Black Lives Matter e “Portugal não é racista”

André Ventura, líder do CHEGA!, proclamou neste sábado, em cima de um palco móvel, no Terreiro do Paço, que “sempre que a esquerda sair à rua, nós saíremos a dobrar na semana seguinte”. 

A realidade desmente-o se considerarmos que a manifestação “Black Lives Matter“, realizada três semanas antes e alinhada à esquerda, tinha muito mais participantes. A diferença estimada é de quatro para um: cinco mil participantes na manifestação Black Lives Matter e à volta dos mil e duzentos na manifestação convocada pelo CHEGA!.

 

Black Lives Matter

Milhares de pessoas juntaram-se no dia 6 de junho para uma manifestação contra o racismo, acompanhando os protestos de escala global Black Lives Matter, em protesto contra a violência policial que matou o afro-americano George Floyd em Mineápolis, nos Estados Unidos da América.

Organizada por vários colectivos como o Black Lives Matter Portugal, o SOS Racismo, o coletivo Consciência Negra e a Brigada Estudantil, desde a Alameda D. Afonso Henriques até ao Terreiro do Paço, mais de cinco mil pessoas deram voz à luta anti-racista, por George Floyd, mas também pelas vidas negras em Portugal. 

Em tempos de pandemia, a máscara e a desinfeção das mãos foram obrigatórios e vários manifestantes distribuíram desinfetantes por quem não tinha. Ainda assim, a distância social mostrou-se difícil de manter.

 

As milhares de vozes jovens que percorreram várias ruas de Lisboa entoaram cânticos que se confirmavam nos cartazes que empunhavam: “I can’t breathe”, “Supremacia branca é o vírus”, “Não quero ter medo da PSP”. Os manifestantes pediram justiça, paz e o fim da violência policial, lembrando também o caso de violência recente contra Cláudia Simões e o caso de  Alcindo Monteiro, assassinado por um grupo de skinheads no Bairro Alto.

Na Rua Áurea, os milhares de manifestantes ajoelharam-se e cumpriram um minuto de silêncio por George Floyd. A manifestação foi desaguar ao Terreiro do Paço, onde se formaram grupos para falar ao microfone e personificar a luta contra o racismo, enquanto muitos ouviram e aplaudiram.

"Portugal não é racista"

André Ventura. Lisboa, 27 de junho de 2020 (João Pedro Morais/8ª Colina)

Como resposta à manifestação Black Lives Matter e à discussão mediática que gerou, André Ventura convocou, no dia 18 de junho, uma manifestação nas redes sociais, que juntaria milhares de pessoas para descer a Avenida da Liberdade com faixas onde se lia “Portugal Não é Racista” e “Minorias com Direitos e Deveres”. Se esses números não se confirmassem, André Ventura dizia-se preparado para “assumir os riscos políticos”.

Mário Machado, neonazi já condenado por vários crimes de ódio e discriminação racial, apelou, no dia 13 de junho,  a que “o universo patriota” saísse à rua para apoiar a manifestação do CHEGA!, vincando, no entanto, que “seria contraproducente (…) que existissem saudações de braço ao alto, cartazes ou símbolos que vão além daquilo que o CHEGA! defende”. Ventura afastou-se das declarações de Mário Machado, mas saiu à rua.

A 27 de junho, de faixa na mão, como prometeu, Ventura juntou cerca de mil e duzentas pessoas no Parque Eduardo VII, de onde partiram, até ao Terreiro do Paço. Ao longo da marcha entoaram-se frases como “Políticos elitistas, Portugal não é racista”, ou “Polícia bom é polícia vivo”, fazendo referência a um cartaz da manifestação anti-racista do dia 6, no qual se lia “Polícia bom é polícia morto”.

Enquanto uns se recusaram a falar com o 8ª Colina, outros manifestantes disseram que ali estavam “por Portugal e pelos portugueses”. Na maioria, os presentes eram militantes ou simpatizantes do partido CHEGA!, mas havia também quem se identificasse com outros partidos. Miguel, que exibia um boné vermelho com a conhecida frase “Make America Great Again”, considera-se simpatizante da Iniciativa Liberal, mas não deixou de querer marcar presença na marcha, pois também considera que Portugal não é racista.

Entre camisolas da seleção nacional, bandeiras, máscaras e t-shirts com o símbolo do partido CHEGA!, e adereços alusivos ao Movimento Zero, encontramos uma bandeira do PSD, hasteada por um conhecido macaense do Conselho Nacional do PSD, Vitório Cardoso, que elogia a ditadura de Salazar e a PIDE.

Numa mixórdia de slogans e faixas, os apoiantes do CHEGA! afirmaram que o “racismo é mediatismo”, que estavam fartos de “sustentar os subsídio-dependentes das minorias” e criticaram a classe política “corrupta e elitista” – sem entrar em grandes detalhes.

Desde cedo, não esteve bem vincado o objetivo desta manifestação: se alguma vez tentou ser uma manifestação para garantir que Portugal não é um país racista, esse objetivo foi-se perdendo pelo caminho até chegar ao Terreiro do Paço, onde um palco móvel montado por um apoiante do CHEGA! esperava Ventura.

Em cima do palco, na companhia de Maria Vieira e de outros dirigentes do CHEGA!, discursou em jeito de comício e reivindicou a rua: “Sempre que a esquerda sair à rua, nós saíremos a dobrar na semana seguinte”. Proclamou-se o herdeiro de Sá Carneiro num Portugal “orgulhoso da nossa História”, “fiel ao nosso povo e ao nosso legado”.

Segundo o comissário da PSP Artur Serafim, houve cerca de 100 a 150 elementos da polícia no terreno e apenas se registaram dois incidentes de menor gravidade por parte de pessoas que não pertenciam à manifestação. 

Um dos "incidentes". Um contra-manifestante, que ridicularizava os apoiantes do CHEGA! com a figura de Hitler. Foram trocados insultos. (João Pedro Morais/8ª Colina)

Não foram milhares e o tema “racismo” ficou esquecido: as vozes do Terreiro glorificaram André Ventura – que diz estar “numa missão de Deus” -, agora candidato à Presidência da República. “Nas urnas não me deixarão sozinho”, disse várias vezes.

Gostaste deste artigo? Partilha-o!

Scroll to Top