Candidatos jovens: Uma nova visão do mundo político português

A Série Juventude traz três reportagens sobre como os jovens se envolvem na política. Desde apartidários, passando pelas juventudes, até aos jovens autarcas que concorrem nestas eleições.

Contrariando a tendência das eleições autárquicas anteriores, que têm sido uma luta de poder entre políticos experientes, em 2021, uma nova geração está a emergir no panorama eleitoral. Tanto em candidaturas às câmaras municipais como às assembleias municipais e às assembleias de freguesia, rostos jovens aparecem por todo o país e com forte sentido de intervenção. Através de um conjunto de entrevistas, o 8.ª Colina procurou saber mais sobre quem são e o que os move nas eleições autárquicas de 2021.

“A política não deve ser objetivo, mas um sentido de missão”

Sem medo de desafiar o perfil tradicional de um autarca, os jovens candidatos mostram-se confiantes em assumir a responsabilidade de zelar pela localidade. A diversidade de áreas de formação e ideologias políticas distanciam os vários entrevistados. No entanto, unem-se numa perspetiva comum, na qual partilham o interesse pela política e um sentido de dever cívico.

A ação dos jovens na política surgiu muitas vezes nos seus trajetos de vida sem planeamento prévio. À medida que se consciencializavam do mundo que os rodeia, perceberam que podiam fazer parte da solução. Pelo menos, é o que confessa Marcos Gomes, 24 anos, candidato à Câmara Municipal de Santarém pela Iniciativa Liberal (IL): “Nunca pensei em ter uma intervenção na vida política. Isso nunca foi, para mim, um objetivo. Até porque acredito que a política não deve ser objetivo, mas um sentido de missão.”

Cartaz de campanha de Marcos Gomes // Imagem cedida pelo candidato

No mesmo sentido, Linda Assunção, de apenas 18 anos, sempre se interessou por política e acabou por aceitar o convite do Bloco de Esquerda para ser a candidata nº6 à Câmara Municipal de Évora. A jovem viu nesta oportunidade uma forma de conseguir melhorar a vida da população local e prevê que a sua envolvência no âmbito eleitoral se continue a reger por motivações idênticas. “Os cargos a que me for candidatando no futuro serão escolhidos conforme aquilo pelo qual quero lutar no momento, e não por querer assumir uma posição política”, assume.  

“O sistema não está minimamente preparado para receber ideias de pessoas independentes e com pensamento livre”

A atitude interventiva destaca-se do padrão que marca a atualidade da juventude em Portugal. Surge, no quadro político, uma série de entraves à envolvência prematura dos adolescentes nas questões da sociedade. João Carlos Gomes, cabeça de lista da IL à Assembleia Municipal de Santarém, desabafa sobre a forma como “os jovens têm interesse pela política, mas não têm interesse pelos partidos”, salientando que “não têm projetos que os atraiam”. 

O caminho que leva os jovens à participação política passa, na grande maioria dos casos, a ser impedido quando afastados dos partidos. “A democracia está dependente de máquinas partidárias”, afirma Mário Amaro, candidato à Câmara Municipal de Alenquer pela coligação “Fazer Cumprir Alenquer”, composta pelo CDS- PP, Nós Cidadãos, Movimento Partido da Terra (MPT), Aliança e Partido Popular Monárquico (PPM).

Mário Amaro, candidato à Câmara Municipal de Alenquer //Imagem cedida pelo candidato

O jovem candidato do CDS é licenciado em Engenharia Aeroespacial e partilha da ideia de que é necessário investir na participação independente para que os cidadãos possam ter um contacto mais direto com a política, sem que seja necessário estarem presos a uma ideologia. “O sistema não está minimamente preparado para receber ideias de pessoas independentes e com pensamento livre”. Assim sendo, considera que “ é natural que os jovens se sintam impotentes na ação política”.

“Atualmente, temos falta de literacia financeira, de literacia política e de literacia de cidadania.”

Preocupados com o futuro, refletem sobre as possíveis formas de combater o afastamento dos jovens em relação aos assuntos políticos. Neste sentido, é, muitas vezes, enfatizada a preponderância do ensino para potenciar o envolvimento dos jovens na política. André Xavier, 19 anos, é candidato pelo Bloco de Esquerda à Câmara Municipal de Bragança e deixa clara a sua posição sobre o tema: “Os jovens saem do 12º ano sem saber conceitos de esquerda e direita, sem conhecer o funcionamento das instituições, sem uma orientação política. É algo extremamente grave e que tem de ser resolvido através da educação.” Sugere, inclusive, a adição de uma disciplina obrigatória de Ciência Política ao currículo das escolas.

Também com 19 anos, Pedro Neto Monteiro está a candidatar-se à Junta de Freguesia do Beato e destaca igualmente a força da educação para aproximar os mais novos ao mundo da política: “O sistema de ensino poderia ter uma variante que estimulasse os jovens a pensar sobre os assuntos da política. Não que os orientasse para qualquer área, ideal ou partido, mas que lhes estimulasse o pensamento.”

João Carlos Gomes, candidato à Assembleia Municipal de Santarém // Imagem cedida pelo candidato

Para os jovens candidatos, ter menos experiência no ramo não significa que levam as eleições com menos seriedade ou sentido de compromisso. “A responsabilidade é igual para todos os candidatos, porque têm de responder aos problemas de toda a população e não só de uma faixa etária especifica”, acrescenta o liberal. Mesmo em relação aos adversários políticos, os candidatos referem não estar a sentir um tratamento diferenciado.

Para além da responsabilidade para com os munícipes, propõem-se a assumir a missão de preservar a democracia. No discurso, deixam a ideia determinada de procurar combater aqueles que consideram ser os principais inimigos da democracia, como é o caso da abstenção, da iliteracia e da desinformação.

Capa por Joana Melo

Revisto por  Bruno Boaventura 

Scroll to Top
0 Shares
Share via
Copy link
Powered by Social Snap