Aparelhagem: “A mentalidade não acompanhou a revolução."

O tumulto que se sentiu em Lisboa alastrou-se lentamente pelo país. A informação e os meios de comunicação não eram tão rápidos. No nordeste transmontano, Ermelinda Terceiro sente, aos quinze, os sons a chegar, na década de oitenta, com o retorno dos emigrantes.

    As pessoas “não entendiam que poderia haver outra coisa” para além do regime, perpetuando a  crença de que se vivia bem. Trabalhavam no campo, ainda sem salário fixo e com poucas posses. Longe das cidades, “Nunca entenderam muito bem o que é que foi o 25 de abril e até achavam que as coisas como estavam não estavam assim tão más.”

      Os prédios eram antigos naquela zona. A pouca modernidade que existia foi trazida por um político salazarista: “O ministro, sendo lá da terra, canalizou recursos. À altura havia poucas infraestruturas pelo país, mas lá na aldeia já havia uma ponte.” Estes pequenos feitos, faziam com que as pessoas se sentissem ajudadas, mesmo que existisse uma censura implícita. “Havia muita pobreza, havia muitos órfãos e foi uma pessoa a quem as pessoas da aldeia deviam muito. A minha visão dessa fase é um pouco peculiar.”  Na aldeia dificilmente tinham acesso a algo para além da quarta classe, dificultando que pensassem por si. Raramente alguém tirava uma licenciatura, só famílias com recursos, e isso também limitava: “As pessoas vinham e agiam consoante aquilo que os seus pais já tinham feito e era assim. Um ciclo.”

Procissão em Fátima

   

​      Da infância, recorda-se da escola primária. A natalidade leva a que se lembre de uma sala repleta de alunos. “A minha professora da terceira e quarta classe que foi professora dos meus pais, vinha ainda do regime. Era muito rígida, ainda batia dos alunos. Tínhamos receio e, por isso, portávamos-nos bem, mesmo sendo muitos.” A Igreja permanecia ligada à educação, eram quase obrigados a fazer parte das celebrações religiosas assiduamente: “O Padre ia lá à escola verificar quem é que não foi à missa e dava assim um carolo na cabeça dos miúdos que não iam.” Na aldeia andava sempre à vontade e brincávamos muito. Os ecos políticos não chegavam. “O 25 de abril foi muito importante, Portugal ganhou culturalmente com a revolução. Mas a mentalidade não acompanhou a revolução.”

Fotografias de retornados a chegar a Portugal depois do 25 de abril ( retiradas de Guerra Colonial "Guerra Colonial", de Carlos de Matos Gomes)

      Muitos foram os que procuraram um nível de vida superior em cidades, dentro e fora do país, durante os tempos da ditadura. Na década de oitenta, começam a regressar: “Muitos retornados regressaram à minha terra, obrigados a recomeçar sem nada daquilo que tinham lá em África.” Famílias completas voltavam com o trabalho de anos perdido, mas com algo diferente.

     Na adolescência, a Ermelinda começou a ter mais contacto com o que se passava lá fora. “Os filhos dos retornados eram muito mais avançados. Mais abertos do que aqueles que cresceram na aldeia. Eles dançavam e cantavam muito. E nós íamos atrás para casa deles.” Traziam ritmos africanos, roupas com padrões tribais e tons fortes. “Depois começámos a ouvir o Rock. Um primo, retornado, ouvia Heavy Metal e tinha uma daquelas aparelhagens, vestia-se todo de preto. Gostava muito de Pink Floyd, AC/DC. Foi uma fase assim engraçada.”

      A aldeia passou a ter uma nova dinâmica. Soltou-se do “ar salazarento de sempre”. O retorno dos que haviam procurado algo melhor trouxe uma nova forma de pensar. A abertura das janelas da liberdade.

Artigo escrito por Mariana Serrano.

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