Bairro a Bairro – Alfama

“Alfama é uma ilha dentro da cidade: isolada, com as suas próprias regras e hábitos, silenciosa. Ao mesmo tempo é uma versão intensificada, concentrada, da cidade. Não se trata apenas de um bairro típico como tantos outros – Alfama é o bairro por definição”, escreve Gerrit Komrij no seu livro Alfama (1991).

Para a quarta edição do Bairro a Bairro, visitámos um dos bairros mais antigos de Lisboa: Alfama. De acordo com a última reorganização administrativa, Alfama abrange uma parte da freguesia de Santa Maria Maior e outra da freguesia de São Vicente.

Estávamos nas vésperas de Natal. Contudo, fazia imenso sol, um lugar-comum de Lisboa e o elogio na ponta da língua dos turistas que visitam a cidade. Entre os labirintos de casas coloridas, estendais e molas da roupa, encontrámos pessoas que nasceram, vivem e trabalham no bairro e que, consequentemente, acompanharam a sua evolução nos últimos anos. Procurámos contar a história de Alfama através dessas pessoas.

Tendo como pano de fundo o acentuado crescimento do turismo em Lisboa, quando se percorre Alfama são bastante óbvias as marcas de insatisfação dos lisboetas. Fala-se na descaracterização do bairro e nos despejos.

Na rua de São Pedro encontramos Maria Manuela Farias, uma senhora robusta, de olhos cansados e cabelo já grisalho. Convida-nos a entrar no seu espaço: não é grande, mas estende-se em profundidade. Uma pequena loja escura, mal iluminada, mas que contrasta com as cores vivas da fruta cuidadosamente emoldurada.

A Manuela, como é conhecida, diz que não é a primeira vez que aparecem alunos de faculdades a perguntar coisas: “Eu respondo ao que sei, claro”. Dizemos que estamos a estudar jornalismo e que nos queremos aventurar por Alfama. Falamos sobre o jornalismo na atualidade, sobre os netos, sobre os turistas e, inevitavelmente, sobre o bairro onde Manuela vive e trabalha há mais de 50 anos. Toma conta da mercearia da família desde que o marido faleceu. Diz que agora não tem tantos clientes como antigamente: “Vêm poucos turistas à mercearia”.

Entra Rosa, uma senhora que conhece bem Manuela. “Já está tudo fechado!”, queixa-se. Queria bacalhau para a consoada e conversar com quem lhe desse conversa. A entrevista fica em suspenso. Não queremos atrapalhar o trabalho e afastamo-nos um pouco para lhes dar alguma privacidade. Pouco depois, Manuela chama-nos de volta: “Ó meninos, podem voltar à conversa!” Deixa-nos sempre à vontade, com o seu ar maternal. A conversa continua. Trocamos algumas histórias cativantes e ficamos com importantes referências sobre onde podemos ir almoçar. Manuela conta que em Alfama, e nos bairros vizinhos, há ainda algum sentido de comunidade entre os mais velhos, apesar da quantidade de turistas que circulam pela zona histórica de Lisboa.

“Fecha tudo para o Natal. Os turistas ficam a falar sozinhos”, conta Rosa.

No cruzamento entre a Calçadinha do Tijolo e a Calçada de São Vicente, entramos noutra mercearia. É mais pequena e estreita do que a primeira. Lá dentro, estão duas senhoras, ambas baixas e apropriadamente encasacadas para esta altura do ano. “Olá, sou o João. Sou aluno de jornalismo na ESCS. Gostava que me falassem um pouco sobre o vosso bairro.” De início não se mostram muito à vontade para responder às perguntas, mas, com o decorrer da conversa, esta questão é ultrapassada.

Falamos com Lurdes, que trabalha há quase meio século nesta casa, e com Eugénia, uma cliente regular, que já parece aviada das compras. Respondem em conjunto, cada uma complementando o que a outra diz. Gostam de viver em Alfama, apesar de já não conhecerem todas as caras do bairro. Garantem que a vida em Alfama é segura e que não se lembram de incidentes. “Os carteiristas não querem nada com a gente”, diz Eugénia, num tom divertido.

Entra um jovem na loja. Claramente, alguém que as senhoras conhecem. Tem sotaque alentejano e quer pão dessa mesma região. Lurdes pergunta se as aulas do rapaz não deveriam já ter terminado. Afinal, faltam três dias para o Natal e ele também merece descanso.

Perguntámos por um sítio para almoçar. Indicam-nos a Parreirinha de São Vicente, um sítio onde podemos comer bem, por pouco dinheiro, e, principalmente, onde haverá material para continuar a reportagem. É o caminho que seguimos.

