Crónica de um bom malandro

        Inspirado num grupo de rufias com que se cruzava nos cafés do Bairro Alto, quando saía do jornal “O Século” a altas horas da noite, o jornalista Mário Zambujal escreveu, em 1980, um dos mais divertidos best-sellers da literatura nacional. O livro é o relato da vida atribulada de gente simples, mas que, apesar do fundo bom, sobrevivia graças a ‘esquemas’ ilícitos. Carlos Bento, mais conhecido por Canota, poderia ser uma das personagens de “Crónica dos Bons Malandros”. No entanto, por pequenos crimes que diz ter cometido, passou meia vida atrás das grades. Hoje, longe da prisão e já com 65 anos, ainda continua a acreditar que a sua história pode ter um final feliz


Reportagem de Mariana Coelho

O 13 de maio assinala várias efemérides, tais como a declaração da posse do Vaticano pelo Papa (1871), a abolição da escravatura no Brasil (1888) e a aparição da Virgem Maria, em Fátima, a três pastorinhos (1917). No mesmo dia, em 1954, nascia Carlos Bento. Ao divulgar a sua data de nascimento, faz um gesto circular com a mão, por cima da cabeça, para simular uma auréola, dada a conotação religiosa do dia. No entanto, a vida de Canota, como é conhecido, tem sido tudo menos santa.

O abandono é a sua primeira memória. Quando tinha pouco mais de dois anos, a mãe, Maria da Luz, abandonou a casa, deixando o bebé com o pai, Diamantino. “O meu pai dizia que a culpa era dela, que andava com o porteiro do prédio, mas ela dizia que o pai é que era culpado”, lembra Canota, que, até hoje, não sabe a quem deve apontar o dedo. Nenhuma das madrastas que o pai arranjou para ‘cuidar’ de Canota conseguiu preencher o lugar da figura materna que tanto lhe faltou. “Não me tratavam bem. Batiam-me. Adoravam o meu pai, mas eu não era filho delas”, revela.

 

Ainda assim, não eram as únicas más da fita. O pai sucumbiu ao vício do álcool e tornou-se agressivo. “Nunca vi o meu pai beber um copo de água. Só vinho. Já sabia que ele vinha atravessado quando metia a chave à porta”, recorda Canota, na altura uma criança. A frase “O saco está a encher. Quando rebentar…” ficou para sempre gravada na sua memória. “E, quando rebentava, parecia que estava a bater num homem, e eu com 9 ou 10 anos.” Ao levantar a camisola, mostra a costela partida que nunca lhe permitirá esquecer o mau vinho do progenitor.

Crescer num ambiente disfuncional surtiu efeitos irreparáveis no percurso de Canota. Concluída a 4.ª classe, acabou por seguir as pisadas do pai, tornando-se canalizador. Depois de conseguir emprego em Sines, uma visita mudaria o seu rumo para sempre. Um grupo de amigos da sua infância na Amadora foi ao seu encontro e, segundo conta, desviou-o do seu caminho. O bando realizou uma série de assaltos a moradias locais e não saiu impune. Começa aqui a nova realidade de Canota: a vida atrás das grades.

Em 66 anos de existência, passou mais de um terço na prisão. No total, esteve 24 anos e sete meses privado de liberdade. A primeira sentença, de quase cinco anos, foi castigo pelos furtos. Todas as restantes estiveram correlacionadas com droga. Estreou-se neste mundo ao consumir erva, no rescaldo do 25 de Abril de 1974. Os retornados das ex-colónias regressaram à Pátria de malas feitas. Traziam consigo a modernidade, novos negócios, costumes e, segundo Canota, “substâncias ilícitas”.

Alguns dos narcóticos viajavam escondidos em equipamentos da Campingaz. Foi com erva (ou ‘liamba’, como lhe chama) que Canota inaugurou a sua jornada pela toxicodependência. Ao contar o sucedido, não esconde o entusiasmo que sentiu quando transcendeu. A partir daí, experimentou ‘tudo’.

O Portugal pós-ditadura, finalmente de portas abertas à inovação, não estava munido de uma legislação capaz de enfrentar o problema das drogas duras. Com o aumento exponencial do consumo e, consequentemente, das doenças infecciosas, iniciou-se um braço de ferro entre o Governo e aqueles que, aos seus olhos, não passavam de criminosos. Só a partir do novo século foi adotada uma estratégia que perceciona os consumidores enquanto alguém afetado por uma doença.

