertos em dias que não sejam estes dias de quase fim de semana. Isso ao longo dos anos pode criar menos hipóteses de as bandas se mostrarem, e se calhar esse interesse por parte das pessoas não acontece tanto porque não há tanta oferta. Felizmente, acho que está a haver claramente um boom de projetos em todo o lado. Se há público suficiente para essas bandas todas? Se calhar não. Não há assim tantas cidades e, se as bandas que existem quiserem tocar todos os fins de semana sempre num sítio diferente, as possibilidades esgotam-se muito rápido se não tiverem mais salas e se não puderem tocar à segunda.

David Santos nasceu a 7 de abril de 1982, em Lisboa, e estudou Engenharia no Instituto Superior Técnico. (David Mateus)

Curiosidades barulhentas

Como é que funciona o teu processo de composição?

Não é sempre igual, embora haja um fio condutor entre todos os processos. Há uma fase meio complicada de explicar, que é quando percebes se uma música vai ser fixe ou não, ou quando é que um bocadinho que tu fizeste pode originar uma música. O tempo que demoro a chegar a esse “clique” tanto pode ser uma semana como pode ser um minuto. E todas as músicas têm de surgir desse impulso pequenino. A partir daí depende um bocadinho da situação. Às vezes, se comecei a compor na guitarra, faz sentido continuar a fazer a estrutura toda na guitarra. Outras vezes não: faz sentido começar a meter outros instrumentos por cima daquela base de guitarra. É complicado de explicar.

 

Como é que gostavas que as pessoas ouvissem a tua música? Com que estado de espírito, em que situações?

Nisso eu não sou muito esquisito. Apenas quero que, no estado de espírito em que estejam, a minha música faça sentido, ou de alguma forma ajude. Não no sentido de pôr bem alguém que está mal, mas no de ser um bom complemento, ao fazer uma boa banda sonora para aquele momento. De resto, cada um tem o direito de escolher onde e como a quer ouvir.

 

O que é que te dá mais gozo ao tocar para uma plateia?

Acho que o que dá mais gozo é primeiro eu conseguir tocar bem as músicas e perceber que não me enganei, e depois sentir que as pessoas gostaram. Não é preciso uma ovação em pé no fim, mas quando vêm ter comigo a dizer que gostaram, e que sentiram que aquele momento foi importante porque as fez sentir alguma coisa, é quando tudo faz sentido. Fará sempre sentido, mas ainda faz mais quando a emoção que pões numa coisa é transmitida às pessoas. O melhor é quando vejo que elas gostaram daquilo, mas tendo eu gostado também.

 

Sem ser em cima dos palcos, quais foram as melhores experiências que já tiveste enquanto projeto a solo?

De todas as experiências – música para separadores, peças de teatro, dança, bandas sonoras – não acho que haja uma melhor que todas as outras; acho que todos esses momentos de partilha são sempre coisas intensas e sempre coisas que é bom repetir. No caso do “José e Pilar”, uma vez que aquelas músicas ficam eternamente num filme que foi quase uma homenagem de final de vida ao Saramago, fiquei a perceber que essas músicas ficam um bocado mais com os outros.

 

Quem te conhece sabe que és uma pessoa muito viajada. Já tocaste em inúmeros países, como a França, os Estados Unidos e a Suíça. Sentes muita diferença entre plateias portuguesas e estrangeiras?

Eu acho que há uma diferença logo imediata: sendo muito mais conhecido em Portugal, as pessoas reconhecem-me muito mais num concerto. As 300 ou 400 pessoas que vão a um concerto meu em Portugal vão porque querem ouvir as minhas músicas. Das 200 que estão em França, se calhar 20% já me conhece e o resto não. Por outro lado, pelo facto de tocar fora e não ser tão conhecido, é quase como se voltasse ao princípio, em que consegues surpreender as pessoas pela primeira vez. Tirando esse apontamento, as pessoas são pessoas em todo o lado. Há aquela ideia de os alemães serem mais frios e nunca senti muito isso. Há sítios de concerto diferentes e há dias em que todas as experiências das pessoas que lá estão tornam o concerto de repente mais especial que os outros, mas não é porque as pessoas são diferentes. É porque o que envolveu aquele concerto foi diferente. Nas condições ideais, todas as pessoas que gostarem irão gostar, independentemente do país. É isso que tenho sentido.

