Covid-19: Organização Mundial de Saúde (OMS) declara pandemia mundial

Covid-19: Organização Mundial de Saúde (OMS) declara pandemia mundial

Covid-19 é o nome atribuído pela Organização Mundial de Saúde (OMS) à doença provocada pelo novo coronavírus, SARS-COV-2, que pode causar infecção respiratória grave, como pneumonia.

Este vírus é identificado pela primeira vez em humanos, no final de 2019, em Wuhan, província de Hubei, China. Em menos de um mês Em menos de um mês, são confirmados os primeiros casos noutros países, como França e Itália – estes casos são importados por cidadãos que regressam ao seu país depois de terem estado na cidade chinesa.  No dia 11 de março de 2020, a OMS declara pandemia mundial. O Diretor Geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, refere em conferência de imprensa que a epidemia da Covid-19 atinge o nível de pandemia por existir mais de 118 mil casos de infeção e se registarem 4.291 mortes em 114 países. 

Como se manifesta o vírus dentro do nosso corpo?

Perante um cenário inesperado, desde o início que a comunidade científica mundial mobiliza o seu trabalho para o estudo das particularidades do novo coronavírus. 

Cristina Godinho da Silva, doutoranda em virologia e investigadora na área de imunologia no Laboratório Henrique Veiga-Fernandes na Fundação Champalimaud, explica, em entrevista ao Oitava Colina, que a dificuldade desta investigação coloca-se no facto de se ter de agir no imediato, quando o conhecimento científico necessita de ser construído ao longo de anos: “Temos que, de uma forma muito rápida e eficaz, compreender da melhor forma possível os vários aspetos da biologia do vírus e a resposta do sistema imunológico à infeção, para conseguir encontrar a forma mais inteligente e mais eficaz de o combater. Como o vírus surgiu há pouco tempo não temos o mesmo conhecimento científico de um vírus que surgiu há centenas de anos ou milhares de anos”. 

Apesar de as informações sofrerem atualizações constantes, rapidamente as entidades de saúde e os meios de comunicação social se unem para responder às dúvidas e preocupações da população. Toda a população humana corre o risco de contrair o vírus. Em casos graves, este tem a capacidade de causar a falência de órgãos, pneumonia grave com condições respiratórias severas e eventual morte. Porém, estes casos mais graves verificam-se nos designados grupos de risco – grupos em que se inserem as pessoas com idade avançada (65 anos ou mais), doenças crónicas e um sistema imunitário comprometido. 

Segundo a OMS, a transmissão do vírus ocorre pelo contacto próximo com pessoas infetadas que libertam gotículas no ar, ao tossir ou espirrar, ou através do contacto com superfícies e objetos contaminados. Sabe-se que o vírus entra no nosso corpo pelo nariz, boca ou olhos, mas como é que este o ataca? 

“O vírus infeta as células ao expressar à sua superfície uma proteína que se vai ligar a um recetor que existe nas nossas células. É como um sistema de chave e fechadura, em que o vírus tem uma proteína que é a chave e essa proteína vai ligar-se a uma fechadura que está nas nossas células”, explica a investigadora. O vírus tem a particularidade de não só infetar as células da nasofaringe, como o vírus da gripe, mas também as células do pulmão e, consequentemente, infetar o trato respiratório inferior. 

“O vírus multiplica-se ao provocar a lise da célula, isto é, a célula rebenta e há libertação das partículas virais que vão infetar todas as células vizinhas e novas, o que vai provocar danos ao nível dos tecidos”, acrescenta. “Em paralelo com este mecanismo viral há o desenvolvimento de uma resposta imunológica por parte da pessoa infetada. O nosso sistema imune vai reconhecer que há uma infeção e vai começar a mobilizar um exército de células para a combater. O que acontece é que se essa resposta for muito forte, não só vai eliminar as células que estão infetadas como pode eliminar células saudáveis. Pode haver danos que são causados nos pulmões, não diretamente como consequência do vírus, mas da resposta imune ao vírus”. 

Sinais e sintomas

Estima-se que num período considerado de 14 dias desde a exposição ao vírus, surjam os primeiros sintomas. Porém, o vírus transmite-se de forma eficiente e rápida. A sua transmissão antecede “o desenvolvimento de sintomas, ou seja, antes de uma pessoa começar a ter febre, ou tosse, esta já está infetada”, diz a especialista. 

Ainda em processo de investigação encontra-se a transmissão em grande parte por pessoas assintomáticas, “aquelas que são portadoras do vírus e que o transmitem, mas que não chegam nunca a desenvolver sintomas”, explica a virologista. 

As consequências do vírus: Um mundo em quarentena

No mês de março, o número de países infetados pelo novo coronavírus aumenta abruptamente. O Diretor Geral da OMS revela uma profunda preocupação com os “níveis alarmantes de disseminação e severidade” da doença. O apelo é feito aos governos internacionais: é necessário adotar “ações urgentes e agressivas” para alterar a situação. Perante essa urgência,  os diferentes países começam a desenvolver métodos de diagnóstico de infeção, a procurar medicamentos para o tratamento de doentes e a tomar medidas de afastamento social conforme a realidade que enfrentam. 

