Borja Echevarría: “O jornalista deve conversar com os leitores”

«Não sei porque é que me convidaram para vir falar de financiamento, quando o meu projecto acabou com um funeral. É uma coisa mais americana, gostar de falhados». Foi assim que Borja Echevarría, actual subdirector do El País – o diário mais lido de Espanha -, se referiu ao convite para vir à conferência O Regresso do Jornalismo falar de formas de financiar o jornalismo online. Echevarría relembrava o projecto digital soitu.es, que acabou por se tornar inviável, mas a sua carreira fez-se, a bem dizer, de sucessos, desde que começou a trabalhar em 1995 no El Mundo.
O que é que é preciso saber sobre a carreira do jornalista? O malfadado soitu.es, uma plataforma noticiosa digital, recebeu dois prémios da Online News Association. O subdirector do El País foi também líder do processo de conversão ao digital do jornal, sendo actualmente este o diário hispânico online mais visitado. Echevarría é, este ano, um Nieman Berkman Fellow, o que significa que foi escolhido pela universidade de Harvard para fazer pesquisa na área da inovação no jornalismo.
Quem é que falou de insucesso? Vamos à entrevista em pergunta-resposta:

Em primeiro lugar, falemos um pouco acerca do seu projeto soitu.es, que chegou a um fim prematuro. Pedro Alzaga, jornalista do diário espanhol ABC, disse que neste caso os investidores não tinham, infelizmente, apostado na qualidade. Há espaço para uma mudança de mentalidade no sentido de se investir na área digital? E vale a pena o esforço? Que formas de financiamento tentaria obter hoje, atendendo ao que aprendeu com esta experiência?

No ano em que fundámos o soitu.es, a equipa vinha toda de um jornal tradicional, o El Mundo, e estávamos a atravessar um momento diferente. Em 2007 havia um boom económico forte, havia muito dinheiro a circular em Espanha, e foi bastante fácil – até demasiado – conseguir dinheiro, através das vias tradicionais, para que o projeto nascesse. Um banco muito grande, o BBVA, perguntou-nos o que íamos fazer e declarou que nos daria o dinheiro. Nós vínhamos de um projeto com muito êxito na Internet, o projeto do El Mundo, e se calhar toda essa facilidade não nos ajudou muito. Penso que hoje em dia seria absolutamente impossível que isto acontecesse, que um banco nos desse a quantia de dinheiro que nos foi dada na altura. Gosto muito de alguns projetos que estão a começar pouco a pouco, através de crowdfunding ou da angariação de sócios. Espanha não é um país de fundações; é muito diferente do que acontece nos EUA. Por isso, é preciso dimensionar muito bem o que se faz. O soitu acabava por ser um meio generalista e, embora o ponto de vista fosse semelhante ao de uma revista, sem informação de última hora – tentávamos que todas as histórias estivessem muito trabalhadas, com um ângulo diferente –, não deixava de o ser. Num meio generalista, ou há gente de muito talento, muita experiência e com exclusivos, ou é difícil marcar a diferença. Hoje em dia procuraria um nicho, um espaço mais reduzido para começar. Parece-me interessante, neste momento, procurar um sócio tecnológico que compreenda este novo mundo, um Jeff Bezos espanhol que ajudasse a montar um projeto. Não teria de ser o Jeff Bezos nem de ter tantos milhões, mas que viesse desse mundo, da tecnologia, de empresas que estão fora do jornalismo mas que podem acrescentar um valor de negócio e contribuir com uma compreensão do leitor que nós não possuímos.

Pegando num tema que já abordou – o da ditadura da atualidade que hoje se vive, sobretudo no online –, pensa que é possível fazer-se bom jornalismo, com espaço para a reflexão e a análise, fora do jornalismo impresso?

Sim, totalmente. Aliás, não só acredito nisso como também creio que essa é a única saída. Não estou a falar de renunciar à atualidade; estou a falar de não querer cobrir toda a atualidade e de ser mais seletivo em relação aos temas a abordar, de ter em conta onde se pode acrescentar valor ao ecossistema informativo. Quando sentimos que a história a que achamos interesse e que queremos cobrir não vai ganhar um valor que outros ainda não lhe tenham acrescentado, não vale a pena abordá-la. Também o jornalismo digital deve colocar-se nesse espaço que não está tão saturado.

O soitu.es também se distinguia por não se deixar cair no sensacionalismo. Há uma dependência daquilo que choca e vende para haver uma sustentabilidade destes meios?

Acho que há quem esteja a cair nessa tentação com demasiada facilidade. Quem acredite que isso conduz ao êxito, a uma adesão muito forte, e, no fundo, os meios que escolhem esse caminho vão, na sua maioria, acabar por desaparecer, porque esta é uma estratégia a curto-prazo. Penso que há caminhos muito mais interessantes para encontrar as audiências. Aqui, o difícil é ser inteligente. Toda a gente fazer a mesma coisa, sendo estúpidos, é muito fácil. Ser estúpido é muito simples.

