Bairro a Bairro – Alvalade

Bairro a Bairro

 Numa cidade com a dimensão de Lisboa, muitas vezes as vidas cruzam-se sem se tocarem. Há zonas pobres, zonas ricas, lojas antigas e modernas, pessoas de muitas nacionalidades. No mundo que é esta cidade, existem depois pequenos núcleos com características distintivas e com histórias e vidas muito próprias. São os bairros de Lisboa. Esta rubrica pretende caracterizar a vida e a dinâmica de cada um destes territórios, enquadrando-os no seu contexto histórico e socioeconómico. Bairro a Bairro… ficaremos a conhecer a diversidade da nossa capital.

Alvalade, um bairro moderno por tradição

Nesta primeira edição, contamos a história de um bairro que foi premiado pela sua modernidade aquando da sua construção. Enquanto a freguesia que o acolhe tem aumentado e diminuído de tamanho com as reorganizações administrativas das freguesias de Lisboa, o bairro, esse, tem mantido a sua forte identidade ao longo dos tempos. Se os bairros tivessem espinhas dorsais, a deste seria a Avenida da Igreja. Daí, estende-se pelas transversais até aos quarteirões circundantes. Com um nome que tem origem na expressão árabe “Al-Balad”, lugar habitado ou murado, este é… o Bairro de Alvalade.

O Bairro de Alvalade nasceu no seguimento do desenvolvimento urbanístico da cidade de Lisboa nos anos 30 do século XX. O bairro fazia parte do Plano de Urbanização da Zona Sul da Avenida Alferes Malheiro – atual Avenida do Brasil. O projeto, aprovado em 1945 e inspirado em conceitos da arquitetura moderna, procurava conjugar habitação, lazer, espaços verdes e comércio.

 

No Plano de Urbanização que deu origem ao Bairro de Alvalade, foram definidas oito células com características muito próprias. Muitas delas ainda se mantêm nos dias de hoje; outras foram sendo reinventadas (Imagem publicada no âmbito de um estudo feito por alunos da Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa).

 

Na célula 1 (bem como na 2 e na 5), os edifícios são quase exclusivamente habitacionais. As casas seguem um projeto-tipo, o que as torna muito parecidas quer no exterior, quer no interior. Na origem, estas eram zonas de renda económica.

 

A Avenida da Igreja, “mais do que uma artéria de deslocação, consegue adotar a forma de espaço público”, refere Sofia Barroco, num estudo sobre os aspetos estruturais do Bairro de Alvalade.
A arquiteta continua: “Do espaço público fazem parte uma infinidade de lugares, espaços, elementos e quiçá emoções”.
O conceito que esteve na base da conceção desta parte do bairro era o do estímulo ao convívio e ao sentido de pertença a um espaço urbano comum.

 

A célula 3 do Bairro de Alvalade foi pensada para conjugar habitações e comércio.

Nos dias de hoje, ao lado das lojas tradicionais têm surgidos lojas e restaurantes modernos que procuram ir ao encontro daquilo que os clientes mais novos procuram.

Nalguns casos, o comércio tradicional vai procurando atualizar-se e corresponder às tendências que surgem em cada nova época.
Também na célula 3, havia um espaço reservado aos armazéns e às pequenas indústrias. Ainda hoje, é possível lá encontrar estes espaços, embora as construções tenham vindo a ser ocupadas por negócios de outras naturezas, como supermercados e ginásios.

 

 

Um dos critérios para podermos chamar bairro a uma zona da cidade é o facto de existirem marcas identitárias coletivas. Muitas vezes estas marcas assumem uma presença física, como é o caso dos mercados. O mercado de Alvalade faz parte da rede oficial dos Mercados de Lisboa.

 

No Bairro de Alvalade ainda há marcas de ocupações profissionais tradicionais de rua, como é o caso dos engraxadores.

 

A Igreja São João de Brito foi projetada na década de 50 do século XX, pouco depois de ter sido concebido o Plano de Urbanização de Alvalade. É a igreja que dá o nome à principal avenida do bairro – a Avenida da Igreja.

 

As moradias unifamiliares, tipicamente com dois pisos, são características da célula 4 do Bairro de Alvalade.

 

Alvalade é uma das freguesias da capital com a população mais envelhecida. O índice de envelhecimento de Alvalade (239%, isto é, existem 239 idosos para cada 100 jovens) está acima dos valores médios para a cidade (183%) (Fonte: Censos 2011).

 

Apesar de ser um bairro bastante envelhecido, existem espaços para os mais novos brincarem. Em Alvalade, os núcleos familiares com filhos correspondem a 65% da população (Fonte: Censos 2011).

 

O Bairro de Alvalade é uma das zonas da cidade onde foram instaladas as bicicletas “Gira”, bicicletas partilhadas de Lisboa. Alvalade recebeu as bicicletas na segunda fase do projeto – a primeira fase incluía apenas a zona do Parque das Nações e funcionou como teste piloto. Na zona de Alvalade e Avenidas Novas existem atualmente 15 estações.

 

O brasão da freguesia de Alvalade integra elementos simbólicos das diferentes zonas que compõem o território: a escolha do verde para cor de fundo representa o Campo Grande, espaço verde de referência em Lisboa, onde em tempos existiram hortas; a lucerna, símbolo do conhecimento, remete para a Cidade Universitária; a lisonja e a palma recuperam os símbolos da antiga freguesia de São João de Brito; e as espadas fazem alusão à batalha de Alvalade, momento em que o rei D. Dinis e o filho, infante D. Afonso (futuro D. Afonso IV), se teriam defrontado, não fora a intervenção da rainha Santa Isabel (Fotografia ao brasão impresso num edital publicado pela Junta de Freguesia).

 

Não é fácil encontrar registos históricos do exato local onde esteve para ser travada a batalha de Alvalade. No entanto, existe um padrão comemorativo do processo de pacificação levado a cabo pela rainha Santa Isabel. É a localização deste monumento que nos leva até à próxima edição: o Bairro do Arco do Cego, na freguesia do Areeiro.

 

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