Meretrizes Voadoras

Repare que todos nós enquanto seres humanos – espécie intelectualmente superior perante os restantes vermes que vagueiam pelo nosso mundo – tememos tudo o que seja pequenino.

Em primeiro lugar, repudiamos bichos. A espécie pouco interessa. Se é pequeno, tem nome estranho, e aspeto repugnante, nós, como conjunto de seres com células altamente especializadas, no topo da cadeia evolutiva, repudiamos.

Vou até ao ponto de dizer que arquitetamos planos minuciosos para assassinar essas indefesas formas de vida, e estas desafortunadas limitam-se a existir. Inventámos uma arma especializada em dilacerar e dizimar sem piedade espécimes voadores com estatura igual ao comprimento da unha do seu dedo mindinho: o mata-moscas. Nunca o ser humano criou algo tão específico e avançado com o intuito de exterminar algo tão insignificante.

O mata-moscas tornou-se um marco importante na história das invenções humanas – está ao nível da bomba atómica. Atualmente, representa a materialização da honestidade. O mata-moscas não mente. É a arma mais autêntica de todas, o que diz muito sobre o pouco respeito que nutrimos pelas moscas. Odiamo-las tão declaradamente que o objetivo do uso desta arma está no seu próprio nome. Granada é uma cidade em Espanha. AK-47 é, respetivamente, a segunda e terceira parte de uma matrícula. O mata-moscas mata mesmo moscas. Não tem tempo para part-times. Não se dedica a outras funções. Cumpre a sua promessa etimológica sem desiludir.

Infelizmente, apesar da sinceridade, falhamos redondamente em dignificar o seu bom nome. O seu mau uso por parte dos humanos levou à descredibilização do instrumento, que, cada vez mais, é visto como desnecessário. Rapidamente é substituído pelo que está mais à mão. Curiosamente, costuma ser a própria mão.

Os problemas ainda se estendem à nomenclatura. Chama-se mata-moscas, mas também o utilizamos para matar outros insetos igualmente invisíveis. Criámos a arma mais franca para não sermos francos na sua utilização. Usem as armas como deve ser: assassinemos, mas não “javardemos”.

Acredito piamente que isto é equivalente a usar uma pistola para matar uma joaninha, o que é estúpido a diversos níveis, não só pelo desperdício de munições, mas também porque as joaninhas têm bolinhas e são fofinhas. Ninguém quer matar uma joaninha. Por vezes até querem ir atrás das joaninhas. Agora uma mosca, que tem estatura e constituição semelhante, é repugnante porque … bolinhas.

Realço ainda o esforço físico que fazemos e a energia que despendemos para matar. Somos uns autênticos animais. Podemos estar deitados durante todo o dia, se vemos “algo” a voar só descansamos quando “algo e seus irmãos” estiverem todos ressequidos na parede, como se fossem fósseis, como se a nossa sanidade mental dependesse disso. E retiramos prazer da humilhação do nosso adversário, deixando, ocasionalmente, os restos esmagados dos insetos e das moscas na parede. Um museu onde observam os seus antepassados: “o teu primo morreu neste canto, a tua mãe está ali ao fundo e, não há forma fácil de dizer isto, mas estava com dois amigos do teu pai, que morreu mesmo ao lado a ver.”

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