Cabine de Leitura: partilha e cidadania em cada página

Vertical, aparentemente antiga e com as quatro faces em vidro. Acrescentando a berrante cor vermelha que a cobre, compõe a imagem típica de uma cabine telefónica britânica, e a verdade é que está localizada na Praça de Londres – mas em Lisboa. No entanto, é outro o aspeto que causa mais estranheza nos transeuntes. O interior da cabine está atulhado de… livros. Confuso? Na verdade, esta antiga cabine telefónica é uma microbiblioteca e funciona de forma colaborativa e sustentável.

A iniciativa chama-se Cabine de Leitura e a premissa do seu funcionamento é simples: “levar, doar, ler e devolver”. A dinâmica do projeto depende, assim, do contributo dos leitores, que oferecem variedade e rotatividade aos livros desta minibiblioteca. No fundo, é “um projeto de paixão, cidadania e proximidade”, confessa Carlos Moura-Carvalho, o pai e criador da primeira cabine deste género em Lisboa.

A Cabine de Leitura nasceu em 2014 e foi inaugurada a 23 de abril, no dia mundial do livro. O projeto é fruto de um esforço conjunto entre a Fundação Portugal Telecom (agora Altice) e a Bairro em Movimento, uma associação de comerciantes integrada por Carlos Moura-Carvalho. Este tipo de projeto já existe noutros países e isso serviu de inspiração para uma iniciativa que desde o seu início visou “a intervenção social através do incentivo à leitura, fomentando a partilha de sensações e experiências de leitura”, reforça o pai da Cabine.

(XAVIER COSTA/8ª COLINA)

Ainda aquando da sua inauguração, as autoras da reconhecida coleção infantojuvenil “Uma Aventura”, Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, foram convidadas para serem as madrinhas da Cabine. “Algo certamente original”, acrescenta Carlos Moura-Carvalho. A cabine em si é antiga – remonta ao ano de 1910 -, mas foi escolhida a dedo para esta inovadora função: “Achámos engraçado que fosse uma cabine vermelha na Praça de Londres”, afirma o criador do projeto, esclarecendo a curiosa coincidência.

Desde clássicos da literatura e banda desenhada a romances contemporâneos e livros infantis, são vários os autores representados, uns mais conhecidos e outros prontos a serem descobertos. Tudo isto cabe na particular e apertada cabine. Os livros têm em comum o facto de serem obras sem dono fixo, que, ao invés de estarem presas numa estante pessoal, andam de mão em mão, a ser folheadas por Lisboa, ou mais longe – quem sabe?

Os leitores escolhem um livro da Cabine, deixando outro no seu lugar, e comprometem-se a regressar para o devolver e continuar a corrente. Sem multas ou burocracias, a Cabine rege-se unicamente pela confiança. Contudo, esta liberdade já causou alguns dissabores. Em dezembro do ano passado, a Cabine foi vandalizada e assaltada. “Roubaram uma data de livros. Algo bárbaro”, conta Carlos Moura-Carvalho. No entanto, a cidadania falou mais alto e a Cabine recebeu a doação de centenas de livros.

(XAVIER COSTA/8º COLINA)

Ainda assim, o criador do projeto destaca outro episódio como o mais especial: “Durante uns meses, tínhamos um leitor assíduo que era um sem-abrigo aqui do bairro. Ele vinha, levava alguns livros e devolvia-os sempre. Era uma situação que nos emocionava muito.” As portas da Cabine e da literatura estão assim escancaradas para todos. A confiança, a partilha e a cidadania são os únicos métodos de pagamento.

Contudo, o funcionamento pleno da iniciativa é garantido também pelo útil labor dos dez voluntários que, consoante a sua disponibilidade e sem esperar qualquer recompensa, abrem esta pequena biblioteca à comunidade. Nesse seu tempo livre, vestem a pele de bibliotecários e aconselham os mais curiosos, até porque “há sempre alguém que pergunta qualquer coisa”, e neste processo trocam-se “impressões e sugestões de parte a parte”, acrescenta o criador da iniciativa.

O momento de pausa que a leitura proporciona é algo ousado no nosso tempo. A Cabine busca expandir os efeitos positivos desse atrevimento, transformando algo tão pessoal como a leitura numa experiência coletiva que, de forma criativa, oferece essa proximidade real entre leitor e “bibliotecário”. Para Carlos Moura-Carvalho, a Cabine é a materialização de um interesse pessoal em forma de intervenção social, pois segundo o mesmo “precisamos cada vez mais destas pequenas coisas que nos dão prazer na vida e que podemos acionar quando precisamos.”

(XAVIER COSTA/8ª COLINA)
(XAVIER COSTA/8º COLINA)

A Cabine de Leitura é uma microbiblioteca, mas é grande o suficiente para todos aqueles que são movidos pela curiosidade, independentemente da idade. Desde os miúdos que, repentinamente, “lá entram para ler um livro” até aos mais idosos que “passam praticamente todos os dias na Cabine porque devoram os livros em 24 horas.” Um consumo sem moderação que não prejudica os consumidores – muito pelo contrário. Aliás, a Cabine também beneficia com isso porque são esses ávidos leitores que “oferecem grande dinâmica aos livros e acabam por se tornar nos maiores críticos do projeto”, conta, entre sorrisos, o criador da Cabine.

Apesar da sua antiguidade, a Cabine conta com uma forte presença nas redes sociais, algo essencial nos dias de hoje para “atrair as pessoas à iniciativa e promover os eventos que são organizados para dinamizar a zona.” Algo corroborado pela Fundação Altice, que refere que projetos desta índole “pretendem animar o espaço urbano, estimular a criatividade e aproximar as populações à arte e à cultura em geral”. Um exemplo disso foi o Festival Literário “Abecedário”, que se realizou pela primeira vez em março deste ano e no qual a Cabine foi peça central.

Para finalizar este capítulo, Carlos Moura-Carvalho deixa duas recomendações literárias: “Anjos e Demónios”, de Dan Brown, e, obviamente, o livro “Uma Aventura nas férias da Páscoa”, da autoria das madrinhas da Cabine. Estão ambos disponíveis entre as abarrotadas estantes da Cabine de Leitura… pelo menos por agora, até que alguém decida dar-lhes outro paradeiro.

As Cabines de Leitura podem ser encontradas um pouco por toda a cidade de Lisboa. (BEATRIZ CASA BRANCA/8º COLINA)

Gostaste deste artigo? Partilha-o!

Scroll to Top