Descrever o mundo a partir do detalhe

Contracapa. O bloco de notas chegou ao fim. As suas páginas, antes límpidas, imaculadas, estão agora saturadas da tinta da caneta. As folhas perderam o aprumo e tornaram-se um enrodilhado de rabiscos que se atropelam entre linhas no papel. São registos de ideias e observações: pontas soltas de uma história que ainda está por contar.
Transformar apontamentos numa narrativa elaborada e racional é a tarefa seguinte de qualquer repórter, depois de regressar do terreno. Para Mark Kramer, especialista em jornalismo literário da Universidade de Boston, a criação de uma reportagem começa muito antes de o jornalista se sentar para a escrever: “É antes de partirmos para o campo que devemos pensar a natureza da nossa história, isto é, a forma como a vamos querer contar”.
Este processo obedece a regras. Desde logo, “uma seleção eficaz dos tópicos” a abordar na peça. Kramer considera que “grande parte do sucesso de uma história depende do seu tema”, até porque o público-alvo é também um fator determinante na escolha do ângulo. Cabe ao jornalista “decidir se vai escrever para o cidadão comum que procura saber os factos ou para o leitor que pretende focar-se na história”.

O jornalismo narrativo foi, entre 2001 e 2007, objeto de estudo de Mark Kramer, em Harvard, período em que este integrou a Fundação Nieman. Nos ensaios que redigia para a instituição académica, o norte-americano desafiava os editores de jornais a uma maior abertura estilística. Por exemplo, aconselhou-os a adotarem técnicas de narrativa que adornassem o tradicional modelo informativo das notícias, a fim de “prender os leitores à peça”.

“O jornalista que mergulhe na própria história consegue transmiti-la de forma muito mais acutilante”. Para isso, Kramer defende que é necessário que se consiga estabelecer “uma relação de confiança” com os agentes intervenientes, “criando laços com as pessoas, uma sensação de presença junto das mesmas, sem se envolver em demasia no meio”.
Este método transforma o repórter naquilo que Kramer considera ser uma “espécie de etnógrafo contemporâneo”. Ainda assim, é impossível reportar o que se observa de forma inteiramente objetiva. “A objetividade é algo que não existe. O jornalista não é apenas uma câmara em cima de um tripé, mas, sim, um indivíduo culturalizado, com ideias preconcebidas, que o impedem de relatar algo sem se projetar no que vê.”
O bloco de notas já vai cheio quando o trabalho de campo chega ao fim. A quantidade de informação recolhida obriga a uma primeira filtragem. Ainda assim, e antes de a história passar para o papel, há ainda uma grande fatia de conhecimento adquirido que é preciso articular numa narrativa atrativa não-ficcional. Aqui se começa a escrever.
O arranque é, para Joshua Hammer, o maior desafio. O jornalista norte-americano, que passou dezoito anos da sua vida a produzir grandes reportagens para a – entretanto extinta – revista Newsweek, reconhece que a sua maior dificuldade quando inicia uma peça é o primeiro parágrafo.
“Um bom começo é fundamental para que o resto da história resulte”. Talvez por isso Hammer chegue a passar “dois ou três dias” à volta do início das suas histórias. O processo criativo pode ser penoso. Contudo, é tudo uma questão de tempo. Uma vez encontrada a fórmula que estimula a abertura da peça, a história carbura naturalmente.
“Chego a perder mais tempo com o princípio do que com o resto do texto”, confessa Hammer, que considera o primeiro parágrafo, a “parte mais importante” de qualquer grande reportagem. “Depois disso, a escrita flui com naturalidade”, acrescenta.
“Uma grande história começa por um pequeno pormenor”. Mark Kramer e Joshua Hammer partilham desta ideia. Um episódio menor funciona, geralmente, como isco à superfície para fazer o leitor mergulhar nas camadas mais profundas da narrativa.
No fundo, o essencial, no jornalismo literário, é mantê-lo blindado à ficção. Embora a fronteira entre a criatividade e a realidade possa parecer ténue, como admite Kramer, é durante o processo de construção da própria narrativa que se forja o sucesso da peça, ou seja, a sua capacidade de fazer chegar as emoções ao leitor.
Quando o faz, o jornalista ultrapassa um dos seus maiores desafios enquanto escritor: transformar um aglomerado de notas numa história estruturada e apelativa e, sobretudo, verdadeira.

Por Gonçalo Amaro

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