Brasil elege agora o voto do futuro?

Mais de 147 milhões de brasileiros foram às urnas em 2020, no mês de novembro, para decidir o futuro de 5.569 cidades. Neste ano, elegeram-se os prefeitos (presidentes das câmaras) e os vereadores, que constituem as assembleias legislativas de cada município.

Dados do Tribunal Superior Eleitoral indicam uma evolução de 2,66% no número de eleitores em relação ao ano de 2018, quando foram realizadas as últimas eleições estaduais e nacionais.

Os mais de 147 milhões de brasileiros que foram às urnas em 2020 correspondem ao 4.º maior contingente eleitoral do mundo. Destes, mais de 133 milhões têm de votar obrigatoriamente, por lei. Mesmo com a pandemia, o número de eleitores com biometria registada aumentou: em 2018, eram de cerca de 76% do eleitorado; atualmente, já há biometria coletada de 79,5% dos eleitores.

Barómetro do povo

Uma vez que as eleições municipais tiveram lugar a meio dos mandatos dos atuais governos estaduais e do governo federal, os resultados deste ato eleitoral são vistos como um barómetro para o que virá a acontecer em 2022, altura em que os brasileiros  voltarão às urnas para eleger – ou reeleger – os seus representantes nessa escala mais ampla.

Uma reeleição “dependerá muito de como serão os próximos dois anos de governo”. É o que afirma Carolina Pavese, licenciada em Direito pela Universidade Estácio de Sá, e estudante de pós-graduação na área do Direito Internacional. Com 24 anos, já participou em quatro eleições – duas estaduais e federais, e duas municipais, no Rio de Janeiro, cidade onde sempre residiu.

“Não há culpa do governo na crise que se instalou atualmente no país, causada pela pandemia. Os próximos anos serão primordiais para a reeleição do presidente. Creio que, se ele fizer um bom governo, as chances de reeleição serão altas, pois boa parte da população ainda tende para o conservadorismo.”

A realidade que preocupa o atual governo federal, porém, é que, entre os 13 candidatos municipais apoiados por Bolsonaro, apenas dois saíram vitoriosos. Entre eles está Mão Santa, do Partido Democrata, de centro-direita, eleito com mais de 68% dos votos em Parnaíba, a segunda cidade mais populosa do estado do Piauí, no nordeste brasileiro. Também venceu nessas eleições Gustavo Nunes, do Partido Social Liberal (partido a que pertenceu o presidente), eleito na cidade de Ipatinga, em Minas Gerais.

O que o país observa é uma realidade diferente da das eleições municipais anteriores, e mesmo das estaduais e federais de 2018, quando Bolsonaro foi eleito. “O fenómeno não se repete. Uma parte significativa dos estados brasileiros elegeu candidatos que não foram apoiados pelo presidente, apesar de não ter sido por unanimidade”, conta Carolina. Na sua cidade, Rio de Janeiro, o prefeito Marcelo Crivella, eleito em 2016 com apoio do presidente, não conseguiu a reeleição. Crivella recebeu novamente apoio de Bolsonaro, mas desta vez esse apoio traduziu-se em lives feitas diretamente do Palácio da Alvorada pelo presidente.

Nesses diretos feitos através das redes sociais, Bolsonaro também indicou 45 vereadores, dos quais 31 acabaram como suplentes. Entre os 10 eleitos está Carlos Bolsonaro, filho do presidente e vereador no Rio de Janeiro por mais um mandato.

O Rio de Janeiro do próximo janeiro

Foto retirada da página de Facebook de Eduardo Paes

No primeiro dia de janeiro, Eduardo Paes tomará posse. O carioca, que foi prefeito entre 2009 e 2017, volta para mais um mandato. Em 2018, Paes chegou a candidatar-se para o cargo de governador, tendo perdido para Wilson Witzel.

Nas eleições municipais de 2020, Crivella teve 21,9% dos votos na primeira volta, disputando a segunda com o seu antecessor, Eduardo Paes, que obteve cerca de 37%. Qualquer voto em Crivella é, entretanto, visto por uma boa parcela dos cariocas com indignação. O prefeito apresentou-se às eleições tendo 62% da população a acreditar que a sua gestão era má ou péssima, de acordo com a Datafolha. Nos quatro anos que esteve no governo, enfrentou duas tentativas de impeachment.

