(Des)Informação

Fake news – um assunto com pano para mangas. Como surgem? Como se podem parar? A quem cabe o papel de as combater? Estas são algumas das questões que precisam urgentemente de resposta.

Antes de mais, há que definir o conceito. Fake news (o termo que se banalizou) significa, em português, “notícias falsas”: aquelas notícias que são total ou parcialmente inventadas (ou manipuladas), com os mais variados fins – políticos, económicos ou outros. Note-se que não podemos confundi-las com notícias erradas: estas decorrem de erros não intencionais da parte do jornalista, ao contrário das primeiras, que são resultado de atos deliberados.

Fake news, notícias falsas ou desinformação: os nomes são vários, mas referem-se à mesma preocupante realidade. Como tal, o jornalismo tem assumido a tarefa de discutir o assunto através de encontros e palestras que juntam jornalistas, académicos e outros agentes do setor dos media. 

O fenómeno não é novidade – as notícias falsas sempre existiram. Então o que mudou? Houve um desenvolvimento da tecnologia, o que fez aumentar a rapidez com que se propaga tanto a informação como a desinformação. Basta um segundo, um só clique. “A informação, hoje, vive com ondas”, e o mesmo se passa com a desinformação, afirmou José Manuel dos Santos na apresentação da revista Electra, da qual é diretor. No evento, que teve lugar a 20 de março na ESCS, a desinformação foi um dos tópicos discutidos.

José Manuel dos Santos. Apresentação da revista Electra (20/3/2019). Gabcom/ESCS.

Fenómeno novo? Não. Mais frequente? Sim. Particularmente nos últimos anos, associado a momentos de grande importância, como as eleições presidenciais nos Estados Unidos da América em 2016 e a alegada influência russa na vitória de Donald Trump, ou o referendo do Brexit, também nesse ano, ou ainda as eleições presidenciais no Brasil em 2018.

Com o aumento da produção de fake news, surge uma importante questão: será que a informação que nos chega é verdadeira? Vivemos numa época em que muitos recebem a informação principalmente através das redes sociais, através dos “Facebooks desta vida”, como referiu Maria Flor Pedroso, diretora da informação da RTP, outra das oradoras convidadas para a apresentação da revista Electra. São esses os lugares onde há notícias falsas, afirmou.

Maria Flor Pedroso (no centro). Apresentação da revista Electra (20/3/2019). Gabcom/ESCS.

A questão incontornável quando se fala em desinformação é: como combatê-la? A resposta surge das várias iniciativas que têm vindo a ser desenvolvidas – desde sites de fact checking a diversos estudos, passando por inúmeros debates e conferências.

Alguns exemplos de sites que se dedicam à verificação de informação são o Bellingcat, o CrowdTangle, o FactCheck.org, a agência Lupa e ainda o Polígrafo, o primeiro jornal português de fact checking, lançado na cimeira tecnológica Web Summit em novembro do ano passado. A SIC e SIC Notícias juntaram-se a este projeto, tendo agora um programa para averiguar a veracidade de notícias. Ainda em Portugal, o jornal português Observador juntou-se a uma rede europeia de verificação de factos, o FactCheckEU. Este projeto, que junta 19 órgãos de comunicação de 13 países diferentes, tem como propósito examinar as notícias durante a pré-campanha e a campanha para as eleições do Parlamento Europeu.

Quanto a estudos, o mais recente, “A Desinformação – Contexto Europeu e Nacional”, foi apresentado à Assembleia da República pela Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) em abril deste ano. O estudo defende, por exemplo, a importância de criar e implementar medidas de co e autorregulação e medidas que promovam a literacia mediática, e ainda a criação de legislação para sancionar a desinformação, de maneira a punir os seus autores.

Com as eleições europeias à porta, uma preocupação da União Europeia (UE) tem sido impedir a propagação de desinformação, especialmente durante o período de campanha. Para tal têm sido empreendidos vários esforços. Em 2018, a Comissão Europeia publicou um código de conduta sobre desinformação dirigido a plataformas digitais, a redes sociais e à indústria de publicidade. Facebook, Twiter, Google e Mozilla são algumas das plataformas que concordaram em assinar este documento autorregulatório. Os compromissos assumidos incluem, por exemplo, a transparência na publicidade política e o encerramento de contas falsas. Ainda em dezembro desse ano, a UE apresentou um plano de ação do qual faz parte o Sistema de Alerta Rápido, lançado em março de 2019. O objetivo deste sistema é, por um lado, sinalizar as campanhas de desinformação na UE e, por outro lado, pôr em contacto os vários Estados-membros e as instituições da UE através de uma plataforma digital, permitindo assim uma resposta conjunta.

De uma parceria entre a Lusa e a agência espanhola EFE resultou, a 21 de fevereiro, na Culturgest, a conferência “Combate às fake news – uma questão democrática”. A agência portuguesa lançou ainda, em janeiro deste ano, um site (https://combatefakenews.lusa.pt/) no qual serão disponibilizados integralmente todos os artigos produzidos sobre notícias falsas. Nele tem-se ainda acesso aos resultados da primeira conferência e às várias propostas de soluções apresentadas pelos oradores, como a regulação do ciberespaço, uma sugestão do professor universitário Carlos Blanco de Morais, ou a criação de provedores nacionais que auxiliem os cidadãos a detetar a desinformação e a denunciá-la, proposta do deputado socialista José Magalhães.

Para encontrar respostas para as questões levantadas pelo problema das notícias falsas, ocorreu ainda um debate no Centro Cultural de Belém, a 6 de abril, sob a coordenação de Luís Osório. Intitulado “Fake news vs. democracia? Populismo vs. jornalismo?”, o debate fez parte do colóquio “Sete vidas, sete debates – O futuro do jornalismo”. David Dinis, um dos oradores, e atualmente diretor-adjunto do Expresso, deu-nos aquela que considera ser a única resposta ao problema: a regulação das redes sociais. 

Em qualquer combate tem de haver pelo menos dois oponentes. Se temos de um lado as fake news, que temos do outro lado? A quem deve pertencer a responsabilidade de fazer frente à desinformação? Ao Jornalismo? Também, mas os jornalistas não podem ser os únicos a assumi-la. Segundo Henrique Monteiro, publisher do Grupo Impresa e também orador neste debate, “há uma parte da política (grande), uma parte da sociedade (grande), e das associações da sociedade civil com responsabilidade”. E porquê? “Porque este combate é um combate da democracia contra quem não quer a democracia. E a má notícia é que a democracia aos poucos vai perdendo.”

O cenário é desanimador. Há muito em jogo, mas a boa notícia é que a democracia ainda não perdeu. Há ainda muito a fazer; contudo, todos estes mecanismos de combate revelam que há pessoas a trabalhar para evitar que a democracia perca o combate contra a desinformação.

 

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