Em 1987, Canota foi preso por comprar um ‘sabonete de haxixe’. Acredita ter sido denunciado, pois, certo dia, chegou a casa e tinha a Polícia Judiciária à sua espera. E porque mais vale prevenir do que remediar, bateu três vezes na porta, sinal que tinha combinado com a companheira para quando ‘houvesse brasa’. Conseguiu livrar-se da droga, mas de pouco ou nada adiantou.

Acredita ter sido vítima da guerra contra as drogas: “Fui levado por essa caça. Seria impossível ter mais de 20 anos lá dentro por droga, ninharias de nada.” Esta campanha, levada originalmente a cabo pelos Estados Unidos, visava reduzir o narcotráfico. O presidente Nixon, ao intitulá-las “inimigo público número um”, iniciou uma cruzada anti-drogas, perpetuada pelo casal Reagan. Tidas como uma ameaça para a segurança nacional do país, motivaram uma política de repressão da produção, distribuição e do consumo.

Com mágoa e orgulho, recorda a tortura de que foi alvo. “Espancaram-me. Puseram-me num armário. Mas eu não me abri”, afirma, com um sorriso rebelde nos lábios. Vê na sua resistência uma vitória. A boca da sua mulher, que também ‘levou tareia’, permaneceu um túmulo. Ambos cumpriram pena, deixando os filhos pequenos desamparados. “Fui preso à convicção, sem provas. Levei oito anos e meio em Sintra por crime de tráfico. E ainda uma multa de 300 e tal contos”, revela Canota, acerca de uma das muitas vezes em que foi preso graças à droga.

Na tentativa de justificar o seu percurso, explica que não teve “a criação mais adequada”. Canota não se abre muito quanto ao tempo que passou na prisão, como se de um código de honra se tratasse. Fala superficialmente de facadas, suicídios por enforcamento e dos assassínios de colegas.

 

Quanto à violência, declara ter brigado somente uma vez. Roubaram-lhe a fruta e os cigarros que a mulher trouxera numa das visitas. Revoltado, quando encontrou os culpados, decidiu fazer justiça pelas próprias mãos. “A partir daí, resolvi tudo através da conversa e da inteligência”, esclarece. Abdicou do ‘mano-a-mano’ quando entendeu o poder do diálogo, um trunfo na vida prisional, segundo o ex-recluso, que, lá dentro, diz ter chegado a incorporar o papel de psicólogo para os demais.

A sua cultura geral espantava aqueles que o rodeavam, tal como os resultados que obtinha durante as aulas. Estas serviam para desenvolver as aptidões dos reclusos. Canota descobriu o gosto pela aprendizagem, que trouxe consigo quando saiu.

Encarcerado, Canota serviu-se não só do paleio, como do seu jeito com os canos. Parte da canalização do Estabelecimento Prisional de Alcoentre, o primeiro no qual cumpriu pena, é obra sua. Por conhecer a tubagem melhor que ninguém, foi consecutivamente transferido de volta para esta prisão, a mando do diretor. “Todos estes anos, nunca tive direito a liberdade condicional à pala disso”, expressa, de punhos cerrados. “Não vi os meus filhos crescer. Nos anos deles, não estava presente. No nascimento dos meus netos, não estava presente; no batizado deles também não. Nem nos Natais. É uma dor do caneco.” O primeiro filho de Canota, João Paulo, cresceu com o avô. O pai estava atrás das grades quando a mãe lhes virou as costas. 

Certo dia, o diretor da prisão mandou chamar Canota para lhe transmitir a notícia de que, aos 31 anos, João Paulo se tinha suicidado. “O meu filho matou-se enquanto eu estava lá dentro. Isso é doloroso.” O silêncio paira no ar quando constatamos que, no meio de tantas palavras existentes na língua portuguesa, nenhuma parece adequada.

A segunda mulher foi quem esteve mais tempo a seu lado. Três filhos nasceram da cumplicidade entre ambos. Duas meninas e um rapaz. Este último, como se de uma tradição se tratasse, saiu ao pai e ao avô. Hoje, é canalizador. O sorriso torto de Canota aparece quando afirma que já é avô. A trilha de maus caminhos que percorreu ao longo da vida é resultado de uma infância conturbada, de uma adolescência desamparada e de uma vida adulta em aflição. As bocas que não se alimentavam sozinhas foram força suficiente. Ainda que de uma forma questionável, Canota sustentou a família como pôde. Todos os crimes que cometeu foram para assegurar a sua sobrevivência e quase cumpriu a pena máxima permitida em Portugal.

