Bairro a Bairro – Alvalade

Bairro a Bairro

 Numa cidade com a dimensão de Lisboa, muitas vezes as vidas cruzam-se sem se tocarem. Há zonas pobres, zonas ricas, lojas antigas e modernas, pessoas de muitas nacionalidades. No mundo que é esta cidade, existem depois pequenos núcleos com características distintivas e com histórias e vidas muito próprias. São os bairros de Lisboa. Esta rubrica pretende caracterizar a vida e a dinâmica de cada um destes territórios, enquadrando-os no seu contexto histórico e socioeconómico. Bairro a Bairro… ficaremos a conhecer a diversidade da nossa capital.

Alvalade, um bairro moderno por tradição

Nesta primeira edição, contamos a história de um bairro que foi premiado pela sua modernidade aquando da sua construção. Enquanto a freguesia que o acolhe tem aumentado e diminuído de tamanho com as reorganizações administrativas das freguesias de Lisboa, o bairro, esse, tem mantido a sua forte identidade ao longo dos tempos. Se os bairros tivessem espinhas dorsais, a deste seria a Avenida da Igreja. Daí, estende-se pelas transversais até aos quarteirões circundantes. Com um nome que tem origem na expressão árabe “Al-Balad”, lugar habitado ou murado, este é… o Bairro de Alvalade.

O Bairro de Alvalade nasceu no seguimento do desenvolvimento urbanístico da cidade de Lisboa nos anos 30 do século XX. O bairro fazia parte do Plano de Urbanização da Zona Sul da Avenida Alferes Malheiro – atual Avenida do Brasil. O projeto, aprovado em 1945 e inspirado em conceitos da arquitetura moderna, procurava conjugar habitação, lazer, espaços verdes e comércio.

 

No Plano de Urbanização que deu origem ao Bairro de Alvalade, foram definidas oito células com características muito próprias. Muitas delas ainda se mantêm nos dias de hoje; outras foram sendo reinventadas (Imagem publicada no âmbito de um estudo feito por alunos da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa).

 

No bairro situa-se também o Arquivo do Arco do Cego. Ali encontra-se documentação produzida entre os 1630 e 2002.

 

O liceu D. Filipa de Lencastre – atualmente chamado escola secundária – foi a segunda escola para raparigas da capital. O edifício está classificado como Monumento de Interesse Público. Durante os primeiros anos do Estado Novo, este foi um dos poucos equipamentos do bairro. Para além do liceu, na época, existiam apenas duas escolas primárias, o arquivo municipal e uma esquadra da polícia.

 

Projeto da 1.ª República e símbolo do Estado Novo, o Bairro do Arco do Cego funcionou durante os primeiros anos como um bairro social. Para dar resposta à chegada das populações vindas do campo, as habitações abandonadas (quintas, palácios, etc.) deram lugar a alojamentos coletivos, destinados a várias famílias.

 

Há precisamente 100 anos, um decreto-lei – datado de 24 de abril de 1918 – regulava as condições de construção do edificado. Era preciso garantir que as habitações tinham iluminação, limpeza semelhante aos outros, fontes e lavadouros.

 

A Casa da Moeda é considerada o mais antigo estabelecimento fabril do país, existindo desde o século XIII. Ao longo da sua história, esteve situada em diferentes pontos da cidade, até se ter instalado no edifício atual, em 1941.
Tradicionalmente responsável pela cunhagem da moeda, a Imprensa Nacional-Casa da Moeda tem hoje em dia também a função de produzir documentos de identificação e segurança, como o cartão do cidadão, e publicações oficiais do Estado, de que é exemplo o Diário da República.

 

Um dos critérios para podermos chamar bairro a uma zona da cidade é o facto de existirem marcas identitárias coletivas. Muitas vezes estas marcas assumem uma presença física, como é o caso dos mercados. O mercado de Alvalade faz parte da rede oficial dos Mercados de Lisboa.

 

No Bairro de Alvalade ainda há marcas de ocupações profissionais tradicionais de rua, como é o caso dos engraxadores.

 

A Igreja São João de Brito foi projetada na década de 50 do século XX, pouco depois de ter sido concebido o Plano de Urbanização de Alvalade. É a igreja que dá o nome à principal avenida do bairro – a Avenida da Igreja.

 

As moradias unifamiliares, tipicamente com dois pisos, são características da célula 4 do Bairro de Alvalade.

 

Alvalade é uma das freguesias da capital com a população mais envelhecida. O índice de envelhecimento de Alvalade (239%, isto é, existem 239 idosos para cada 100 jovens) está acima dos valores médios para a cidade (183%) (Fonte: Censos 2011).

 

Apesar de ser um bairro bastante envelhecido, existem espaços para os mais novos brincarem. Em Alvalade, os núcleos familiares com filhos correspondem a 65% da população (Fonte: Censos 2011).

 

O Bairro de Alvalade é uma das zonas da cidade onde foram instaladas as bicicletas “Gira”, bicicletas partilhadas de Lisboa. Alvalade recebeu as bicicletas na segunda fase do projeto – a primeira fase incluía apenas a zona do Parque das Nações e funcionou como teste piloto. Na zona de Alvalade e Avenidas Novas existem atualmente 15 estações.

 

O brasão da freguesia de Alvalade integra elementos simbólicos das diferentes zonas que compõem o território: a escolha do verde para cor de fundo representa o Campo Grande, espaço verde de referência em Lisboa, onde em tempos existiram hortas; a lucerna, símbolo do conhecimento, remete para a Cidade Universitária; a lisonja e a palma recuperam os símbolos da antiga freguesia de São João de Brito; e as espadas fazem alusão à batalha de Alvalade, momento em que o rei D. Dinis e o filho, infante D. Afonso (futuro D. Afonso IV), se teriam defrontado, não fora a intervenção da rainha Santa Isabel (Fotografia ao brasão impresso num edital publicado pela Junta de Freguesia).

 

Não é fácil encontrar registos históricos do exato local onde esteve para ser travada a batalha de Alvalade. No entanto, existe um padrão comemorativo do processo de pacificação levado a cabo pela rainha Santa Isabel. É a localização deste monumento que nos leva até à próxima edição: o Bairro do Arco do Cego, na freguesia do Areeiro.

 

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