Do “Combate” à Indiferença aos novos desafios do jornalismo

Presidente da AMI, Dr. Fernando Nobre © Inês Malta

“Nos conflitos o jornalista está permeável à manipulação”. Foi desta forma que Carlos Narciso, jornalista que acompanhou várias guerras em África desde a década de 70, falou da exposição dos jornalistas que no terreno dos confrontos vivem em clima de tensão e estão sujeitos a várias contingências. Cândida Pinto, jornalista da SIC que presenciou diversas guerras no Médio Oriente, não esconde que o repórter não tem acesso a toda a verdade, no entanto, considera que, para apurar a veracidade dos factos é imperativo “mergulhar nos acontecimentos”. “O repórter de guerra nem sempre pode decidir como fazer e o que fazer. É um problema que temos de ultrapassar”, acrescentou Paulo Moura, jornalista que esteve presente em países como o Kosovo e Afeganistão, e a quem coube a tarefa de moderar o primeiro painel do colóquio, dedicado ao jornalismo de guerra.

Será que há formas de ultrapassar o blackout informativo que por vezes é imposto pelas partes em conflito? As redes sociais serão uma forma de recolher informação válida e fidedigna? Cândida Pinto acredita  “que o facebook e outras redes sociais são ferramentas de trabalho que podem ser válidas e úteis, que nos levam a zonas que de outro modo não conseguiríamos chegar e trazem-nos outras coisas”, dando como exemplo o uso que lhe tem sido dado por alguns jornalistas para seguir e falar com os portugueses que integraram o Estado Islâmico . Menos confiante, Carlos Narciso defendeu que o problema das redes sociais é a falta de filtragem que pode colocar em causa a veracidade dos factos.

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Em situações limite, no palco da guerra e não só, os jornalistas são confrontados com questões  éticas e deontológicas. Respeitar a privacidade, manter a dignidade e medir os riscos são algumas das matrizes que guiam (ou devem guiar) o repórter no seu percurso diário. Pedro Coelho, repórter da SIC, diz que não há ética na profissão quando há uma “entidade castradora” chamada mercado. Esta “entidade superior” – como o próprio o dominou – faz com que “muitos de nós [jornalistas] vacilemos”. A título de exemplo, Pedro coelho admitiu já ter pago por uma informação. Esta confissão surgiu em resposta a Ana Sofia Fonseca, jornalista freelancer, que contou a história de uma entrevistada que lhe pediu dinheiro em troca, afirmando que nunca o faria, o jornalista da SIC, culpou o mercado pela opção que tomou: “se não estivesse pressionado pelas audiências das minhas reportagens não tinha pago”.

“Será que devo ou não devo [ter limites]?”. Eis a questão que Ana Leal, jornalista da TVI, colocou para reflexão do auditório. Tendo como pano de fundo os recentes a acontecimentos que vitimaram 12 jornalistas do jornal satírico francês, Charlie Hebdo, foi imperativo questionar se deve haver ou não limites à liberdade de expressãoTemos de colocar a questão: até onde podemos ir?”, referiu Ana Leal. O JORNALISTA DA SIC, Daniel Cruzeiro, mais prudente, afirmou que um limite muito dramatizado está muito perto da censura e isso “é mau para o jornalismo”.

No ano em que a Assistência Médica Internacional (AMI) festeja três décadas a intervir em situações de crise e emergência, ajudando a combater a fome e a pobreza além fronteiras, a fundação anunciou, no final do colóquio, os vencedores da 17ª edição do Prémio Jornalismo Contra a Indiferença. Este galardão destina-se a destacar um trabalho jornalístico que represente um testemunho e uma contribuição de modo a despertar a consciência da sociedade civil. Catarina Gomes, do Público, com as reportagens “Perdeu-se o Pai de José Carlos” e “Lepra – Órfãos de Pais Vivos” e Pedro Miguel Costa da SIC com “Faz de Conta que é uma casa” foram os grandes vencedores.  Foram ainda distinguidos com uma menção honrosa Mirian Alves da SIC, Ricardo Rodrigues do Notícias Magazine e ainda Sílvia Caneco , antiga aluna do curso de Jornalismo da Escola Superior de Comunicação Social e actualmente jornalista do “i”.

Texto: Gonçalo Pereira

Fotos: Inês Malta

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