“A música não é mais perfeita por não ter erros, a música é mais perfeita por ser bem cantada”. (David Mateus)

Os teus primeiros concertos como Noiserv aconteceram em 2005. Passados quase 15 anos, sentes que algo mudou?

Mudou no sentido em que acho que estou a tocar melhor do que tocava há 15 anos. Os últimos dez anos já têm sido numa nova etapa, em que estou nervoso, mas não descontroladamente, enquanto antes o nervosismo descontrolava-me. O concerto, em vez de ter uma hora, parecia durar cinco minutos, e nem tinha bem noção de como tinha tocado. Há concertos que correm melhor e outros pior, mas agora consigo ter uma perceção do concerto enquanto ele está a acontecer. Uma coisa de que me fui apercebendo é de que tens de ter tudo ensaiado ao ponto de não faltar ao respeito às pessoas quando estás a falhar. O errar muitas vezes pode ser mau. De vez em quando todas as pessoas percebem, porque qualquer pessoa erra a fazer o que quer que seja. E a música não é mais perfeita por não ter erros, a música é mais perfeita por ser bem cantada, por emotivamente tu estares naquele sítio a fazer aquilo. Uma das aprendizagens que fui tendo é a de valorizar o erro certo, que não é eventualmente falhar uma tecla. É o não estar ali e não estar com vontade de fazer. Esse é o erro mau.

 

Que conselhos podes dar a quem se quer iniciar no mundo da música?

Não podes pôr tudo em causa ao primeiro falhanço, uma vez que há muita oferta e é muito difícil chegar às pessoas se não és nada conhecido. É preciso teres uma grande força de vontade para conseguires que as pessoas conheçam o que fazes e não podes ligar às pequenas falhas do princípio. O segundo conselho é ter um conjunto de músicas que funcionam bem juntas, gravadas. Porque, ao fazeres um concerto, se alguém gostar, faz sentido que essa pessoa tenha uma forma de conseguir replicar um bocadinho do que ouviu ali. Isso é que faz com que aquela música não seja só aquele momento. Há muito a ideia, parecida com o sonho americano, de que basta lançar as músicas e as pessoas vão de repente conhecer-te, mas não é bem assim. Mesmo ao fim de tantos anos, as coisas continuam difíceis. Há sempre o medo de que as pessoas deixem de gostar, e há muitas que não gostam. É todo um jogo que não podes questionar tanto.

Podemos esperar um novo disco de Noiserv já no final deste ano. (David Mateus)

O que é que vem na tua agenda de concertos e projetos futuros? Vem aí novo disco?

É isso que estou a tentar fazer agora, mas é uma coisa que eu demoro quase sempre muito tempo a fazer porque perco muito tempo nos pormenores. O disco sairá este ano, mas não faço ideia ainda de prazos. Como tenho sempre medo de que o próximo disco seja mau, só consigo oficializar uma data quando ele está praticamente todo feito. Eu tenho de ter a certeza de que vou gostar daquilo que irá sair, eventualmente, em setembro ou outubro. Tenho de ter este delay, que muitas vezes não é comercialmente fixe, mas só assim consigo medir as coisas. E, em termos de concertos, tudo o que tenho agendado por enquanto são situações muito pontuais justamente porque o último disco é de 2016 e já o toquei um bocadinho em quase todo o lado. Agora preciso de me focar no disco novo, para ver se faço alguma coisa de jeito.

Noiserv – “VINTE E TRÊS” | 00:00:00:00 [2016]

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