“Cada Vez Mais Pelos Animais”

“Vamos dar voz aos que sentem como nós”, gritaram centenas de manifestantes durante a Marcha pelos Direitos dos Animais, que decorreu em Lisboa no passado dia 14 de setembro 

Organizada pelos ativistas da Ação Direta e pela Vegans For Love, a Marcha pelos Direitos dos Animais levou a causa da libertação animal dos Restauradores às portas da Assembleia da República. Assim chega a Portugal um movimento que começou em Londres, em 2016, por ação da Surge – uma organização britânica que disseminou, por mais de 20 capitais mundiais, o apelo ao fim da opressão animal.

(MICHELLE COELHO / 8ª COLINA)

Antes da concentração da marcha, a praça dos Restauradores foi palco do Cubo da Verdade, uma ação promovida pelos Anonymous for the Voiceless, com o intuito de sensibilizar as pessoas que por ali passavam. Lado a lado, aproximadamente 70 voluntários – os cubers – seguravam tablets, televisores e outros aparelhos que mostravam imagens chocantes dos processos de produção da indústria agropecuária.

(ANA NARCISO / 8ª COLINA)

Para além destes, compunham o movimento os reachers, voluntários que procuravam conversar com as pessoas que passavam pelo cubo e informá-las sobre a opressão animal e sobre o que é o veganismo. Também assistiam os cubers em relação a qualquer necessidade que pudesse surgir, sobretudo considerando o peso dos aparelhos que estes seguravam e a intensidade do calor.
Uma das ativistas responsáveis pela organização esta manifestação, Márcia Augusto, afirmou, no seu discurso de abertura: “Ser uma organização vegan significa que, em ações como a do Cubo da Verdade, nós só promovemos o veganismo. Nada abaixo disso. Compreendemos que o reducionismo significa um passo na direção do veganismo.”
Esta ação pela consciencialização do público civil reuniu membros de outros núcleos portugueses da Anonymous for the Voiceless, bem como congregou, num dia de sol intenso, pessoas das mais variadas idades, dispostas a manter a formação do cubo com as suas roupas pretas e máscaras do V de Vingança

“Todas as formas abaixo do veganismo ainda compactuam com formas de exploração animal e financiam-nas – e esse nunca pode ser o nosso objetivo.”

Márcia Augusto

“O que nós queremos? Direitos para os animais.”

Juntaram-se à marcha mais de 500 pessoas, afirma a Ação Direta. A concentração começou por volta das 15 horas, e logo tomou conta do Monumento dos Restauradores, onde a Ritmos de Resistência entoava algumas das frases que seriam repetidas ao longo da tarde.

(ANA NARCISO / 8ª COLINA)

Uma miríade de cartazes e de grupos diferentes ocupou uma das faixas de circulação automóvel, sempre resguardados por agentes da polícia e membros das organizações responsáveis.

Todo aquele movimento fez com que os turistas que por ali passavam deixassem de fotografar os edifícios que rodeiam a praça e se virassem para os ativistas, que, de pulmões abertos, gritavam palavras que muitos não percebiam, mas sentiam.

“A nossa luta é todo o dia. Os animais não são mercadoria.”

Quando abordados acerca da transição para o estilo de vida vegan, alguns dos presentes declaram que a maior dificuldade que tiveram foi em termos culturais. Letícia, de 18 anos, afirma que a decisão surpreendeu os pais e os colegas: “Acharam que eu estava a ser muito radical. Mas, em termos de alimentação, foi muito rápido. Consegui desligar facilmente.”
Noutras famílias, porém, o estilo de vida vegan abrange todas as gerações. Laura, de 43 anos, leva consigo na marcha os filhos pequenos, que sempre conheceram este modo de alimentação. “Pode ser uma dieta mais saudável, sim, pelo facto de excluir os laticínios e a carne. Já é um ponto a favor para a saúde. Depende, entretanto, dos cuidados de cada um.”

“Se for uma questão do que é mais conveniente ou do que é mais saudável, eu acho que se torna mais fácil desistir de ser vegan. Se for uma questão de valores e de tomada de consciência dos efeitos que as nossas escolhas têm, acredito que é difícil retroceder no processo.”

Laura
Banda "Ritmos de Resistência" (ANA NARCISO / 8ª COLINA)

Mais à frente encontramos Matias, o percussionista da Ritmos de Resistência. Sobre a sua mudança para o veganismo, Matias afirma que “o primeiro passo é a educação. Não podemos acreditar que ser vegan é estar malnutrido. Não está certo. Mas é fundamental adquirir informação prévia antes de começar este tipo de dieta.”

“O mais importante é dizer às pessoas que isto se pode fazer sem perder saúde – uma preocupação que é, a meu ver, algo que faz com que muitos não se juntem a esta causa.”