Outro aspeto que distingue o campo digital é a interatividade e a ligação que se estabelece com o público. Parece-me interessante uma citação sua em que afirma que o jornalista deve “dialogar, escutar e não ser arrogante”. Se nivelarmos esta relação entre o jornalista e o leitor não corremos o risco de deslegitimar e banalizar o jornalismo como profissão?

Quando digo que o jornalista deve conversar com os leitores, que devem estar no mesmo nível, quero dizer que o jornalista tem de ter muita humildade. Não me parece que a autoridade da voz do jornalista se perca dessa forma. Acho que a autoridade, na vida e no jornalismo, se ganha por outros caminhos. Não sou uma autoridade por estar num púlpito a ditar uma doutrina; posso ter a mesma autoridade indo ao terreno, dialogando com as pessoas de forma natural. Isto é possível porque se representa uma espécie de certificado sobre a atualidade que outras pessoas não podem oferecer, já que não se dedicam a isso, não são profissionais, não têm tempo nem competências para o fazer. Não têm uma empresa por trás que lhes pague para se dedicarem a isso. A autoridade não advém de nos colocarmos num lugar mais elevado e de gritarmos mais alto.

O projeto de conversão do El País ao formato digital foi liderado por si. O que acha que teria acontecido ao jornal se este tivesse assumido uma atitude arrogante e não se tivesse sabido adaptar? Se se tivesse recusado a atualizar-se?

O El País foi arrogante – e durante muito tempo! O El País, o El Mundo, o New York Times… Qualquer pessoa com êxito, em geral, tende à arrogância. Há sempre a tentação de se ser arrogante quando se está no topo. Os meios tradicionais ganharam muito dinheiro nos últimos trinta anos e tiveram muito poder e muita influência em países como Espanha e, provavelmente, Portugal, que estavam a transitar de uma ditadura. Estes meios viram-se, de repente, com uma voz muito forte na sociedade: as pessoas ouviam-nos, tinham muita influência sobre os políticos… Inevitavelmente, isto gera um nível crescente de arrogância, mas acredito que estamos a tempo de o corrigir.

Qual é o balanço que faz deste processo de transição no El País? O que falta fazer e melhorar?

Falta-nos muito, porque este processo nunca vai parar. Entrámos num processo de transição que vai durar muitos anos e, provavelmente, nunca estará concluído, nunca se chegará ao nível de estabilidade que tinham antigamente os jornais. Se compararmos jornais das décadas de 1960 e 1990, vemos que os seus formatos e estruturas, as suas organizações internas, tudo é muito semelhante. Não obstante, na Internet tudo isto muda permanentemente. Hoje nasce o Twitter, amanhã nasce um novo meio tecnológico para vídeos… Quando tecnologia deste nível entra na equação, as transformações são imparáveis. Nós estamos a fazer um esforço por manter a essência do que é a profissão, transformando-nos. Ao mesmo tempo, não podemos ficar para trás. Fazemos o melhor que podemos, numa altura em que não há assim tantos recursos. Também é difícil encontrar talento e gente que compreenda este mundo. Há que ter uma atitude diferente, ser inovador, tentar, corrigir. E, se as coisas não funcionarem, deitá-las para o lixo com o cuidado de não danificar a imagem de marca do meio.

Considera-se muitas vezes o jornalismo online um parente pobre, ou menos nobre, do jornalismo impresso. Contudo, disse numa entrevista que é um erro as universidades incluírem o jornalismo digital como mera opção no plano curricular do curso de jornalismo, dado que considera que hoje “todo o jornalismo deve ser digital”. Há futuro para quem não se adaptar?

Eu penso que este é o futuro. Não quero confundir as coisas; quando digo que todo o jornalismo deve ser digital, no fundo estou apenas a dizer que todo o jornalismo deve girar à volta dos conteúdos. O problema é que o impresso condiciona muito. Condiciona os ritmos, o tamanho… O mundo do digital consegue que as histórias fluam naturalmente. Não estão tão condicionadas por todos esses fatores. Tudo flui de uma forma mais natural, e por isso mesmo digo que tudo deveria ser digital.

Por Mariana Lima

Imagem por Andreia Calhau

TEMAS RELACIONADOS

Como fazer “el cambio”?
À procura das perguntas certas
O exclusivo continua a ser a nossa melhor arma
Ao encontro de Paul Salopek
A história do jornalista total
Josh Hammer – O Outro Ângulo
Descrever o mundo a partir do detalhe
O que a Mídia NINJA faz é jornalismo?
O regresso do Jornalismo

Gostaste deste artigo? Partilha-o!

Leave a Comment

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Scroll to Top