Chile toma conta da Plaza Itália

ALBERTO VALDES/EPA

Santiago, no Chile, combina prospeção de crescimento económico com disparidades sociais. A capital tem sido palco de protestos desde o dia 17 de outubro deste ano, quando um aumento de 3,75% nas tarifas de transportes públicos levou estudantes do ensino secundário às ruas. Devido à forte repressão com que estes se depararam, o movimento tomou uma maior dimensão.

No dia 25 deste mês, 1.2 milhões de chilenos reuniram-se na Plaza Itália. O aumentodas tarifas, porém, foi apenas “o ponto de ebulição de uma situação que está ‘ao lume’ há já vários anos”. É o que afirma Rui Teixeira, aluno de mestrado em Ciência Política, que considera crucial o facto de ser a juventude a desencadear os acontecimentos: “Os jovens chilenos – tendo já uma noção de que o seu futuro passa pelo endividamento para estudar, por trabalhos mal remunerados, por dificuldade em encontrar casa e por serviços públicos deficitários – saíram às ruas de forma espontânea.”

O país teve, ao longo das últimas décadas, uma evolução económica e financeira positiva, que o levou de ser um dos mais pobres da América Latina para uma posição de referência em desenvolvimento. Mas a realidade social não reflete a mesma estabilidade: de acordo com estatísticas do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD),apenas 1% dos chilenos concentram 33% de toda a riqueza do país.

Rui Teixeira afirma que as manifestações a que assistimos neste ano não são novidade em território chileno. Já em 2006 e 2011, ocorreram protestos estudantis de larga escala,perante os quaiso governo respondeu com algumas concessões às exigências feitas e com repressão policial nas ruas.

Os movimentos atuais, porém, destacam-se dos anterioresem alguns aspetos, nomeadamente por poderem ter no horizonte a promessa de uma nova constituição: “Os protestos destas semanas podem significar para todos os chilenos o culminar de um processo de rejeição da Constituição de Pinochet, que tem vindo a ser conduzido desde o retorno da democracia, na década de 1990.”

Pela complexidade do processo e pelo tempo que este pode levar, Rui Teixeira afirma que é difícil prever qual será o resultado final. Mas acredita que é possível vermos, em 2022, uma constituição que consolide as 13 alterações realizadas ao documento de 1980 e que, seguindo a linha destas, esteja mais inclinada à esquerda.

Artigo escrito por: Michelle Coelho

Fotografia de capa: Alberto Valdes / EPA

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