Cancro também é uma boa punchline

E se um cancro conseguisse esgotar a sala principal do Cinema São Jorge? Rir pode não ser sempre o melhor remédio, mas, já que vamos todos para lá, ajuda a ter uma viagem mais prazerosa até à campa

Agosto de 2017, Irlanda do Norte. Tiago André Alves é diagnosticado com cancro. Dentro das reações plausíveis estariam talvez: chorar, pedir ajuda a Deus, chorar mais. Se é para acabar, tem de ser em grande, porque para o Tiago não há nada melhor do que uma boa punchline – em stand-up comedy e na vida.

A reação espontânea foi fazer as malas e voltar a Portugal. No dia seguinte, ainda na viagem de regresso, já delineava um evento único em Portugal (e provavelmente no mundo) – um roast ao seu cancro. No mundo da comédia, um roast baseia-se em juntar um conjunto de comediantes, que fazem piadas agressivas sobre o alvo do roast – normalmente é uma personalidade em concreto, neste caso o alvo era o cancro do Tiago. No fim, o alvo tem o direito de retribuir o amor que lhe deram durante o espetáculo, com mais piadas agressivas.

Os comediantes convidados (da esquerda para a direita) Dário Guerreiro, Guilherme Duarte, Diogo Miguel, Rita Camarneiro, Carlos Vidal, Diogo Batáguas e Diogo Faro. (Ana Marta Ferreira)

21 de março de 2018, Cinema São Jorge em Lisboa. Uma sala lotada viu o Tiago a ser homenageado – porque um roast também é um gesto de apreciação – e, assim, fez-se história na comédia nacional.  Além do mais, os cerca de seis mil euros angariados através do espetáculo vão ser doados ao Instituto Português de Oncologia.

Carlos Vidal, Dário Guerreiro, Diogo Batáguas, Diogo Faro, Diogo Miguel, Guilherme Duarte, Guilherme Fonseca e Rita Camarneiro foram os comediantes que marcaram presença e fizeram questão de humilhar decentemente o cancro do Tiago.

Tiago André Alves teve a sua “vingança” no final do roast, como é habitual neste formato. (Ana Marta Ferreira)

Dezembro de 2018. Cerca de 1 ano e cinco meses depois de lhe darem 2 anos de vida, o Tiago faz aquilo de que gosta. É animador 3D de profissão, já o seu prognóstico “não é nada animador” – é o que diz Guilherme Fonseca numa das suas intervenções. De facto, a doença transformou a vida do Tiago, mas também para melhor. Está cada vez mais dentro do panorama da comédia: é agente de Guilherme Fonseca e ajudou a produzir os espetáculos de comédia “Roda Bota Fora”, que já tem novas datas agendadas para o próximo ano. É animador perceber que, tal como uma piada, o cancro nem sempre significa aquilo que parece significar.

Tal como referiu Guilherme Duarte, um dos comediantes presentes no roast, “uma piada sobre sapatos pode ser fraca, uma piada sobre cancro tem de ser boa: primeiro, porque quem sofre dele merece um esforço adicional da parte de quem faz piadas; depois, porque o cancro merece que lhe esfreguemos na cara que nos pode levar pessoas queridas ou o cabelo, mas que não nos pode levar a alegria e vontade de rir.” E o Tiago está cá para nos assegurar de isso mesmo – se é para morrer, que seja a rir.

Ouça um excerto inédito do roast “Morrer a Rir” e da entrevista de Tiago André Alves ao podcast “Humor À Primeira Vista“.

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