Carolina aponta que o motivo para Crivella ainda ser opção entre alguns eleitores, e ter estado próximo da reeleição, está relacionado com os valores conservadores a que ele apelou durante a campanha: “O apoio recebido por Crivella nas urnas pela maioria dos seus eleitores esteve ligado às questões ideológicas que ele apoia, e não ao que esses eleitores achavam da sua gestão da cidade do Rio. A má gestão de Crivella ficou evidenciada durante os seus anos de governo, e é notória pelo estado em que a cidade se encontra atualmente.”

O Crivella que obteve alguma aprovação nas urnas é o mesmo que se encontra afastado do cargo, atualmente impossibilitado de exercer os seus últimos dias como prefeito carioca. Carolina afirma, porém, que situações como esta já não espantam: “Não surpreende mais a população um candidato indo a extremos como o Crivella foi. Para alguém de fora do Rio de Janeiro, eu explicaria dizendo que os seus votos e apoio não foram por opção, mas sim pela falta de um outro candidato que estivesse alinhado com os ideais apoiados por Crivella, mas que se mostrasse honesto e bom gestor.”

Paes é eleito na segunda volta, tendo tido mais de 67% dos votos e ganhando em todas as zonas eleitorais cariocas. O feito também é recebido com alguma incredulidade pelos cariocas, que enfrentaram problemas durante a sua gestão: “Os mandatos do Eduardo Paes se deram ao mesmo tempo de duas figuras políticas condenadas e presas após escândalos de corrupção: Sérgio Cabral, que foi governador do estado por dois mandatos, e o ex-presidente Lula”, explica Carolina.

O voto que Paes recebe, indica Carolina, por vezes não reflete um apoio pleno à sua candidatura: “O facto de ele ter gerido a cidade ao mesmo tempo que eles [Cabral e Lula], e de estar sendo investigado, também por corrupção, gerou a desconfiança da população. Muitos votaram nele por falta de opção.” Na segunda volta, como reconheceu o próprio candidato, Eduardo Paes recebeu apoio da oposição e de outros candidatos acima de tudo graças a um efeito de rejeição da gestão de Crivella: “Independente das forças políticas que foram às urnas nos apoiar, da esquerda, direita e centro, foi um não contundente a um governo reacionário que tomou conta do Rio”, declarou Paes no seu discurso de vitória.

Renovar, unir e rejeitar

 

Paes também afirmou, no seu discurso, tratar-se de um momento para “unir a cidade”. Entre os vereadores eleitos para a sua Assembleia Legislativa, não há muitas surpresas, afirma Carolina: “Os resultados foram os que se esperava. O que se percebia era uma rejeição bem grande ao Crivella. A ALERJ [Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro] conta com muitos deputados de esquerda. Logo, a não eleição do Crivella foi algo favorável para eles”.

O vereador mais votado do Rio de Janeiro foi Tarcísico Motta, do PSOL (Partido Socialismo e Liberdade), que se encontra à esquerda no espectro político brasileiro. Mas, no fundo, observa Carolina, as escolhas dos eleitores do Rio de Janeiro não mudaram muito: “Acho que o carioca mantém escolhas conservadoras, por não votar em candidatos novos na política. Ainda há muitos votos em políticos de carreira que, na maioria das vezes, não dão retorno de seus mandatos em termos de melhorias para o povo. É preciso renovar a política carioca para mudar esse cenário de descaso.”

Essa renovação começa a sentir-se em São Paulo, onde a esquerda trouxe uma nova opção à prefeitura da capital. Guilherme Boulos (PSOL) perdeu na segunda volta, com 40,62%, face aos mais de 59% de Bruno Covas, do PSDB – partido do atual governador, João Dória.

A estratégia, diz Carolina, é clara: “O Boulos é visto por muitos como um rosto novo, para justamente renovar a cara da esquerda no país, que antes tinha o Lula como principal representante e que teve a sua imagem desgastada, principalmente pela sua prisão. A estratégia da esquerda foi naturalmente a renovação da sua imagem. E o movimento da direita será de enfrentamento a isso, talvez com a vinda de um rosto novo também.”

Do lado de lá, no maior colégio eleitoral do país, a realidade é diferente. Com mais de 33 milhões de eleitores, estando só na capital cerca de 8,7 milhões, a relação com a política é outra: “O paulista com certeza tem mais confiança no seu governo do que o carioca, tendo em vista o histórico de corrupção que assolou a cidade. Eles têm um cenário bem mais favorável do que o do Rio de Janeiro. São Paulo se desenvolveu, enquanto no Rio temos a sensação de que parámos no tempo.”

Foto de capa:  Sebastião Moreira / EPA/LUSA

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