Cavalete: “Com a água do banho foi embora o bebé."

      “Antes do 25 de abril a palavra política não estava no nosso dicionário.” No Montijo, Maria da Piedade Patinha, aos 16, vê a recuperação da liberdade. Com ela vieram os receios e laivos de novas janelas da cultura.

 

      As memórias da ditadura são-lhe trazidas pelo ambiente que vivia em casa. Falava-se de política, por vezes, quando havia as conversas de Salazar na televisão. Mas “as coisas eram ditas de forma mais baixa, mais controlada.” Tinha uma boa biblioteca em casa, mas conta que depois da revolução, descobriu livros escondidos que salientavam “a veia mais de esquerda” do pai.

 

 

      Um dia, a sua mãe foi fazer umas compras. Quando chegou, disse que se estava a dar a revolução e que ninguém devia sair. “Nesse dia telefonaram-nos para casa, não podíamos ir à escola.” Lembra-se de ouvir os pais a falarem na cozinha, confessarem que o melhor era não dizer nada porque não se sabia para que lado se daria a revolução. “Ouvíamos muita rádio e televisão. Eventualmente notou-se uma calma e uma alegria muito grande. O próprio ambiente mudou.”

Os professores não conseguiam dar aulas, o diretor da escola foi destituído e todos os que estavam ligadas ao regime foram deslocados: “Passas no mesmo ano a umas aulas de um modelo autoritário, rígido e discursivo do professor, com uma separação total com o outro e nós. Na semana a seguir, surge um modelo completamente diferente.” Aproximava-se o final do ano letivo e ninguém ficou retido. Os portões e as grades que dividiam os rapazes e as raparigas, “começam-se a criar, na tua cabeça de adolescente, outras formas de pensamento.”

      A liberdade sentiu-se para além das palavras. Desde a escola primária que usava bata. Com feitios diferentes e fitas de várias cores – que variavam  consoante os cursos. No 25 de abril, também esta questão muda: “Deixar de haver bata era a nossa liberdade do corpo. A bata tornava-me um ser anónimo igual a tantos outros; e, sem bata, tornava-me um indivíduo com especificidade.” Quando este elemento de uniformização do antigo regime fascista cai, surge outra novidade: poder usar calças na escola, algo que antes era proibido.

Casamento que ocorre depois do 25 de abril na Amadora

       “Houve uma explosão de liberdade que nós não soubemos como viver, porque nunca tínhamos vivido em liberdade. Tudo era o momento: as coisas tinham de ser feitas agora, as explosões existiam agora.” A rapidez não dava para refletir sobre os acontecimentos. A existência de perigo não era notória, “A adolescência tem essa coisa boa porque às vezes também não persente o perigo.” Viviam-se tempos de “grande alegria” em que se aprendia a existir numa nova realidade democrática. 

       As RGA, Reuniões Gerais de Alunos, eram feitas “por tudo e por nada”. Foram anos em que houve várias manifestações: “Nunca tinha visto, nem em procissões, tanta gente como nas manifestações. Notava-se uma avidez muito grande em querer saber coisas, em querer ouvir as opiniões diferentes.” Todos discutiam entre si as diferentes visões: “Tive conhecimento de pessoas que se zangaram por questões políticas. Amigos de toda uma vida que deixaram de se dar.” Trouxe uma frase que nunca veio a esquecer: “À mesa não se fala de religião nem de política”. 

Apoiantes de Otelo de Carvalho no Terreiro do Paço (50 anos da RTP, episódio sobre 1976)

“Se te põem à frente um livro muito grande, cheio de coisas completamente diferentes, tu queres é mergulhar naquilo e ver o que ele te ensina de novo.” A efervescência deste novo período, tornou possível que se desse um salto intelectual qualitativo. “Por muito que nós pudéssemos em casa ler, antes do 25 de abril líamos apenas o que era permitido.”  O tempo encarregou-se de modelar mentes: “Fazíamos observações, análises, para percebermos com o que nos identificámos mais. Nós éramos uma espécie de esponjas a querer aprender tudo.”

      Quando chega à faculdade, em Lisboa, depara-se com um novo mundo “Vivia relativamente perto, mas relativamente longe de Lisboa. A cidade, o urbano, o estar em cima do acontecimento, quase como viver no próprio centro político, contribuiu para que muitos jovens tivessem outra maturidade, até política.” Faltava às aulas para ir ver filmes de vanguarda, principalmente os filmes franceses, que se considerava que iam contra aquilo que era os valores da burguesia, “porque se fossemos burgueses éramos reacionários.”  

A televisão traz novas formas de comunicação e globalização “das coisas, das mercadorias, do mundo.” A televisão torna-se tão ágil, informativa, moderna, proporcionando alterações profundas das mentes. “Da forma de estar e do saber o que está a acontecer até ter a noção de desmistificar as coisas e saber quando é que estamos a ser manipulados em termos políticos, foi preciso de muita consciencialização.” Surge a telescola para adultos – que pretendia oferecer mais competências à população, o jornalismo e as reportagens que mostravam o que estava a acontecer pelo mundo.  

      O 25 de abril não se limita ao desencadeamento da revolução e da construção da democracia. De longe foi algo imediato. Este marco fez com que as pessoas pudessem pensar, marcar quais eram as suas opiniões, mesmo que estas se coloquem contra a liberdade, e partir, quando sentissem que o deveriam fazer. A palavra proibido começou a ser completamente posta de parte.

      Nas televisões começaram a surgir programas de cultura e de provocação cultural. Maria lembra-se peculiarmente de Mátria, de Natália Correia, deputada na assembleia, que tinha “um discurso provocador que achocalhava o pensamento das pessoas.” Atribuindo uma conotação feminina à palavra pátria, o programa procurava mostrar que, no decorrer dos séculos, as mulheres sempre estiveram ao lado da revolução, mas foram deixadas para segundo plano. Natália Correia “tentou sempre provocar de forma a forçar as mulheres a pensarem na sua condição e na sua igualdade no mundo.”

      Durante os anos que se seguem ao 25 de abril, tudo aquilo que tinha sido conquistado, foi uma abertura tremenda: “Foi tanto que era demais. Nós poderíamos ter vivido o 25 de abril de outra maneira? Eu acho que não.”

 

Artigo escrito por Mariana Serrano.

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