De improviso em improviso, o dançarino que chegou ao Festival da Canção

Não tem formação em dança. Não tem nenhuma coreografia delineada quando sobe ao palco para interpretar, com o corpo, as músicas do seu amigo Tiago (ou Conan Osíris, como comummente é conhecido). Acompanhado da sua cadela, Margarida, João Reis discutiu o seu percurso, repleto de coincidências, espontaneidade e embaraços. Um percurso que, se tudo lhe correr bem no sábado, dia 2 de março, o pode levar a Tel-Aviv, para o festival da Eurovisão.

Talvez seja importante percebermos o que fazes com o Conan. Consideras-te dançarino, bailarino, coreógrafo, intérprete ou outra coisa?

Já me chamaram muitas coisas e acho que todas elas se adequam. A minha escola, aquilo em que me foco desde 2010, é teatro e performance. Dança era uma cena que fazia on my own. Comecei a dançar com o Tiago porque sempre dançámos juntos. Tínhamos essa partilha, esse interesse mútuo, por isso é que ele me pediu para fazer um espetáculo com ele, há um ano. Então o meu trabalho enquanto bailarino ganhou muito mais destaque do que o meu trabalho enquanto ator ou performer. Se me chamarem coreógrafo também está correto, porque vou ter o meu primeiro trabalho enquanto coreógrafo em maio, no Porto. Não me sinto coreógrafo porque nunca coreografei ninguém.

Então não és tu que fazes as coreografias que apresentas nos espetáculos com o Tiago?

Aí sou o meu próprio coreógrafo, sim! Ou não. Na verdade não, porque aquilo que eu faço não é coreografia. É muito mais improviso. Eu danço, e é uma coisa do momento. Nunca fiz dois espetáculos iguais. Há muito poucas coisas coreografadas. Na apresentação do festival da canção, só havia dois movimentos marcados: a queda do início e a parte da flecha. Aí pensámos “ok, nunca combinámos nada, por isso é melhor pensar em qualquer coisa para a televisão”.

Então ainda não sabes o que vais fazer na final?

Não faço ideia.

Tiago e João partiram esta quinta-feira para Portimão, onde será a final do Festival da Canção. Infelizmente, Margarida não fará parte da comitiva. (Beatriz Casa-Branca/8ª Colina)

Valorizas mais o teu trabalho enquanto ator, porque nessa área tiveste mesmo uma formação, ou enquanto dançarino?

Valorizo os dois: tenho saudades da construção de um espetáculo de teatro, porque é uma coisa que me interessa bué. Na dança, é uma coisa conceptual, só comigo. O teatro só funciona se for em conjunto. Com o Conan, é uma coisa mais pessoal; é uma coisa que acontece. É uma transformação de conceitos e de ritmos num corpo.

Comparado com os vossos outros espetáculos, o Festival da Canção é muito mais elaborado. Fatos, luz, maquilhagem, etc. Isso muda a forma como vocês se preparam?

Iá. Imagina: na fase inicial era só “vamos fazer este espetáculo, vou escolher a minha roupa em casa”. Agora há uma evolução: é óbvio que temos outro interesse na estética. Não pode ser “ok, estou a fazer isto e ‘tá-se bem”. Não, vai havendo transformações e vamos ficando cada vez mais contentes com o que fazemos. Tivemos a oportunidade de vestir as peças do Luís de Carvalho, de que gostámos bué e que faziam todo o sentido para a nossa apresentação, a nível conceptual, técnico, etc. Sempre que há meios, utilizamo-los para deixar o espetáculo mais de acordo com aquilo que nós queremos, porque no início não tínhamos tantas possibilidades: o cachê era diferente, as condições dos sítios que nos recebiam eram diferentes e nós tínhamos de ter jogo de cintura para nos contentarmos com aquilo que havia. Agora temos mais possibilidades, então vamos fazendo um espetáculo cada vez melhor.

E não sentiste pressão na primeira semifinal, por ser o Festival da Canção?

Para ser sincero, a primeira vez que eu vi a final da Eurovisão foi a semana passada. Vi a última, que aconteceu cá em Portugal. Nunca tinha visto. Só imagens do Festival da Canção de há bué anos, com a Simone a cantar a “Desfolhada”.

