As eleições nos EUA

Joe Biden foi eleito Presidente dos Estados Unidos da América. Os quatro longos anos de Donald Trump chegam ao fim nas eleições com mais participadas de sempre. Kamala Harris torna-se a primeira mulher a assumir o cargo de Vice-Presidente.

O candidato democrata e o candidato republicano

As eleições norte-americanas começaram com as primárias democratas. Joe Biden acabou por ser o escolhido para unir os Estados Unidos: derrotou Bernie Sanders, Elizabeth Warren, Pete Buttigieg e Michael Bloomberg, que cedo desistiram da corrida para unir esforços contra Donald Trump. O democrata veterano de 78 anos nasceu na Pensilvânia e acumulou um longo percurso político: cumpriu seis mandatos enquanto senador do Delaware entre 1973 e 2009 e foi o Vice-Presidente dos Estados Unidos da América durante a administração de Obama.

Joe Biden utilizou a vasta experiência governativa como trunfo para a campanha, uma vez que ocupou cargos públicos durante quase 50 anos. Procurou afirmar-se enquanto moderado com mão firme e experiente num mundo incerto e perigoso.

Joe Biden escolheu Kamala Harris para vice-presidente. Com 56 anos, mulher, de origem asiática e negra, a senadora da Califórnia, onde foi Procuradora-Geral, representou durante a campanha os direitos civis, o multiculturalismo e a luta contra o racismo, em plano destaque após as várias vítimas mortais negras às mãos da polícia nos últimos anos.

Trump recusou-se a usar e a recomendar a utilização de máscara. Desvalorizou a pandemia e chamou-lhe “vírus da China”. Contrariou as orientações das autoridades de saúde. Apareceu regularmente em público sem máscara e gozou com Joe Biden por tomar precauções na sua campanha eleitoral. O mote de 2016 de devolver a “grandeza” aos EUA, a reversão do programa político do seu antecessor na Casa Branca, o protecionismo da economia e o isolacionismo na política externa mantiveram-se como os grandes pilares da sua candidatura.

Biden desde junho apelou à utilização de todas as medidas preventivas contra a propagação do vírus. Foi muito crítico da resposta do governo americano face à pandemia, e acusou o presidente de agir demasiado tarde.

Capitalizou na péssima gestão da pandemia por parte do governo americano. Até ao “election day“, a 3 de novembro, os EUA contabilizavam 9,368,025 casos e 225,036 mortes por covid-19. É o país do mundo com mais casos e mais mortes resultantes da pandemia.

Prometeu afastar-se do “America First” de Trump: afirmou publicamente a convicção na cooperação multilateral, e estabeleceu como uma das prioridades restaurar a credibilidade do país. Quer voltar a “bons termos” com a Organização Mundial da Saúde e curar a relação dos EUA com a ONU e com a NATO.

Donald Trump, Presidente dos EUA. EPA/MICHAEL REYNOLDS / POOL

Os debates

O primeiro debate entre os dois candidatos à Presidência dos EUA ficou marcado por ofensas e ameaças. A ideia era os eleitores ficarem a conhecer melhor os dois candidatos e decidirem em quem votar para a Casa Branca. Não cumpriu. Trump interrompeu Biden em quase todas as suas intervenções e Chris Wallace, jornalista da Fox News e moderador deste debate, não teve mão no Presidente. Sem qualquer tipo de verificação de factos no curso do debate, Trump teve caminho livre para mentir. Joe Biden, visivelmente exasperado, também recorreu aos ataques pessoais: “Will you shut up, man?”. Chegou também a dizer diretamente a Donald Trump que era o “pior presidente da história dos Estados Unidos da América”.

Trump recusou-se a condenar grupos extremistas supremacistas brancos. Dirigiu-se aos Proud Boys, grupo de extrema-direita fascista e que usa a violência para os seus fins políticos, dizendo para “aguardarem”, “(…) porque alguém tem de fazer algo contra a Antifa e contra a esquerda política”.

O segundo debate subiu um bocadinho o nível da discussão. Cada candidato teve dois minutos para usar da palavra e o microfone do outro interlocutor esteve desligado durante esse tempo. Discutiu-se o combate à covid-19, o racismo nos EUA, as alterações climáticas e a segurança nacional. As sondagens posteriores ao debate indicam que Joe Biden saiu vitorioso, mas a imagem de Donald Trump não saiu afetada.

A votação

As sondagens apontavam para o candidato democrata, tal como em 2016. Há quatro anos, escândalos como o Cambridge Analytica e as várias acusações a Donald Trump por assédio não interessaram muito para o resultado final: Trump foi Trump até chegar a Presidente. Conseguiu contradizer o padrão histórico eleitoral e sair vitorioso. Perdeu o voto popular por 3 milhões de votos, mas conseguiu recuperar alguns estados que tinham votado em Obama em 2012 e acabou por vencer o Colégio Eleitoral.

Já em 2020, a partir de setembro foi possível enviar o voto pelo correio. No total, 102 milhões de eleitores escolheram votar por correspondência, um número histórico para este método de votação, mas que se justifica com a pandemia. Sabia-se que estes votos iam na sua esmagadora maioria beneficiar Joe Biden, mas o caminho para chegar aos 270 grandes eleitores do Colégio Eleitoral antevia-se sinuoso.