Matias

Aos 28 anos, veio de Espanha para Portugal para estudar cá. Admite ter ficado surpreendido quando viu que as cantinas da Universidade de Lisboa disponibilizam comida macrobiótica. Reconhece que, sobretudo em questões tão quotidianas quanto a alimentação, ainda há muita resistência à causa dos direitos dos animais: “No que toca aos hábitos diários, o assunto torna-se mais complicado. Esta parte requer que se façam sacrifícios, e muitos não querem sair da zona de conforto.”
Filipa tem 18 anos e afirma que a transição para o veganismo foi a coisa mais fácil que já fez na sua vida. Diz que se trata de uma dieta acessível: “Os alimentos mais baratos nos supermercados costumam ser, por exemplo, grãos e legumes.” A partir de produtos como esses, adapta as receitas dos pratos que tradicionalmente fazem parte das refeições.

 

“Direitos para os animais são fundamentais”

(ANA NARCISO / 8ª COLNA)

O que começou com cerca de 2500 pessoas numa manifestação pelo fim da opressão animal em Londres, em 2016, atualmente consiste num movimento que abrange capitais mundiais tanto no Ocidente como no Oriente.
A perceção geral que se tem acerca do assunto, porém, ainda precisa de evoluir –quem o diz é o organizador da marcha em Lisboa e membro da Ação Direta José Alberto Oliveira. “Os direitos dos animais nem chegam a ser um tabu. É um assunto no qual as pessoas nem sequer pensam. É algo que não cabe na cabeça delas. Portanto, é necessário abrir a mente às pessoas para que elas possam perceber que os animais também devem ter direitos.

“A transição é cultural. A dieta é uma consequência e é a coisa mais simples do mundo. A pessoa depois vai agir de acordo com os seus novos pensamentos.”

José Alberto Oliveira

A Ação Direta, em conjunto com a Vegans For Love, disponibilizou cartazes e distribuiu flyers para que o grupo falasse a uma só voz. A mensagem mantinha o objetivo de causar a reflexão e não o de pressionar o público à mudança, apesar da urgência que se atribui à transição para o veganismo: “Quando nós queremos? Agora!”

Para José Alberto Oliveira, o cerne da questão reside num tratamento igualitário entre homens e animais: “O importante é perceber que o ser humano não tem de estar no topo da pirâmide, mas que podemos todos estar ao mesmo nível que os animais. Essa perceção é algo difícil, por razões culturais, religiosas e pela própria indústria, que tem um peso enorme na comunicação.”
“Se a maioria da população mundial fizesse a transição para o estilo de vida vegan, os impactos sentidos economicamente seriam prósperos e trariam novas oportunidades”, afirma José Alberto Oliveira. “O ambiente iria melhorar e a Terra iria produzir muito mais do que aquilo que produz agora. A questão é converter as profissões e atividades para o novo mundo. Já não podemos fugir dele.”

(MICHELLE COELHO / 8ª COLINA)

Também estiveram presentes na marcha membros do PAN. Tesoureiro Nacional do PAN e Membro da Comissão Política, Artur Alfama reiterou que esta mudança começa na educação. “As pessoas precisam de começar a fazer alguma coisa juntamente com as autarquias e com o Governo – não no sentido de obrigar as pessoas à mudança, mas de as sensibilizar acerca das alternativas a certos produtos. Se complementarmos isto com uma penalização, em termos económicos, aos que são mais poluidores, inevitavelmente faremos esta transição, e mais rapidamente do que estamos a fazer.”

“Hoje qualquer pessoa consegue fazer uma alimentação isenta de produtos de origem animal sem que tenha carências, ao contrário do que aquilo que se diz. Há um lobby muito forte ligado ao setor da agropecuária, que pretende exatamente que este paradigma não se altere.”

Artur Alfama

Durval Salema, deputado municipal do PAN no Barreiro, acredita que o uso de animais para fins alimentares e a sua utilização para fins recreativos irão estagnar ao mesmo tempo. “Queremos acreditar que as touradas certamente serão abolidas no próximo ciclo legislativo e não haverá muito mais a fazer relativamente a isso. Em relação ao setor leiteiro ou das carnes, entre outros, acho que o processo acontecerá em simultâneo, porque as pessoas percebem que o sofrimento animal que é produzido para um fim [o do entretenimento] também é produzido para outro fim [o da alimentação].

Artur Alfama complementa: “Se o mercado funcionasse como a direita muitas vezes defende e não fossem atribuídos subsídios para o setor da agropecuária e para o setor tauromáquico, provavelmente todas estas atividades estariam extintas ou estariam a definhar. Mas, se forem alimentadas artificialmente pelos lobbies que estão infiltrados desde a esquerda à direita, a atividade destes setores continua a sobreviver com estes balões de oxigénio.”

Para Artur Alfama, a solução é voltar às nossas origens: “Mesmo as pessoas em situações mais desfavorecidas perderam o hábito de ir aos mercados locais. Temos neles muita produção biológica a preços acessíveis. Hoje recorremos muito aos centros comerciais e às cadeias de fast food, que tem efeitos desastrosos sobre a saúde. Portanto, se retornamos um pouco àquilo que são as nossas origens, teremos mais facilidade em lá chegar.”

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