“As personagens acabam por ter um pouco da nossa verdade.”

8ª colina – Achas que a televisão cativa cada vez mais jovens para este mundo da representação?

(Inês Faria) – Acho que todos nós, desde criança, temos aquela coisa de “quero fazer televisão”, “quero aparecer”. Acho que é muito por aí – o quero aparecer. Há pessoas que só querem aparecer. E nós vemos muito isso através dos programas de televisão de caça-talentos. Muitas pessoas não querem realmente cantar ou dançar, querem aparecer. Eu, pessoalmente, oiço quando passo na rua: “eu gostava de ser famosa como tu, de aparecer na televisão”. Eu digo “ mas gostavas de representar?” e respondem “não sei, eu queria era aparecer na televisão.”

Eu fui pelo sonho da representação; aliás, eu gosto muito mais de teatro do que de televisão. Não é o querer aparecer, mas sim o gosto pela arte.

Não tenho ninguém que trabalhe na área, ou seja, não foi uma coisa de “ah, a minha mãe é, por isso…”. Não tenho qualquer tipo de cunhas. Tive a oportunidade. Não sei se é sorte, não sei se é talento. Há sempre uma pontinha de sorte em todas as escolhas que fazemos na vida.

8ª colina – Falando agora da série Bem Vindos a Beiras, como é que surgiu a hipótese de ingressares no elenco?

(I.F) – A seguir a fazer o telefilme, Jogos Cruéis, tive a proposta de uma agente para começar a trabalhar com ela. Estive praticamente três meses sem fazer nada e foi o tempo de ela “trabalhar em mim”.

A RTP, após ter lançado o telefilme, gostou do meu trabalho e foi falar com a minha agente. Disseram que me queriam na próxima série da RTP Bem Vindos a Beirais, que era, na altura, um projeto de três meses. Agora já são dois anos e muito.

Eu nunca tinha visto uma câmara. Fui aprendendo durante o filme, com a ajuda de toda a equipa.

8ª colina – Em “Beirais”, tu contracenas com grandes atores como Ruy de Carvalho. Ainda sentes aquele frio na barriga, a responsabilidade por estares perante grandes nomes da televisão portuguesa?

(I.F) – Sinto e acho que é bom sentir. Quando não sentimos, é porque já estamos cheios de nós mesmos e acho que isso, para um ator, não é muito interessante. É sempre [especial contracenar], principalmente com o Ruy de Carvalho e com atores com mais anos de carreira. Não ligo muito ao facto de os atores terem nome, mas sim aos anos de carreira que têm e ao bom ou mau trabalho que efetuaram.

Claro que dá aquele friozinho na barriga de pensar “ah, eu estou a ser observada por x ou por y”, mas é um nervoso bom.

Beirais
Inês Faria é Inês Santiago em Bem vindos a Beirais © José Pinto Ribeiro

8ª colina – Em relação à tua personagem, Inês Santiago, há algo que faça parte de ti e que, neste momento, também faça parte dela?

(I.F) – Foi muito engraçado porque a Inês  [Santiago] foi crescendo comigo. No início da série ela tinha 15 anos; eu também.

Claro que a Inês vive numa aldeia e tem acesso a menos coisas do que eu. É uma coisa que é para passar em televisão e tem de ser bonito, tem que sair bem.

Mas é giro, porque passei por todas fases como a personagem; acho que demos praticamente os passos ao mesmo tempo e isso é bom para o ator comprovar algo que está a acontecer consigo.

8ª Colina – E se pensarmos ao contrário? O que é que achas que a personagem te ensinou?

(I.F) -A Inês ensinou-me muita coisa. Eu penso muito, sou muito racional, e ela ensinou-me a deixar as coisas acontecerem.
Ou seja, a Inês Santiago faz isso em demasiada, e eu percebi que a Inês Faria também podia ter um bocadinho disso.

As personagens acabam por ter um pouco da nossa verdade. E se eu estou a criar uma personagem, eu tenho de acreditar no que estou a fazer.

8ª colina – Falaste do telefilme que fizeste, Jogos Cruéis. Foi esse o primeiro contato com a câmara? Como é que foi? Como foi chegar, sem conheceres nada, sem fazeres a mínima ideia de como agir à frente da câmara?  

(I.F) – Começou logo na fase do casting. Eu lembro-me de ter ido de farda e de ter chegado à Plural e pensar “Mãe, isto são só meninas conhecidas e eu estou aqui de farda, eu não sei nada!…”. E realmente não sabia nada. Acho que foi essa coisa de estar tão simples e de não estar programada para [tal] que os fez pensar “espera aí, esta miúda tem qualquer coisa que já nasceu com ela”. A partir daí fui selecionada.

