Dois dias no coração da Europa

Faltavam 5 minutos para as 10 de uma manhã de outubro e estávamos de partida do aeroporto de Lisboa. O voo TP618 com destino a Bruxelas levava cinco multiplicadores de informação, alunos finalistas da ESCS, prontos para conhecer melhor a Comissão Europeia e todo o seu funcionamento. Deixámos Lisboa com 23 graus. Na chegada a Bruxelas a temperatura tinha caído para os 13. Conforme a visita de 48 horas foi avançando mais frio ficou.

A porta do avião abriu-se na capital belga à uma e meia da tarde e o sol já tinha ficado para trás. Descemos para uma cidade em tons de cinzento com aquele nevoeiro fresco que tínhamos vontade de encontrar. Já estávamos fartos dos dias com o tanto calor de Lisboa.

Fomos levados ao hotel, juntamente com alunos das outras universidades. Tivemos a primeira tarde livre, oportunidade para conhecer a capital belga e europeia. Depois do Parc du Cinquantenaire, com vários museus do Estado belga, perto do hotel, aventurá-mo-nos no metro de Bruxelas, que nos pareceu, em primeira impressão, algo confuso e fomos até ao Atomium, enorme escultura criada para a Expo de 1958, representando uma molécula de ferro elementar ampliada até à altura de 108 metros. Seguimos depois para o centro da cidade, rumo à Grand Place, a célebre praça central de Bruxelas, envolvida por edifícios com fachada de grande riqueza ornamental.  Visitámos o máximo que conseguimos e experimentámos a gastronomia. Comparada com a portuguesa não nos pareceu ficar a ganhar: pouca quantidade de comida por dose e a preços elevados. Provámos, entre o que tinha preço mais em conta, um prato típico da cidade – Belgium Fries – que é nada mais do que batatas fritas que se comem acompanhadas pelos mais variados molhos. Podemos todos os cinco dizer que não ficámos nada impressionados com a gastronomia possível, embora esse não fosse o objetivo da visita.

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Berlaymont, o centro da máquina europeia

 

Na manhã do segundo dia rumámos até à Comissão Europeia. Esperava-nos uma jornada repleta de palestras e visitas aos edifícios que são o coração institucional da União Europeia. No principal e mais histórico desses edifícios, o Berlaymont, onde estão, nos andares de topo, os gabinetes dos 28 comissários europeus. Acompanhámos a primeira palestra do dia, sobre a política da Comissão Europeia de comunicação com os média. Essa apresentação foi conduzida por Rui Cavaleiro, press officer da Comissão europeia e por Esther García, do departamento da Ajuda Humanitária e Proteção Civil.

Esther explicou-nos que a maior preocupação, a nível humanitário, da União Europeia está relacionada com o número de refugiados resultante do conflito sírio. Neste momento, milhares de pessoas continuam a abandonar os seus lares e muitas tentam dirigir-se à Europa.

A ajuda europeia é encaminhada através da construção de abrigos, serviços de saúde, apoio psicológico, aumento das condições de higiene, educação informal e criação de espaços onde crianças e mulheres possam receber atenção específica. Para que isto seja possível, organizações como a UNHCR e a Save The Children, juntamente com inúmeras outras, apoiam a União Europeia nesta missão. Uma missão que, apenas em 2016, numa primeira e numa segunda ronda de ajuda humanitária, envolveu custos na ordem de 200 milhões de euros.

Os objetivos para o futuro imediato passam por aumentar a assistência nos Balcãs, na Turquia e na Síria

Fizemos também uma visita aos estúdios audiovisuais da Comissão: visitámos os estúdios de rádio e de televisão e ficámos a saber tudo sobre o funcionamento do canal da União Europeia. No final da manhã assistimos ainda a uma conferência de imprensa, que nos fez perceber como funciona a comunicação com os jornalistas dentro da Comissão.

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No Charlemagne, o trabalho dos porta-vozes

 

A parte da tarde foi passada do outro lado da rua, no edifício Charlemagne. Explicaram-nos como é o trabalho de um porta-voz da Comissão Europeia e dos Comissários, o que nos ajudou a perceber a importância dessas tarefasl.

