Cavalete: “Com a água do banho foi embora o bebé."

A revolução do cravos torna as Belas Artes numa fonte de contestação. António Macedo, aos 18, vê a mudança nas artes como o partir da sua paixão. Necessita de procurar por uma nova oportunidade.

      A arte em Portugal era pouco procurada, todos os que dela queriam fazer vida tinham de apostar no estudo das Belas Artes no liceu. António era estudante quando se deu o 25 de abril, pintava e esculpia. No entanto, no momento político vivido o interesse estava “mais na participação cívica dos artistas e intervenientes do que propriamente na arte.”

      As belas artes eram um meio de “pessoas do contra”. Durante uma fase, os estudantes procuravam estar aliadas aos objetivos da revolução. Iam para ações de rua e deram-se passagens administrativas. Falava-se muito da repressão “que havia contra as manifestações”, das cargas da GNR, “tudo o que fazia parte do nosso quotidiano.” O artista não se envolvia muito “por não ter grande interesse políticos à altura.” Sentiu que, nas artes, “se deixou de trabalhar”. O abandono da pintura de cavalete “ia contra o que era o meu objetivo nas belas artes. Deixou de se aprender desenho. Deixou de se aprender pintura.”

 

      O seu interesse estava sobretudo tudo no Figurativismo e “esse género de arte deixou de ser ensinado cá em Portugal, pura e simplesmente, quando saíram um ou outro professor da antiga guarda. Deixou de se ensinar. Ponto Final.” O país foi a reboque de uma certa classe de intelectuais que saíam do país, mas que não se criava uma dimensão ou vocação para ser culturalmente independente. A partir de uma certa altura, o que o cativava na arte “tinha sido posto em xeque”. Com a liberdade, acabaram por se desfazer das raízes artísticas: “Aqui morreu tudo. Com a água do banho, foi fora o bebé.”

 

      Na “inocência dos 19 anos” acaba por decidir ir para Inglaterra, “tentar a sorte por lá”, em 1975. Vinha de uma “família protegida” e “não tinha a mínima ideia do que o mundo era”. Foi como se “tivesse sido atirado de paraquedas no meio da lua” Fugiu de um percurso mais académico em terras londrinas. “No início fiz alguns biscates para me sustentar.” Depois, até se conseguir sustentar da própria pintura, aprendeu o restauro de pintura, teve “a chance de adquirir o conhecimento sobre pigmentos e telas, por trabalhar próximo de grandes artistas.”

António Macedo, em 1975, em Gloucester Road, South Kensington, Londres, onde morava na altura.

A aprendizagem foi quase como começar do zero lá, muito à base da experiência. Um caminho percorrido sozinho, convivia com coleções de arte onde “está o melhor que há no mundo inteiro”. Crê que aquilo que aprendeu só poderia ter aprendido no estrangeiro. “Em Portugal era o São João batista a pregar no deserto. Era um contra todos.” Em Inglaterra, o surgimento de artistas de vanguarda não “extinguiu” os que trabalhavam na pintura figurativa. Na sua vida, tudo o que fez, estava de alguma forma ligado o máximo possível da pintura, até que se conseguisse sustentar pela venda das próprias obras artísticas. Nunca fez outra coisa na vida.

      À distância, acompanhou pontualmente a construção de um estado democrático, quando vinha de férias: “Sabia o que tinha sido antes, vi a evolução da sociedade portuguesa a caminho de uma democracia. As pessoas ainda não estavam totalmente cientes, não tinham maturidade política num primeiro momento.” Os comportamentos dos indivíduos foram-se reconstruindo: “As pessoas habituaram-se a reclamar, a colocar os seus pontos de vista, a ter de aceitar que havia partidos políticos que vão totalmente contra a sua maneira de ver no tempo.” Viu a democracia chegar com a distância de um cenário que apenas a  liberdade conquistada com a revolução concedeu.  

 

Artigo escrito por Mariana Serrano.

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