Na famosa terça-feira de eleições, dia 3 de novembro, e num ambiente tumultuoso e de grande incerteza, milhões de eleitores votaram ordeiramente, apenas havendo registos de alguns atritos. Sabia-se que ia ser uma eleição muito disputada e que podia demorar vários dias até ser conhecido um vencedor. No dia seguinte, confirmava-se que esta tinha sido a eleição americana com mais votos de sempre, mas ainda não se podia concluir acerca do próximo Presidente dos Estados Unidos da América

A discussão estava acesa nos swing states, estados que alternam várias vezes o voto nos candidatos entre o Partido Republicano e o Partido Democrata. Estas eleições ficaram vários dias em suspenso para decidir Arizona, Flórida, Geórgia, Michigan, Wisconsin, Ohio, Minesota, Nevada, Carolina do Norte e a Pensilvânia.

Trump surpreendia ao vencer por uma grande vantagem na Flórida, onde apostou junto do eleitorado latino. Vencia também a Carolina do Norte e o Ohio.

Os votos continuaram a ser contados ao longo da semana: Trump liderava a maioria dos swing states com os votos de dia 3 de novembro mas ainda faltava contar os votos por correspondência.

Com a contagem dos votos, Joe Biden passou para a frente no Arizona, no Wisconsin, no Nevada e na Geórgia. Faltava a Pensilvânia para assegurar a vitória. Posteriormente, Trump anunciou que vai incorrer em vários processos judiciais contra estados onde acredita ter havido fraude na contagem de votos.

O resultado

A 7 de novembro, a agência Associated Press anuncia que Joe Biden derrotou Donald Trump e que é assim o 46º Presidente dos Estados Unidos. Biden afirma procurar “unir” um país tremendamente afetado pela pandemia e pelos seus impactos económicos e sociais. Chegou aos 270 votos necessários do Colégio Eleitoral na Pensilvânia, mas acabou por ficar com 306 votos nos resultados finais. 

No seu discurso de vitória, pediu uma “nação unida, fortalecida e curada”, citando ainda a célebre frase de Obama, “Yes we can“. Kamala Harris alertou para a proteção da democracia, que “nunca está garantida”.

Trump recusou-se a conceder a eleição e mantém os processos de contestação dos resultados, ainda que importantes membros do partido republicano já se tenham afastado desse investimento, sem hipóteses de sucesso nos tribunais dos estados que contesta e ainda menos no Supremo Tribunal. Apesar desta investida, a administração do governo americano deu “luz verde” à transição entre Presidentes, dando acesso à equipa de Biden aos documentos de governação.

 

O Partido Republicano dos EUA mantém a vantagem no Senado, bastando-lhe eleger mais um senador para garantir a continuação do domínio na câmara alta do Congresso. Os republicanos têm 50 lugares no senado, contra 48 dos democratas. É o estado da Georgia que vai decidir os dois últimos lugares do Senado.

Entretanto, Joe Biden tornou público o seu programa para combater a pandemia e anunciou algumas das equipas de trabalho que o vão ajudar no mandato. Destaque para a equipa de comunicação, inteiramente chefiada por mulheres.

Depois da eleição, seguiu-se o voto oficial do Colégio Eleitoral americano, que formalmente votou o Presidente e o Vice-Presidente dos Estados Unidos da América para os próximos quatro anos. Cumprindo a tradição, a tomada de posse de Joe Biden e Kamala Harris está marcada para 20 de janeiro de 2021.

A experiência de um jornalista português a cobrir as eleições

João Porfírio, fotojornalista português, foi para os Estados Unidos para cobrir as eleições americanas para o Observador, onde é editor de fotografia. Não foi fácil conseguir o visto para voar. Por causa da pandemia, os EUA não aceitavam a entrada no país de cidadãos provenientes do Espaço Schengen. Foi preciso apresentar um requerimento especial à embaixada e uma entrevista com o cônsul, que cedeu à dupla de jornalistas do Observador a exceção necessária e acesso ao visto. Ainda assim, não era garantida a entrada no país.

Esteve no Ohio, na Virginia Ocidental, Nova Iorque e Pensilvânia. Presenciou momentos de tensão nas várias manifestações de rua em Filadélfia após a morte de mais um homem negro às mãos da polícia.

Comunidade afro-americana em Filadélfia e o movimento BLM. (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

Acompanhou um comício de Donald Trump em Pittsburgh, uma cidade industrial . “É uma religião para eles”, conta-nos. Compara a organização destes comícios a um jogo de futebol: as famílias chegam cedo, comem e bebem nos carros antes do evento. Vende-se merchandising “de tudo o que se possa imaginar” em benefício da campanha. Quando as portas de acesso abrem, “correm para garantir o lugar mais perto de Trump. É como se fosse um espetáculo”.

A grande maioria destas pessoas não usa máscara, não cumpre o distanciamento social e é extremamente hostil para com os jornalistas presentes, mensagem veiculada por Donald Trump. Conta-nos que a primeira mensagem de Trump à sua plateia nesse comício foi “Olhem para aqueles tipos ali ao fundo… eles são fake news“. Trump fala ou gesticula e um enorme aplauso ecoa em seu apoio.

Nos 15 dias em solo americano com o seu colega no jornal Observador João Almeida Dias, houve ainda tempo para um comício drive-in de Biden, uma noite inteira numa rádio conservadora americana e uma reportagem sobre a já enorme e crescente crise dos opioides nos EUA.

Apoiantes de Donald Trump e de Joe Biden separados por uma grade (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

Conta ao 8ª Colina que só no fim do dia 4 de novembro (um dia depois das eleições) é que começou a ter certezas sobre a vitória de Joe Biden. Presenciou a notícia em Nova Iorque, estado onde mais de 60% dos eleitores votaram no candidato democrata. Numa América a curar-se do vírus Trump, milhares de carros buzinaram e entoaram a vitória de Biden e de Harris.

 

Foto de capa: EPA/TRACIE VAN AUKEN

 

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