Entramos num espaço com três zonas de refeições, incluindo uma exterior. Duas delas estão cheias e, por isso, os empregados parecem todos bastantes atarefados. Na ementa diz que uma imperial custa um euro e meio, mas, quando a pedimos, fica por um euro.

Falamos com um dos donos do restaurante. Álvaro, de cabelo curto, óculos e um bigode a tender para o branco, serve na Parreirinha há 37 anos. Diz que os seus clientes são maioritariamente pessoas que trabalham nas redondezas e turistas. O espaço está muito movimentado e decidimos não incomodar mais. Mas ficamos para almoçar, claro.

De tarde, visitamos a Casa Bastão, no número 168 da Rua dos Remédios. É uma loja que vende artigos militares. O dono do estabelecimento, que faz questão de nos receber pessoalmente e de nos mostrar os cantos à casa, exibe orgulhosamente um anúncio à sua loja num jornal regional.

Passear por Alfama não é tarefa fácil. Depois de subir e descer várias ruas do bairro, chegamos a um novo porto: um café pequeno e acolhedor.

Maria Carmelinda (direita) e Maria Luísa (esquerda)

“Ainda não fomos para a rua”, diz Maria Luísa, de 80 anos, aludindo à vaga de despejos que se abateu sobre o bairro, e nessas palavras resume o que passa pela cabeça de todos os moradores de Alfama. Encontrámos Maria Luísa e Maria Carmelinda num dos poucos cafés que ainda estão abertos neste bairro, a tomar a habitual bica da tarde. São duas pessoas bastante reservadas. Carmelinda não está para muitas conversas, por isso deixa que Luísa tome conta do diálogo, participando apenas com leves acenos de cabeça, que demonstram assentimento ao que está a ser dito. A conversa não é longa, mas Carmelinda e Luísa encontram neste pequeno diálogo a oportunidade de dizer muito que pensam, já que raramente têm como ser ouvidas. E o que dizem é o mesmo: Alfama já não é o que era antigamente. “Não há direito! Há meia dúzia de vizinhas; o resto é tudo estrangeiros.” Sobre a vaga de turismo no bairro, ambas concordam que a culpa do que se tem vindo a passar no bairro de Alfama não é dos turistas, mas dos senhorios, que são “uns malandros. Eles é que põem pessoas na rua, para ganharem dinheiro com os turistas.”

Mais tarde, perdidos pelas ruas e ruelas de Alfama, encontramos uma senhora parada à porta de casa a observar quem passa. A rua é muito movimentada: há pessoas em frente às pequenas lojas e vários turistas a passear. Emília é uma pessoa simples. Do turismo, tem uma visão muito mais negativa do que as outras pessoas com quem falámos. Viveu quase toda a vida em Alfama, mas descreve um bairro completamente diferente daquele que encontrámos. “Antes era tudo muito mais calmo, mais português.” O turismo, afirma, não foi benéfico: “A gente perdeu quem morava aqui.” As críticas que lança são muitas. “Só vejo turistas e, como não sei falar inglês, não consigo meter-me com eles”. Os vizinhos, já não os conhece: “Estão sempre a entrar e a sair pessoas das casas aqui ao lado. As caras nunca são as mesmas. Ficam por aqui só alguns dias e depois nunca mais os vejo.” Emília sente falta do bairro que conheceu quando, aos 16 anos, se mudou para aqui com o marido, que entretanto faleceu.

Alfama é, sem dúvida, uma vítima do turismo. Um hostel aqui, um AirBnB três portas à frente. Há gruas, andaimes e carrinhos de mão. Ouve-se inglês, alemão, espanhol, francês. É frequente, ao virar da esquina, chocar com alguém vestido apropriadamente para a temperatura, que se faz acompanhar de um grupo de pessoas de calções e camisa. O dezembro deles deve ser mais fresco que o nosso, deduz-se.

“We have fado tonight”, lê-se por toda a parte. O bairro de Alfama está cada vez mais virado para o turismo, a presença do inglês em cada esquina é evidente, mas são poucos os moradores mais antigos que o percebem.

Ainda assim, o típico (e esta palavra parece ser um íman de turistas) bairro lisboeta consegue manter a sua identidade. Um lugar de pessoas simpáticas, que gostam de receber quem por lá passa e onde a vida parece decorrer com mais tempo, sem grandes pressas e com espaço para conversar.

Fotografia e texto de: Ana Narciso e João Morais

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