Dá-se início ao combate da progressão da pandemia e à salvaguarda da capacidade de resposta dos serviços de saúde. As pessoas com infeção são isoladas – internadas, nos casos mais graves, e em auto-isolamento em casa. O Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças recomenda que se imponham cordões sanitários e que sejam cancelados eventos com grande concentração de pessoas como festivais de música, teatros, conferências e acontecimentos desportivos. Passam a poder viajar apenas os passageiros com uma necessidade estrita. Todos os restantes setores de atividade também se reajustam com medidas especiais – encerram-se escolas, adotam-se cuidados relativamente às instituições prisionais, aos lares de idosos e a pessoas em situação de sem-abrigo.  

Pelo menos 25 países declaram Estado de Emergência. A maioria destes países, situados na Europa, apresentam um número de mortes por Covid-19 superior ao da China. Uma dezena de outros países que adotam esta medida excecional situam-se no continente americano.

Nos últimos meses do ano, o confinamento social torna-se a medida mais eficaz para travar a propagação do vírus esperada para os tempos que se avizinham: “O vírus transmite-se única e exclusivamente porque existem pessoas infetadas que contactam com pessoas não infetadas. Se não houver interação social entre o infetado e o não infetado, não há propagação”, explica a Drª. Cristina Godinho da Silva.

O Estado de Emergência limitou a liberdade de movimento dos cidadãos para a proteção da saúde pública e tomam-se medidas para garantir o abastecimento de produtos alimentares. Estes cinco países começaram a fazer as primeiras declarações do estado de emergência. Estes foram os cinco países que começaram a fazer as primeiras declarações do estado de emergência.

EPA

Hong Kong 

Este é dos primeiros territórios fora da China Continental a declarar o Estado de Emergência. Independentemente das novas regras, as constantes manifestações ligadas ao movimento pró-democrata contra as políticas governamentais continuaram. As escolas fecham no espaço de duas semanas, as viagens são suspensas e todos os visitantes ficam sujeitos a uma quarentena obrigatória.

Alessandro Di Marco/EPA

Itália

No mesmo dia, o vírus coloca a nação italiana em casa. Sendo o país europeu com maior número de infetados e vítimas mortais, o confinamento é geral. Todos os estabelecimentos comerciais fecham, à exceção de supermercados, mercearias e farmácias. Estes fornecem bens de primeira necessidade aos cidadãos, ao contrário dos restaurantes, bares e cabeleireiros.

Olivier Hoslet/EPA

Bélgica

Numa realidade de confinamento geral, ficam apenas excluídos o encerramento de supermercados, bancos, estações de serviço de combustíveis, farmácias e estações de correio. Os transportes públicos continuam em funcionamento normal para facilitar a deslocação das pessoas para o trabalho ou para auxiliar familiares que necessitem de cuidados especiais e de apoios.

Proíbem-se os aglomerados. Contudo, continua a ser permitido andar de bicicleta ou correr em espaços abertos, sozinho ou com a companhia em exclusivo de uma ou outras pessoas residentes na mesma casa.

Justin Lane/LUSA

Estados Unidos da América

O presidente, Donald Trump, declara o Estado de Emergência a 13 de março, numa conferência de imprensa. Justifica este decreto como uma forma de “impedir a expansão do vírus”.

No fim da conferência, despede-se dos responsáveis que o acompanham no início com um aperto de mão, atitude desaconselhada pelos profissionais de saúde a propósito da situação que se vive. 

Chema Moya/EPA

Espanha

O decreto do Estado de Emergência é apresentado no dia 14 de março. Além da deslocação casa-trabalho, e vice-versa, também a saída para comprar os bens de primeira necessidade é permitida. Os restantes estabelecimentos comerciais encerram de uma forma geral e os transportes públicos veem a sua frequência de circulação reduzida a metade.  

O governo de Pedro Sánchez comprometeu-se em garantir o fornecimento de alimentos, energia e de medicamentos.

No dia 25 de outubro, Espanha decreta novo Estado de emergência até maio de 2021. Esta medida, aprovada em Conselho de Ministros, irá vigorar por seis meses. Vai existir um  recolher obrigatório, vão ser proibidas as deslocações entre as comunidades autónomas, exceto em situações devidamente justificadas. Haverá policiamento nas ruas.

O regresso parcial à normalidade 

Além dos impactos mais diretos da pandemia, começam a surgir sinais do custo socioeconómico do confinamento ao nível internacional. “A grande dificuldade é de facto esta gestão de tentar diminuir a propagação do vírus, mas tendo a perfeita noção de que, ao mesmo tempo, as consequências socioeconómicas do confinamento são tão graves que também não podemos fechar completamente os países”, afirma a virologista. 

