Ayres Gonçalo: “O alfaiate imagina e constrói com as suas próprias mãos”

A paixão pela alfaiataria provém do seu avô, Ayres Carneiro da Silva, um dos grandes alfaiates da cidade do Porto. Como começou este “bichinho” e como se foi desenvolvendo?

Sim, o meu avô é um dos grandes alfaiates portuenses. Não acho que seja só do Porto, mas sim do país. Conheço bem o trabalho dele e não é por ser meu avô que o considero um dos melhores alfaiates que alguma vez vi a trabalhar. Este bichinho começou na minha adolescência porque, normalmente, depois das aulas ia para a loja do meu avô, onde a minha mãe trabalhava. Enquanto esperava que a minha mãe terminasse o trabalho ficava cerca de três horas: uma para fazer os trabalhos de casa e as outras duas eram para ver os alfaiates e as costureiras a trabalhar. O meu avô estava a trabalhar e eu estava a ver o que ele estava a fazer. Começou assim a minha paixão. Recordo-me perfeitamente, como se fosse hoje.

Posteriormente teve a oportunidade de estudar e trabalhar em casas de grande nome, quer em Madrid, Londres, Nova Iorque e Hong Kong. Porquê o desejo de voltar e de abrir o seu ateliê no Porto?

Acima de tudo porque sou português e tenho a certeza absoluta de que qualquer português que viva fora, se tiver a oportunidade de ter uma situação minimamente estável no seu país, prefere vir para Portugal. A minha ideia sempre foi um dia regressar. Tinha o objetivo de aprender fora, para depois aplicar dentro do país. E assim foi, passei os meus 20 anos quase todos fora de Portugal. Comecei por trabalhar em Madrid, depois passei para Londres, onde trabalhei quatro anos em Savile Row. Depois de Londres, passei para Nova Iorque e quando estava lá a trabalhar o meu chefe enviou-me para Hong Kong enquanto esperava pelo visto para viver nos Estados Unidos. Numa pequena cidade no sul da China, a 30 minutos de Hong Kong, fiz controlo de qualidade numa alfaiataria. E, um dia, numa viagem de avião, decidi que estava na altura de parar com esta aventura e regressar a Portugal para iniciar uma nova etapa na minha vida. Na altura tinha 29 anos e estava no momento certo.

Na sua passagem por Londres, teve o privilégio de fazer um fato para o Príncipe Carlos. Como foi essa experiência?

Já contei essa história mil e uma vezes. Sei que vou ter 80 anos e que me vão fazer essa pergunta e contarei mais uma vez essa história. Foi um grande marco na minha vida ter feito um fato ao Príncipe Carlos, sem dúvida alguma. Não fiz só ao Príncipe Carlos, fiz a mais personalidades inglesas e que vivem no Reino Unido, mas o Príncipe Carlos foi aquele que mais se destacou. Para mim foi um ótimo momento, um objetivo a que me propus desde pequeno porque sempre gostei do estilo que o Príncipe Carlos tem e que acabou por se concretizar. Na altura fiquei em êxtase. Lembro-me que quando o vi pela primeira vez as minhas mãos tremiam. Estava a pensar para mim próprio: “controla-te, Ayres. Tem calma”, mas não dá para acalmar. Correu bem, fiz o fato, ele vestiu e fomos felizes para sempre. (risos)

O ateliê tem vários tipos de serviço, quer para homem quer para mulher. Pode explicar-nos um pouco melhor como funciona?

O ateliê tem vários serviços. Sou uma pessoa dinâmica e, por isso, gosto de dinamizar o produto. O ateliê tem o serviço de alfaiataria, que é o serviço número um. Depois temos ainda, serviços de camisaria, sapataria, alfaiataria industrial e de alterações pontuais. Durante o outono, o inverno e a primavera há a escola de alfaiataria, que só faz pausa no verão.

E que tipo de cliente vai ainda hoje ao alfaiate?

Antigamente, não havia pronto-a-vestir ou era escasso e, por isso, toda a gente ia ao alfaiate. Depois, com a escassez de profissionais desta área, o alfaiate começou a ser mais valorizado e só uma elite é que se manteve fiel. Hoje em dia, um alfaiate de qualidade trabalha, geralmente, para a classe média alta/alta. Outras pessoas que procuram um alfaiate são pessoas com algum defeito no corpo, uma vez que nada no pronto-a-vestir lhes serve. Os ombros não ficam bem, têm um braço mais comprido que o outro ou apresentam uma grande curvatura nas costas. As peças standard das lojas não são adequadas e por isso estas pessoas procuram o alfaiate para disfarçar os defeitos que têm. O alfaiate é treinado e especializado para resolver este tipo de situações.