Não acompanhava o Festival da Canção. Era uma coisa que eu conhecia e respeitava, mas não seguia.

Mas sim, claro que senti pressão: foi a terceira coisa que fizemos para televisão. Sabia que iam estar bué pessoas a ver. Era algo muito mais importante, e era um espetáculo desenhado para ser brutal. Tinha de ser brutal. Não tinha, aliás: nós queríamos que fosse. Então eu estava nervoso, tipo “será que devia coreografar esta música, e ter a certeza absoluta do que quero fazer?”. Mas depois pensei “não, isso não sou eu. Vou fazer como sempre fiz. Quando as câmaras estiverem ligadas para Portugal inteiro, vai ser o que for”.

Como era o ambiente entre os artistas na semifinal?

Brutal. Perfeito, mesmo. Não houve nenhuma partícula de mau ambiente. Foi tudo bué coeso. Na segunda semifinal, a única pessoa que eu conhecia era a Surma, e o bailarino dela, o Guilherme. Na primeira semifinal não conhecia ninguém; só nos conhecemos nos ensaios. E as pessoas deram-se bué bem. A energia era superconstrutiva. Estávamos todos a fazer a mesma coisa, a dar aquilo que nós tínhamos, não só a Portugal, mas uns aos outros. O feeling não era de competição.

Agora que têm adquirido tanta fama, houve alguma coisa que tenha mudado no trabalho que realizas com o Tiago [Conan Osíris]?

Houve transformações. Vamos mudando, vamos evoluindo, vamos vivendo coisas que nunca tínhamos vivido. Em 24 horas tens não sei quantos seguidores novos no Instagram, vais a um evento que, embora não esteja muito ligado a ti, sabes que faz parte da história do teu país. De repente, estás na rua e não podes ser só tu. Tens de lidar com o facto de seres uma pessoa que muitas pessoas conhecem. E o nosso trabalho passou por várias fases, mas não há nada para que eu possa olhar e dizer “iá, isto mudou o nosso trabalho desta forma”. Cada etapa foi um crescimento; cada pessoa com quem nos cruzamos, cada espetáculo, cada live performance é uma cena que nos muda.

Dizes que te tens afastado dos comentários que recebem nas redes sociais. Mas que opiniões é que tens recebido de pessoas próximas?

Felizmente, só feedback positivo. E, mesmo nas redes sociais, a minha caixa de mensagens está sempre cheia. Acho que ainda não recebi nenhum comentário de hate. Às vezes há um ou outro comentário mais hateful, mas em mensagens diretas não há. Há conteúdo menos próprio. Há pessoas que exageram um bocado e mandam fotografias e não sei quê.  Mas de resto é só pessoas a dizerem que gostam, a dar bué support. Quem me vê na rua é só being supportive. Há aquelas pessoas que estão bué no mundo delas a mandar hate, mas a única forma de isso me chegar é quando alguém próximo de mim vê e me manda.

E já te aconteceu irem ter contigo na rua?

Sim. Na semana a seguir ao Festival foi too much. Foi desagradável. Houve um dia em que tive de ir à Baixa e foi demasiado. Mas agora já estou a lidar melhor com isso. As pessoas param na rua, falam comigo, apitam nos carros. Às vezes é um bocadinho caótico. Sinto-me melhor quando estou com os meus amigos, porque assim não estou tão aware do que está a acontecer à minha volta. Mas de resto está-se chill.

Nesse sentido, tens medo do vosso possível sucesso? Porque ainda te tornaria mais conhecido…

Não. Tenho bué confiança. Acho que vai correr tudo bem. Sei que vão acontecer coisas que eu preferia que não acontecessem. Se tu fores completamente abstrato para as pessoas vão sempre acontecer coisas que te magoam. E, ok, agora reconhecem a minha cara na rua e isso pode trazer algumas coisas más, mas não é esse o meu main focus. Não penso “o que é que me pode acontecer de mal, agora que a minha vida mudou?”. Penso “o que é que me pode acontecer de bom?”. Porque mal vai sempre acontecer, quaisquer que sejam as tuas decisões na vida.

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