Ser uma pessoa gorda não tem, necessariamente, de estar associado a uma perspetiva negativa. Andreia, Bruna e Fernanda são três mulheres que, através das redes sociais, pretendem deixar de lado os padrões de beleza impostos pela sociedade. “É possível amarem-se” é a mensagem que cada uma pretende transmitir diariamente.

Adotado por algumas marcas nas suas campanhas publicitárias, o conceito de body positive surge para combater os padrões de beleza impostos pela sociedade. A ideia refere-se à descoberta de aspetos positivos em cada tipo de corpo e à luta para deixar de lado os estereótipos que definem socialmente aquilo que é “bonito” ou “feio”. 

Associadas ao conceito de body positive estão também algumas figuras públicas, como Alexandra Gurgel. Formada em Jornalismo, a Xanda, como é conhecida pelos seus seguidores, é uma referência nos temas do feminismo, body positive e gordofobia. No Brasil, fundou o “#CorpoLivre”, um movimento que visa a desconstrução do padrão que define aquilo que é um corpo perfeito.

Andreia Miguel, Bruna Daniella e Fernanda Brito são três exemplos de mulheres gordas que todos os dias espalham amor-próprio pela sociedade e lutam pelo processo de aceitação que se faz continuamente. Através das redes sociais, partilham o caminho que percorreram até se sentirem felizes com o seu corpo XL, com o objetivo de serem uma inspiração e ajudarem outras mulheres. 

Concurso de Miss Plus Size

Andreia Miguel, de 32 anos, e Fernanda Brito, de 31, entraram no mundo da moda plus size através de um desfile organizado por um espaço comercial de roupa das Caldas da Rainha que pretendia promover a loja de tamanhos grandes. Surgiram outras oportunidades e, em fevereiro de 2020, as duas jovens acabaram por se cruzar com Bruna Daniella, num concurso para eleger a Miss e o Mister Plus Size. Viver uma experiência como esta acabou por não corresponder às expectativas de Andreia, que, todos os dias, luta para não ser olhada com estranheza. “Fui incoerente, pois, se defendo o facto de nos termos de aceitar como somos, não fazia sentido entrar numa competição destas”, explica a jovem.

Andreia, através do seu perfil no Instagram, promove o amor-próprio e a aceitação da diferença

No final do concurso, a jovem ouviu um júri dizer que ela merecia ganhar, mas que o seu corpo não vendia: “O que me fez decidir não concorrer mais foi a comparação que existe entre mulheres. Existe obrigatoriamente uma validação do corpo, pois é isso que é avaliado. Não acho isso correto.” A opinião é partilhada por Fernanda Brito: “Por um lado, acho que estes eventos são bons porque são pioneiros para este meio. No entanto, o concurso despertou coisas em mim que me desagradaram e que eu não quero repetir. Não gostei da competição. Saí de lá a sentir que tinha sido comparada a outras pessoas e esta era uma coisa que já estava resolvida em mim. É por este aspeto que digo que não o faria de novo.”

Olhando para trás, Fernanda refere que a parte gratificante da experiência foi ter conhecido pessoas como ela: “O melhor foi ter-me relacionado com mulheres que passam pelo mesmo que eu, que são iguais a mim. Estávamos juntas a dar a mão e ninguém queria competir com ninguém.” Já para Bruna Daniella, o concurso significou uma superação pessoal, dado que passou a se sentir “uma pessoa bastante mais segura”.

Fernanda Brito, que sempre foi gorda, vê o Instagram como uma forma de reforçar a sua autoestima.

Projeto fotográfico Real

A paixão que Bruna Daniella sente por fotografia acabou por dar origem ao projeto Real. A fotógrafa de 25 anos percebeu que a imagem corporal é, na maioria das vezes, algo que as pessoas tentavam alterar. Neste sentido, considera incorreta a alteração das imperfeições dos retratados na fotografia, como a remoção da celulite ou das estrias numa mulher. Bruna sempre foi gorda e durante muito tempo teve problemas com essa caraterística. “Odiava cada parte do meu corpo e, como passei por aquilo por que aquelas mulheres estão a passar, acho que a alteração de imagem é errada”, explica. No entanto, apesar de não o fazer, sabe que “cada fotógrafo é um autor e a arte de um não tem de ser, obrigatoriamente, a arte do outro”. 

Bruna é fotógrafa e quer marcar a diferença através de fotografias que se aproximem o mais possível da realidade.

“Mulheres reais, momentos reais e corpo reais” é o principal conceito do projeto, que já deu os primeiros passos. A jovem considera que “a experiência fotográfica também tem de ser positiva para a modelo, que deve sair da sessão muito mais segura e feliz consigo própria”. O projeto Real não se foca só em mulheres gordas – o objetivo é retratar diferentes tipos de mulheres.