As mulheres também frequentam o alfaiate?

Sim, há muitas senhoras que frequentam o alfaiate. Geralmente, as senhoras estavam mais direcionadas para as modistas, que ainda existem e que fazem um excelente trabalho. O que tem acontecido no meu ateliê é que alguns clientes vêm com as suas esposas, que ficam encantadas com a gama que tenho   de tecidos. Perdem-se na beleza dos tecidos e pedem que lhes façam casacos e outras coisas. Gosto de trabalhar para senhoras.

Para além da alfaiataria, o ateliê possui ainda produção de calçado. Porquê explorar também este produto?

Quando regressei a Portugal, tinha só a ideia de fazer alfaiataria. Só que depois fiz alguns trabalhos para casamentos a vestir noivos. Fazia a camisa e o fato e depois o noivo precisava de sapatos e era obrigado a comprar o calçado noutro sítio. Eu indicava alguns nomes de confiança, mas depois pensei: “porque não começar a ter também sapatos?”. Vivemos num país que é fortíssimo na indústria do calçado e, assim, fui procurar fornecedores e dei início a este serviço. Desenho os modelos que depois entrego ao meu produtor que os torna reais. São de excelente qualidade e estou extremamente satisfeito com os sapatos e botas que vendo. Não estava à espera que houvesse tanta afluência à sapataria, mas tem corrido muito bem.

Para além do trabalho tradicional de alfaiataria, Ayres Gonçalo criou também a sua linha de calçado. © Ana Filipa Mesquita
Para além do trabalho tradicional de alfaiataria, Ayres Gonçalo criou também a sua linha de calçado. © Ana Filipa Mesquita

Como vê o seu avô os passos que deu na alfaiataria? Continua a ser uma peça chave e uma referência naquilo que faz?

Fui a única pessoa da família que seguiu a arte do meu avô. Já há muito tempo que lhe dizia que queria ser alfaiate, mas ele nunca acreditou e nunca me deixou estar ao pé dos empregados dele. Por exemplo, não me deixava sentar à beira das costureiras e fazer o mesmo que elas estavam a fazer. O meu avô sempre disse que não iria conseguir e que ser alfaiate não era para mim. Só que a minha vontade era imensa e a melhor coisa que fiz foi ter saído do país na altura certa e ter descoberto um curso de corte em Madrid, que infelizmente hoje já não existe. A partir daí o meu avô viu que já era um pouquinho mais a sério, mas também ainda era miúdo. Mas também compreendo, dizer aos 20 anos “quero ser alfaiate”, era normal que o meu avô não acreditasse muito. Mas hoje em dia vê com bastante orgulho. O meu avô é presença assídua no meu ateliê. É ele que desbloqueia os grandes problemas. Tem 84 anos e quando há um problema grande quem o desbloqueia é ele. Tem muita experiência e a experiência, tanto na vida como numa profissão, não é tudo mas é muito.

Num mundo no qual os designers e as marcas são mais recorrentes, quais os aspetos que os diferenciam dos alfaiates?

Há muitos aspetos em que se diferenciam. Um alfaiate constrói e um designer não. Um designer imagina e dá a outro para construir, enquanto o alfaiate imagina e constrói com as suas próprias mãos. Parece que não, mas é completamente diferente. Por muito que se explique à outra pessoa como é, nunca faz exatamente como foi imaginado. Depois, um alfaiate está direcionado para roupa clássica, um determinado segmento. Para além disso, hoje em dia um alfaiate está associado a luxo e produtos de excelência e um designer não.

No seu trabalho, como é feita a ponte entre o tradicional e o moderno?

Um clássico é sempre um clássico. Essa ponte acontece naturalmente. Mas, por exemplo, no caso dos casacos não há muito que seja diferente dos casacos de há 50 anos atrás. O que se vende mais é o modelo clássico, as pessoas continuam fiéis a esse modelo, especialmente em Portugal.

Se pudesse escolher para quem faria agora um fato?

Hoje em dia não podemos escolher clientes, não podemos ter esse luxo. (risos) Mas se pudesse escolher, faria um fato ao Presidente angolano [José Eduardo dos Santos]. Tem um grande porte, gosto da postura dele.

Considerando que os alfaiates são bastante raros nos dias que correm, acha que se pode enquadrar no movimento revivalista que está a acontecer não só na cidade de Lisboa, como no país?

Ser alfaiate custa, não se aprende em três, quatro anos, e só com persistência se consegue ter futuro nesta profissão. E, sem dúvida alguma, a alfaiataria enquadra-se no movimento revivalista. Estou cá para isso.

Texto: Ana Sofia Figueiredo

Fotos: Ana Filipa Mesquita

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