O trabalho dos porta-vozes é, essencialmente, de sintonia. São eles quem tem a missão de garantir que a Comissão Europeia fala para o exterior a uma só voz, centrada nas mesmas ideias e sem divergências. São eles os responsáveis por transmitir as novidades e o ponto de situação de diversos tópicos de uma instituição constituída por 28 comissários, ou seja, 28 grupos de trabalho sobre diferentes matérias. E tudo isso deve ser feito on the record: só podem falar oficialmente e exclusivamente nos briefings de imprensa que organizam, diariamente ao meio-dia.

Em linhas gerais, ser porta-voz requer uma atividade intensa de trabalho, cujo clímax diário é alcançado durante a conferência de imprensa do meio-dia. Esse é o único momento onde podem responder às perguntas dos jornalistas, que, seguindo o apelo dos porta-vozes, devem-se sentir à vontade e perguntar tudo o que a curiosidade lhes puxar.

Antes desse briefing, que dura uma hora, as manhãs são preenchidas com duas reuniões – uma às oito da manhã e outra às 10 horas – cujo objetivo é o de ajustarem posições e fazerem convergir os seus discursos, para não haver diferenças. Tudo deve estar em conformidade com a posição oficial dos comissários, e é por isso que, antes da segunda reunião, às 8.30, participam na reunião diária no gabinete do presidente do respetivo grupo de trabalho. É nesta altura que são recolhidos os pontos de situação diários para serem a seguir divulgados aos jornalistas.

Mas o dia dos porta-vozes, claro, não termina ao meio-dia. Estão sempre a trabalhar para poder lançar press-releases, notícias diárias, organizar discursos e comunicar agendas. Matérias para os jornalistas poderem recolher a qualquer altura.

 

 A casa dos eurodeputados

 

A manhã do último dia foi passada no edifício em Bruxelas do Parlamento Europeu, a casa dos 751 eurodeputados. Prepararam-nos uma visita guiada e explicaram-nos tudo sobre o seu funcionamento, desde a eleição dos deputados às tarefas diárias de cada um dos eurodeputados, representantes de 500 milhões de cidadão nos 28 países da União Europeia. Visitámos tambem o museu do Parlamento, o Parlamentarium.

Passada a hora de almoço, chegou a hora de rumar de ao aeroporto para o regresso a Lisboa. Entrámos no avião com uma nova experiência vivida e com muito frio à mistura. Aprendemos muito com esta visita e voltamos a Lisboa com a esperança de que mais iniciativas destas se repitam no futuro.

Sem dúvida que esta foi acima de tudo uma experiência que nos permitiu aprender ou, pelo menos, compreender. Numa das primeiras palestras, foi-nos esclarecida a forma de funcionamento e a organização da União Europeia nas suas três principais instituições: o Parlamento Europeu, que representa a voz dos cidadãos e cujo presidente, desde 2012, é o social-democrata alemão Martin Schulz; o Conselho Europeu que funciona como a voz dos países e presidido pelo polaco Donald Tusk; por fim, a Comissão Europeia, liderada pelo luxemburguês Jean-Claude Juncker, eleito no dia 15 de julho de 2014, com funções de salvaguarda do interesse comum dos 28 países. O que também nos foi explicado ao pormenor foram as prioridades da Comissão Europeia nesta liderança de Juncker: o emprego, crescimento e investimento; o mercado único digital, o aprofundamento mais justo da união económica e monetária, a promoção da justiça e dos direitos fundamentais, a projeção da União Europeia no Mundo, o acordo de comércio com os Estados Unidos, a evolução democrática e as questões das migrações.

Também foi abordado o Brexit. Foi possível perceber em maior detalhe o impacto da saída do Reino Unido da União Europeia, através de alguns dados relativos à contribuição britânica para o orçamento da UE. Também ficámos com noção mais minuciosa sobre a estratificação da opção dos britânicos consoante a idade de quem votou no referendo: quanto mais novos os cidadãos do Reino Unido, mais votos foram expressos a favor da manutenção na União Europeia. Por outro lado, em idades mais avançadas os votos no referendo refletiram as posições de quem não queria permanecer na União Europeia.

As consequências do Brexit são um tema principal para as discussões técnicas e políticas nos próximos meses em Bruxelas.

 

Texto e fotos:

Catarina Santos

João Pereira

Luís Fernandes

Maria Bargado

Sandra Matoso

 

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