8ª colina – Agora que “és famosa”, como é que é lidar com esse reconhecimento na rua?

(I.F) – As coisas foram-se dando lentamente.  No início, não notava praticamente nada; quanto mais tempo a série foi estando no ar, mais normal se tornou. Sempre almocei com os meus pais no restaurante e era uma pessoa igual às outras. Hoje em dia, há sempre alguém que conhece, que olha ou que comenta à nossa frente. Eu muitas vezes ainda digo “ mãe, estão a olhar. O que é que se passa? Tenho alguma coisa na testa?”. Ainda é muito inconsciente.

Eu sei que é um cliché, mas acho que os nossos admiradores são também quem faz a nossa carreira. É excelente ouvirmos comentários positivos e até negativos, se forem construtivos, claro.

8ª colina – Por falar em crescer, e agora focando-nos no teu percurso escolar, estás neste momento a terminar o 3º ano do curso de Teatro, na Escola Profissional de Teatro de Cascais. De que forma é que esta tua aposta na formação te ajuda no dia-a-dia, a lidar com a série, ou mesmo a preparar-te para no futuro encarares outros projetos diferentes?

(I.F) – A minha escola – e acho que é dos seus poucos defeitos – é muito direcionada para teatro. Os meus colegas não têm qualquer experiência com a câmara. É a melhor escola do país a dar teatro no secundário. Agora, nem só de teatro vive o mundo artístico de representação e, muitas vezes, as pessoas esquecem-se disso. Desprezam a televisão e dizem “ah não, eu só faço teatro”.

Aquela escola prepara-me no sentido do mundo do palco; do mundo cá fora [hesita] vamos tendo alguns professores, com conhecimentos e testemunhos ao longo do curso.

Tenho a sorte de estar a fazer, ao mesmo tempo, um segundo curso com esta participação na série.

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A farsa de Inês Pereira (peça de avaliação realizada por Inês Faria – 2013) © DR

8ª colina – Pessoalmente, tens alguma preferência pelo teatro ou pela televisão, ou gostas dos dois?

(I.F) – Vou ser sincera: gosto mais de fazer teatro do que televisão. Mas não menosprezo a televisão; acho que continua a ser um trabalho dificílimo, eu respeito muito esta profissão e acho que para todas as profissões é preciso tempo. E em televisão não há tempo: é fazer, fazer, fazer, fazer, fazer.

Em teatro não: realmente em Portugal só se faz mesmo teatro porque se gosta do que se está a fazer, porque o teatro em Portugal não dá dinheiro. Se me perguntarem, prefiro teatro, mas adorava poder conciliar as duas coisas.

8ª colina – Depois de Beirais, qual o percurso que esperas para ti? Este é um projeto que não durará certamente mais do que alguns meses; pelo que se diz, mais meia dúzia de meses.

(I.F) – As pessoas falam, mas pelos vistos sabem mais que nós. Os atores, a produção, ninguém sabe. Nós temos um contrato até um x tempo. As pessoas especularam porque a administração da RTP mudou e fizeram logo essa ideia de “eles não vão querer continuar o projeto”. Ninguém sabe nada e isso é pura especulação.

Eu estou agora a acabar o curso que me dá equivalência ao 12º ano. Vou parar um ano porque estive três anos a estudar e a trabalhar e, querendo ou não, desgasta. Vou tirar um curso de línguas, extra curricular, porque acho que para um ator é importantíssimo [saber] línguas. Não me quero minimizar ao território português.

A seguir, gostava de tirar um curso superior de Comunicação Social. Tenho objetivos e não me quero ficar só com o 12º ano. Vou para o curso de Comunicação Social, não porque já não gosto disto, mas porque quero ter um plano B.

8ª colina – Para os jovens que querem seguir esta área, e voltando ao início da nossa conversa, que mensagem gostarias de lhes deixar?

(I.F) – Acho que, antes de mais, têm de pensar se é realmente isto que querem.

Se é realmente isto, acho que não vale a pena desistirem porque isto é uma profissão igual às outras. É preciso um curso: não acredito em atores sem formação, não existem, ou se existem, são os atores comerciais e sou totalmente contra esses atores. Uma carinha “laroca” acaba e se calhar o talento não, muito mais se for trabalhado. Corram atrás das oportunidades e não fiquem à espera. Ninguém vai chegar no meio da rua e dizer “olha, queres entrar na próxima novela?”.

Saibam dos cursos que há, saibam das maiores produtoras em Portugal; inscrevam-se numa agência como deve ser. Depois é saber fazer as escolhas certas nas alturas certas.

Texto: Marta Ferreira

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