Digital: uma nova janela de oportunidades

O despertador toca. Enquanto a preguiça nos impede de levantar pegamos no telemóvel e damos uma olhadela nas novidades que invadem o Facebook. Comentários dos amigos, likes e fotos da família que a distância separa. Depois de ganharmos coragem para enfrentar mais um dia, e uma vez que o tempo escasseia, utilizamos a aplicação da carris, no tablet, para verificar qual o autocarro que nos leva ao nosso destino. Pelo caminho, aproveitamos para ler as primeiras notícias do dia e espreitar o correio eletrónico. Assim que chegamos ao nosso destino continuamos ligados ao mundo. É esta a realidade do século XXI: o século da interatividade.

Vivemos cada vez mais uma vida digital em que as tecnologias controlam os novos quadros de relacionamento e as novas formas de expressão pública. Na VI Conferência Anual da Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC): Media na Era Digital debateu-se isso mesmo. A sociedade está em profunda mudança.

“Em 2020 vamos ter cerca de 50 biliões de aparelhos conectados”, prevê Celso Martinho, fundador do SAPO, quando questionado acerca do futuro da comunicação em ambiente web. Na sua opinião, “vivemos um grande momento de convergência e revolução”.

Mas será que estamos seguros no mundo online? José Magalhães responde: “As pessoas não podem ser parvas. Se eu meto a minha foto num site inseguro, vou-me queixar por ela aparecer no Correio da Manhã?”. Pondo de parte a possibilidade de discussão acerca de queixas de invasão de privacidade, o ex-deputado do Partido Socialista assume que, para o controlo das mesmas, o segredo está na responsabilidade das pessoas, pois a “tecnologia não é indomável e pode ser abatida”.

Jornalismo na Era digital

Com o aparecimento de formas mais rápidas e fáceis de obter informação, como as redes sociais e os blogues, há uma pergunta importante a fazer: qual o papel do jornalismo no novo ecossistema digital? Pedro Santos Guerreiro, diretor-executivo do Expresso, defende que as redes sociais são uma ótima forma de expandir notícias. No entanto, o antigo diretor do Jornal de Negócios reconhece que estas estão repletas do chamado “jornalismo do cidadão” – cheias de produtos amadores. Assim, é necessário “haver uma diferença entre o jornalismo de produzir e o jornalismo para reproduzir”.

Numa entrevista exclusiva ao jornal 8ª Colina, logo após a conferência, David Dinis, diretor do jornal digital Observador, confessou com felicidade: “nunca houve tanta gente a ler jornais”. O facto de haver cada vez mais dispositivos eletrónicos, possibilita a expansão da informação, fazendo com que tudo chegue a todos. Neste aspeto, o vencedor do Prémio Meios&Publicidade para o “Lançamento do Ano” não tem dúvidas: “o jornalismo tem de ser plural e todos ganhamos quando apresentamos vários formatos. Não há uma fórmula”.

Apesar de existirem inúmeras formas de difundir a informação, David Dinis acredita que “o fim continua a estar na palavra”. No que diz respeito ao exercício do bom jornalismo, as etapas continuam a ser as mesmas: “descobrir, confirmar e publicar”. “Estamos no caminho certo”, concluiu o diretor do Observador. Quanto ao futuro do projeto do jornal digital, David Dinis rematou dizendo que o segredo está em “encontrar o equilíbrio, mas não ter medo de surpreender”.

Novos consumos, novos consumidores

A maioria dos portugueses que usam a internet procuram notícias através redes sociais, em especial no Facebook. Esta foi uma das conclusões do I Inquérito Nacional desenvolvido no âmbito do projeto da ERC dedicado aos consumos divulgados na Conferência da ERC, coordenado por Gustavo Cardoso.

Na opinião do sociólogo,, este é o dado “mais surpreendente” do inquérito, já que, introduz um novo intermediário a considerar nos modelos de negócio a adotar pelos produtores de notícias. Opinião que foi partilhada por todos os intervenientes no painel “Indústria de média na sociedade digital”. António Beato Teixeira, vogal do Conselho de Administração da RTP afirmou que a “força do Facebook é surpreendente”, contudo, “preocupante”. Ainda assim destacou a confiança que os inquiridos depositam no seu “círculo de amigos”, no facebook, como fonte de informação. Pedro Braumann, membro da Direção da Confederação Portuguesa dos Meios de Comunicação Social, defendeu que os media de proximidade constituem um “espaço importante” alertando para a necessidade de adaptação dos modelos de negócio.

Novos players da informação

O estudo “Media 2020”, realizado pela Roland Berger Consultants e apresentado por António Bernando, partner da empresa, lançou para o debate algumas propostas para a reestruturação do mercado da informação. O especialista defende que os produtores de notícias não estão a saber usar todo o manancial de informação disponibilizado pela utilização das redes sociais e da internet.

Perante o diagnóstico feito por esta consultora, Daniel Proença de Carvalho, presidente da Controlinveste salientou a necessidade de a indústria estar “atenta à migração dos consumidores”, não deixando de alertar para a “concorrência desleal” dos novos distribuidores e agregadores de informação. Beato Teixeira (RTP) reforçou: “do ponto de vista tecnológico ainda há muito a fazer. A indústria é muito boa a competir e pouco flexível a cooperar”.

Texto: Gonçalo Pereira e Marta Lopes

Fotos: Inês Malta

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