Espalhar amor-próprio nas redes sociais

Com a criação de um perfil de Instagram, Fernanda Brito, que sempre foi gorda, acabou por reforçar a sua autoestima. O Instagram tornou-se no meio através do qual a jovem manicure ajuda e é ajudada no combate às suas inseguranças: “Não tenho o Instagram para ser uma estrela. Tenho-o porque também me ajuda.” Fernanda procura que o seu feed reflita aquilo que ela é, evitando seguir pessoas com estilos de vida e corpos totalmente diferentes dos seus. Através do seu feed, sempre repleto de mulheres com corpos parecidas com os da jovem, Fernanda percebeu que “há beleza mesmo nos corpos que se encontram fora do padrão”. À semelhança de Fernanda, Andreia usa as redes sociais para “ser uma pessoa que ajuda outras mulheres que precisem de chegar à conclusão de que é possível amarem-se”. 

Foi igualmente através da Internet que Bruna conheceu várias pessoas que estavam ligadas aos conceitos de self-love e body positive. A partir daí, começou a querer entender o porquê de estas mulheres aceitarem o seu corpo tal como ele é.

A exposição das três nas redes sociais nem sempre tem o impacto mais positivo e esperado. Andreia descobriu que existem muitos homens que têm fetichismo por mulheres roliças. São várias as mensagens que recebe com solicitações e até fotografias impróprias. Bruna também reconhece este problema: “Não há respeito pela imagem de uma mulher gorda. Uns admiram-nos, outros fazem de nós fetiches. Às vezes, não tenho vontade de publicar as fotografias que tiro para, de certa forma, proteger as mulheres que fotografo. Já tenho bloqueado alguns homens.”

Num post de um grupo de saúde no Facebook, Andreia já foi acusada de ser um perigo para a sociedade. A mulher, de 32 anos, tem a consciência de que a obesidade é uma doença que se deve combater. No entanto, tendo essa realidade presente, explica que os seus conteúdos nas redes sociais não são realizados com o intuito de promover o excesso de peso. “Defendo, sim, que uma pessoa deve ser aceite independentemente da forma física que apresente”, sublinha.

Lutar contra o preconceito

Formada na área bancária, Andreia Miguel nunca conseguiu trabalhar no atendimento ao público de um banco devido ao peso que tem. Recorda-se especialmente de um episódio que ocorreu durante uma entrevista de emprego para uma instituição bancária conhecida. Mesmo tendo passado em todos os testes, o representante do banco recusou-se a continuar a entrevista. “Deu-me um papel com um número de telefone, explicou-me que era o número de um ginásio e que, quando eu tivesse a aparência certa para estar atrás de um balcão, ele teria todo o gosto em voltar a conversar comigo. São estas as pequenas coisas com as quais nos vamos deparando no dia a dia. Há momentos em não causam mossa nenhuma; há outros em que provocam a maior do mundo”, conta.

Após uma lesão que fez o seu corpo mudar drasticamente, a jovem lamenta não ter tido ninguém que a valorizasse por aquilo que ela era e não pela sua aparência: “Se já criava limitações a mim mesma, eu não precisava de pessoas que criassem ainda mais. Mas sei que essas pessoas nunca o fizeram por mal. A minha família nunca fez por mal.” A jovem lembra que a mãe sempre lhe disse que gorda nunca chegaria a lado nenhum, crescendo com a ideia de que nunca seria ninguém enquanto tivesse excesso de peso. Andreia Miguel acabou por travar uma luta consigo própria, mas que foi sendo posta de lado. 

O preconceito estético também foi sentido por Fernanda Brito. “Sofri muita pressão, e não só estética. Como cresci num ambiente muito religioso, tive muita pressão para esconder o meu corpo porque ele era grande e chamava muito a atenção”, recorda. Durante a primeira relação, a jovem manicure também a sentiu por parte do companheiro, que a rebaixava constantemente – questionava-a sobre o seu corpo e incentivava-a a fazer dietas, criticando-a quando estas não surtiam efeito.

No entender de Bruna Daniella, as pessoas têm a ideia errada de que, quando as pessoas começam a namorar ou se casam, o problema da autoestima acaba. A jovem de 25 anos acrescenta que, quando começou a namorar, se tornou ainda mais insegura: “A única coisa que eu via era que era gorda e que não tinha mais nada para lhe dar. Perguntei-lhe várias vezes por que é que ele queria namorar comigo se eu era gorda.”

A descriminação passa por pormenores tão simples como a escolha de palavras que as pessoas fazem para se referirem a alguém com excesso de peso. Andreia explica que “um gordo que não se aceita tem problemas em utilizar a própria palavra ‘gordo”, acrescentando que “a maioria das pessoas utiliza diminutivos para se referir a uma pessoa gorda”. Para a jovem, esses diminutivos são, inconscientemente, criados para esbater a carga negativa que a palavra “gordo” não tem de ter. Esta é uma luta que muitas mulheres travam, tanto a nível pessoal como numa sociedade onde Andreia, Bruna e Fernanda dizem ser urgente acabar com os estereótipos. No entanto, concluem que esta ainda está longe de ser uma batalha vencida, apesar de o caminho já estar a ser percorrido.

Capa: Simão Pereira/8ª COLINA

Todas as fotografias foram cedidas pelas entrevistadas

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