Na prisão, conseguiu concluir o 9º ano de escolaridade, mas pau que nasce torto tarde ou nunca se endireita. O círculo vicioso que sempre o esperou cá fora também não ajudou. Lá, continuou refém da adição. Também a companheira foi seduzida pelos vícios. Neste caso, encontrou refúgio na bebida. Ficava desfeito mais um matrimónio.

Em 2009, Canota despediu-se dos guardas prisionais e dos colegas exclamando que ia para a reforma e jurando nunca mais voltar. Até hoje, manteve a promessa.

Uma vez descriminalizado o consumo de estupefacientes em pequenas doses, segundo Canota, a única forma de regressar à cárcere é ser incriminado – “Só se me plantarem algo.” São nulas as saudades dos tempos que viveu enclausurado. “Não é só a vida que se tem lá dentro; é o que acontece cá fora. E os efeitos psicológicos”, tenta explicar, embora se trate de algo que o ser humano comum não consegue imaginar.

 

Entretanto, desenvolveu um novo hobbie. Encontrou na poesia a melhor forma de expressão.

Desde a primeira vez que pegou na caneta, soma já mais de três mil poemas da sua autoria. “Escrevo, porque me sinto sozinho”, desabafa. A panóplia de temas refletidos nos seus cadernos é infindável. “Tenho de passar isto para uma pen”, pensa, em voz alta, ao observar as suas obras, que pretende imortalizar.

Canota está por sua conta desde que Lurdes – nome fictício – desapareceu. Conheceram-se por acaso, num encontro que não era suposto ter acontecido. “Ela ficou louca por mim”, gaba-se, ao relembrar esta história de amor entre uma moça de 21 anos e um homem de 61. O semblante de Canota fica carregado à medida que desenvolve. No meio de toda a papelada que trouxe consigo está um documento que guarda religiosamente. Carimbado pelo Hospital Beatriz Ângelo, declara que Lurdes está grávida de três meses e meio. É um menino.

Os olhos de Canota refletem um misto de injustiça e de desespero. A amargura no seu tom de voz quando fala dos ex-sogros é evidente. Estamos longe de saber tudo o que se passou. Para ele, o casal influente foi o culpado pelo desfecho da situação. Com família em Angola, Lurdes foi em busca de novas oportunidades, fortemente apoiada pelos pais, que lhe compraram a passagem. Convidou Canota a juntar-se, mas, sem meios para tal, o mesmo ficou em terra. “Eu depois mando-te o bilhete” foi o compromisso que estabeleceram. Dez dias depois da despedida, Lurdes regressava e trazia consigo o paludismo que contraiu.

Em território nacional e agora devidamente precavida, chegou a hora de voltar para Angola. “Não vás. Eles querem separar-nos”, apelou Canota, sem sucesso.

 

“Eles mandaram-na para lá sem vacinas”, garante, sem conseguir esconder a expressão de nojo.

Otimista, a sua amada acreditava que tudo iria correr bem e que, não tarda, voltariam a estar juntos. O avião descolou. Foi a última vez que viu Lurdes. Desde então, nunca mais teve qualquer contacto com a suposta mãe do seu filho.

Atualmente, Lurdes terá 26 anos e a criança, tendo nascido, uma mão cheia. Quando se apercebeu de que não obtinha quaisquer respostas do outro continente, Canota foi pedir justificações àqueles que deveriam ser os avós do seu filho. Do outro lado da porta, apenas o desprezo na frase “Não há filho nenhum.”

O desgaste da idade é notório nas olheiras pesadas e nas mãos enrugadas de Canota. Considerando-se uma alma eternamente jovem, prefere acreditar – e fazer acreditar – que estagnou nos 50. Podemos encontrá-lo nos cafés a contar a sua história de vida. Não perde uma oportunidade de conversa. Em casa, onde vive sozinho, conta apenas com a companhia dos seus poetas. O “bom malandro” deixa claro que, apesar de não lhe faltarem pretendentes, recusa cada uma delas. Nenhuma poderá testemunhar a vista para o Palácio da Pena, pois esta está reservada: Canota tem esperança de que, um dia, Lurdes regresse e traga consigo o filho, a quem pretende dar o seu apelido.

 

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