Nos finais de maio, com o fim dos Estados de Emergência, vários países europeus adotam a nova etapa de desconfinamento, progressiva e gradual, para retomarem, em segurança, seguindo as recomendações gerais de higiene e segurança, a atividade social e económica. Os estabelecimentos, empresas e serviços retomam a atividade de forma faseada com horários e medidas específicas. 

Os meses que se seguem são de progressos e recuos governamentais no regresso à normalidade face à atualização constante sobre a situação interna de cada país e global. “Era expectável que após o aliviar das medidas de confinamento, que aconteceu no verão, com o regresso às aulas e ao trabalho, com esta tentativa de normalização e o aumento da interação social, se aumentasse o número de casos”, refere a Drª. Cristina Godinho da Silva. 

O colapso dos sistemas de saúde

Face ao crescente número de casos no mundo, muitos são os hospitais que estão a atingir os limites de capacidade para tratar de todos os doentes. O número de camas não é suficiente, os profissionais de saúde revelam uma forte exaustão e torna-se necessário tomar medidas que impeçam o colapso dos sistemas de saúde.

Para Cristina Godinho da Silva a sobrelotação dos hospitais e o cansaço dos médicos e enfermeiros é um problema global. Relembra a terrível situação vivida nos hospitais em Espanha e Itália no mês de março e abril.

A virologista defende que “a testagem massiva é a única arma que temos neste momento para evitar a rutura dos SNS (Sistema Nacional de Saúde)”.

Quanto à possibilidade de sobrelotação dos hospitais, a virologista afirma: “isso seria desastroso porque depois não há nem recursos materiais nem humanos para tratar os doentes. É essa a situação que nós queremos tentar evitar ao máximo”. 

A vacina

No mês de novembro surgem avanços no desenvolvimento de uma vacina contra o SARS-CoV-2.

A vacina norte-americana Pfizer e a alemã BioNTech anunciam 95% de eficácia na prevenção contra a Covid-19 no fim dos ensaios clínicos. Já a farmacêutica norte-americana Moderna revela que a sua vacina experimental tem uma eficácia de 94.5%. Na Rússia, a vacina Sputnik V que está a ser desenvolvida apresenta uma eficácia de 90%.

No dia 8 de dezembro, o Reino Unido é o primeiro país europeu a iniciar o plano de vacinação com a vacina Pfizer/BioNTech. Margaret Keenan, uma senhora de 90 anos, foi a primeira a receber a vacina, num hospital em Coventry, região central da Inglaterra.

Cristina Godinho da Silva explica o significado da eficácia da vacina desenvolvida pela farmacêutica Moderna. Depois de uma seleção de 30.000 voluntários, realizada no dia 27 de julho, segue-se a divisão dessa amostra em dois grandes grupos. O primeiro grupo é chamado de grupo placebo, isto é, não recebe a vacina real e desconhece qual a vacina que levou. O segundo grupo recebeu a vacina real, baseada em RMA mensageiro (material genético do vírus). “O que foi anunciado é que 95 participantes no grupo placebo desenvolveram Covid-19 e no grupo que levou a vacina real só cinco pessoas é que ficaram infetadas”.

Outro aspeto salientado é que “esta vacina não só vai prevenir a infeção, mas também permitir que a doença não se desenvolva de forma tão severa nos indivíduos, ou seja, não têm um quadro clínico tão grave. Mesmo aqueles que desenvolvem a doença, têm sintomas mais moderados”.

Também na China estão a ser feitos desenvolvimentos quanto à vacina. A Coronavac, desenvolvida nos laboratórios chineses Sinovac, demonstra uma grande taxa de eficácia nos voluntários que foram testados. Ainda está na fase dois dos ensaios clínicos.

Enquanto as vacinas não chegam a todos os países, a pandemia trava-se de outras formas. Cristina Godinho da Silva apoia a promoção de uma testagem massiva “. É isto que acontece em muitos países asiáticos como é o caso por exemplo da China, Japão e como é agora no caso da Austrália”.

Nestes países, sempre que surgem novos surto há uma testagem massiva. Contudo, esta realidade não é comum a todos os países. “Não se fica à espera de ver se há sintomas, se o contacto é mais ou menos próximo. Isso é algo que não está a ser feito em Portugal, mas que também não está a ser feito na Europa e nos Estados Unidos da América”. 

Será possível regressar em breve à normalidade? Apesar de o desenvolvimento das vacinas ter sido muito rápido e com resultados promissores, estes ensaios clínicos englobam indivíduos saudáveis e não indivíduos com patologias associadas ou com idade muito avançada, que representam, precisamente, os doentes de risco. 

“É difícil nesta fase prever o futuro. Aquilo que todos esperamos é encontrar uma vacina que seja eficaz e segura. O importante é que haja uma vacinação massiva da população mundial num período de tempo relativamente curto. Isto vai permitir quebrar a transmissão do vírus”, conclui.

Ilustrações de Carina Rita

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